Casal de agricultores adota sistema agroecológico e propriedade é modelo em Piratini

O casal José Elpidio Alves da Silva, de 67 anos, e Lourdes Feliciana da Silva, de 66 anos, tem propriedade modelo no interior de Piratini. (Foto: Nael Rosa/JTR)

Para o casal de agricultores, Lourdes Feliciana da Silva, de 66 anos, e José Elpidio Alves da Silva, de 67, que do final de década de 80 até o princípio dos anos 90 estiveram debaixo dos barracos de lona na luta por um pedaço de chão ao fazerem parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), era inimaginável que a família seria situada em Piratini e que sua propriedade de 20 hectares no Assentamento Conquista da Liberdade se transformaria, através de muito trabalho, em um modelo de produção sustentável e responsável por produzir sementes agroecológicas que geram alimentos em todo o Brasil.

Ao relembrar a vida dura dos acampamentos, eles, que são da região do Alto Uruguai, garantem que valeu a pena e que a rotina na busca de um pedaço de chão deixou lições positivas.

“Ao mesmo tempo em que nos lembramos da vida dura e sofrida debaixo da lona, entendemos que esse período foi a faculdade para cerca de dez mil pessoas que faziam parte do acampamento, entre estes, os nossos cinco filhos, que vieram conosco para Piratini e que hoje também são assentados em outras regiões do estado”, aponta Feliciana, que junto com o marido é responsável pela lida que resulta em toda a produção orgânica da propriedade.

“Já chegamos a plantar e colher 38 tipos diferentes de culturas. Hoje, em virtude da falta de mão de obra, pois eu e ela trabalhamos sozinhos, reduzimos para 13, entre elas, batata, mandioca, feijão, milho, verduras e amendoim, tudo orgânico para consumo próprio, mas vendemos o excedente”, explica Elpídio, acrescentando que a renda básica da propriedade está concentrada na produção de mel.

“Temos 300 caixas para abelhas, o que nos dá anualmente três mil quilos de mel, que é todo comercializado”.

Outra renda da propriedade é a produção de sementes agroecológicas para a Bionatur, entre elas a de um tipo de tomate que, no Brasil, só é produzida pelo casal em Piratini, tanto que, como forma de reconhecimento, em 2018 a cooperativa deu o nome de Feliciana à semente mantida pela família há quase 30 anos.

“Ela [a semente], gera um tomate muito bom, pois as pragas não o atacam. Já na época dos acampamentos ela estava conosco. Depois de assentados passamos a cultivá-la e, em 2018, a Bionatur, após pesquisa, constatou que somente nós possuíamos esta semente e me convidou para batizá-la. Nasceu assim a Biofeliciana”, recorda a agricultora, ao referir-se à primeira semente de tomate agroecológico do país, hoje plantada em vários estados e até no exterior, iniciativa que lhe trouxe grande satisfação.

“Me sinto orgulhosa e entendo que fomos privilegiados. Somos felizes por esse projeto de vida que, graças a Deus, deu certo”, celebra Feliciana.

Para Anderson Fontoura, extensionista rural da Emater, responsável por prestar assistência técnica à propriedade, a patente da semente é uma forma de premiar quem escolheu preservar a natureza.

“É sim uma premiação pela luta dos guardiões de sementes. Isso é o que acontece com pessoas que entendem a lógica da natureza pelo olhar da agroecologia. É uma troca constante e diferente que respeita os limites naturais, pois além de produzir o próprio alimento, produzem também a semente, que depois é armazenada por eles”, destaca Fontoura.

Para ele, a propriedade de Elpídio e Feliciana, assim como as demais que em Piratini adotam o modelo agroecológico, deve ser vista como o maior potencial de alimentação humana, já que é delas que saem os alimentos saudáveis que consumimos.

“O nosso papel é fortalecer esses sistemas de produção, pois o futuro da nossa alimentação vai depender disso que é feito por eles”, encerra.