“A felicidade, principalmente das crianças, é a realização do meu sonho”, afirma fisioterapeuta que criou Centro de Equoterapia de Piratini

Equipe do EquoMais que se capacitou para atuar de acordo com as normas da ANDE Brasil, afirma que os resultados obtidos são emocionantes. (Foto: Edu Rickes)

“Diante da minha ignorância neste sentido, eu me perguntava e duvidava: em que um cavalo pode ajudar para melhorar a vida do Lorenzo?”. Essa era a principal pergunta a partir do desconhecimento da funcionária pública Caroline Amaral sobre a eficácia da Equoterapia, método terapêutico e educacional que trabalha de forma multidisciplinar e interdisciplinar o desenvolvimento psicossocial de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Síndrome de Down, Paralisia Cerebral e outras patologias.

Caroline é mãe de Lorenzo, que tem TEA nível moderado. O menino é um dos 41 praticantes que frequentam o Centro de Equoterapia EquoMais, situado no Passo da Invernada, às margens da ERS-702, a oito quilômetros do centro da cidade. O local é a realização do sonho do fisioterapeuta Ricardo Manetti Porto, proprietário de 60 hectares, cinco destes destinados à estrutura que possibilita os benefícios da Equoterapia a partir do contato com os cavalos, éguas e um pônei.

“Ainda na faculdade, percebi a importância deste tratamento para pessoas com diferentes deficiências, em especial, os autistas. Passei, então, a sonhar em implantar esse serviço em Piratini, já que, até então, a terapia no lombo do animal era algo limitado e inviável no município por necessitar de um grande investimento”, recorda Porto.

O fisioterapeuta revela que foram quatro anos entre a projeção e a execução do projeto. Nesse meio tempo, a equipe aumentou com a chegada da pedagoga Aline Rosa, da psicóloga Mariana Martins Chiarelo e do guia Roberto Jr de Oliveira. Em apenas seis meses, o grupo se deparou semanalmente com os resultados que, inclusive, emocionaram a todos. “Quando passei a testemunhar os benefícios, os tantos resultados, tive convicção que meu sonho foi realizado. A felicidade não só dos pais, mas principalmente das crianças, dão a mim tal certeza”, relatou Porto.

A estrutura, que é também composta por uma extensa área coberta, está de acordo com as regras impostas pela Associação Nacional de Equoterapia (ANDE Brasil) – entidade civil sem fins lucrativos, de caráter filantrópico, assistencial e terapêutico, com sede no Distrito Federal e atuante em todo o país.

Mariana que concluiu a faculdade de Psicologia há cerca de seis meses e confessa que a intenção era atuar em outra área, mas garante se encontrou na profissão ao participar do projeto e afirma que não se vê fazendo outra coisa. Os motivos? Os abraços. “A ideia era, principalmente, atuar na área cognitiva dos praticantes, mas nosso envolvimento com eles é tamanho que não só a rápida evolução deles me encanta, tanto que, às vezes, nem acredito no que estou testemunhando. Sendo assim, a minha então preferência pela psicologia hospitalar foi substituída pelos abraços, a parte afetiva do tratamento, pois as crianças chegam nos abraçando e só vão embora depois de nos abraçarem”, conta.

A psicóloga conclui relatando um dos tantos exemplos da eficácia do tratamento. “Tivemos uma menina que havia caído do cavalo. Então, seria normal que sequer aceitasse chegar perto do animal. A dificuldade era tanta que percebi no semblante dos pais a decepção, a certeza de que não daria certo. Resumindo: hoje, o brinquedo que ela mais gosta é um tordilho”.

O sargento da Brigada Militar, Fabiano Matos, pai de Mateus, 8 anos, diz estar encantado com a melhora do filho, que é autista. Matos aponta a parte afetiva como um dos tantos exemplos de benefícios ofertado pelo EquoMais.

“Entendo que o conjunto de todos os tratamentos aos quais ele é submetido é responsável por melhorar a qualidade de vida do Mateus. Mas foi a partir do contato com os animais que ele deu um salto neste sentido. A ele, a equipe ensinou a encilhar o cavalo, dar o que comer e beber ao bicho. E isso, o carinho com os animais, para mim não tem preço”, afirma o sargento, que segue: “Temos uma cadela em casa e ele sequer interagia com ela. Hoje, tudo é diferente. Ele faz carinho no cão, o que entendo, oportunizou que se tornasse afetivo, inclusive com a família. O que fazem aqui é uma maravilha”.

Para concluir a parte de testemunhos com relação à eficácia do projeto desenvolvido por Porto, retornemos ao relato de Caroline, que abriu a reportagem.

“O início no EquoMais foi difícil, mas hoje, ele, que integra a primeira turma de usuários dessa terapia, já olha para este céu e também mudou sua comunicação visual com a família. O Lorenzo não mais se isola dos demais colegas de creche e com estes melhorou a convivência e interação”, relata a mãe.

“No início, ele só montava com o Ricardo, mas agora segura as rédeas e anda sozinho no cavalo e tem postura, tudo isso, é claro, sempre acompanhado. Outra observação que fiz recentemente foi que, mesmo com o imenso ruído causado pela chuva no telhado do galpão, que é metálico, o que até para nós é algo que assusta, não mais incomoda, o que é normal, afinal, para quem é TEA, a sensibilidade ao som elevado é um dos grandes problemas. Me faltam palavras para definir a melhora do meu filho, bem como minha gratidão à equipe”, completou a funcionária pública.

Em linguagem compreensível para os leigos a respeito dos benefícios oferecidos pela Equoterapia, a pedagoga Aline responde: “Em síntese, o passo do cavalo, que é tridimensional, proporciona que, ao andar, ele permita a quem nele está montado estímulos do tônus muscular, o que vai direto para o cérebro e a consequência é o desenvolvimento, inclusive motor. Isso contribui para quem faz uso dessa terapia a tornar a se socializar ou se socializar melhor e ainda impacta no aprendizado na escola”. “Ainda não temos praticantes destas patologias, mas a Equoterapia também pode ser usada para outras patologias, como, por exemplo, sequelas causadas pela meningite, para quem teve fraturas, inclusive de lombar, depressão, Parkinson, Alzheimer e dependência química”, completa a pedagoga.

Quanto à satisfação pessoal e profissional, Aline se refere ao caso de um praticante adulto, que perdeu parte dos movimentos das pernas após um acidente. “Ele chegou aqui em janeiro e nem mesmo sorria, pois estava em virtude das sequelas que o mantiveram numa cadeira de rodas por muito tempo, em estado profundo de depressão. Só permitia que o Ricardo se aproximasse. Hoje, ele usa muletas, dá muitas risadas, conversa e brinca com todos nós, ou seja, readquiriu sua autoestima”, relatou.

Tratamento a partir do contato com equinos é garantido a todos sem nenhum custo para as famílias. (Foto: Edu Rickes)

Apoio do município

O secretário de Saúde, Wilbor Pinheiro, destaca que a Prefeitura decidiu assegurar o acesso à Equoterapia para todos, mesmo a Administração Municipal não sendo responsável pelo custeio deste atendimento – competência que é do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo Pinheiro, os subsídios para pagar os atendimentos se dá através dos valores repassados pelo SUS ao município, com contrapartida da Prefeitura.

O secretário afirmou que a demanda é tão grande por conta de a maioria das famílias não possuir condições financeiras para custear o tratamento que a gestão atual decidiu fazer um pregão eletrônico objetivando dar este amparo.

“De fato, a Equoterapia é um tratamento de média e alta complexidade, portanto, não caberia ao município custeá-lo. Mas os benefícios são tão significativos que decidimos lançar uma licitação da qual participaram três empresas. E que bom que a situada em Piratini foi a vencedora, pois, do contrário, haveria a necessidade de transportar os usuários para outra cidade, aumentando, assim, o custo com esse deslocamento”, detalhou.

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome