Cozinha Solidária, projeto do MST entrega 500 marmitas para desalojados em Pelotas

Ao todo, 15 voluntários preparam até 500 marmitas diariamente para amenizar parte da fome de quem é vítima da tragédia climática. (Foto: Nael Rosa)

Entre as tantas ações que objetivam amenizar a fome, principalmente daqueles que estão fora de casa por conta da invasão das águas das cheias, está o projeto do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) “Cozinha Solidária”. A iniciativa surgiu durante a pandemia de Covi-19. Hoje, o projeto está instalado no Armazém do Campo, situado na rua Anchieta, esquina com a Três de Maio, no centro de Pelotas.

O local comercializa produtos orgânicos produzidos nos assentamentos e também está preparando até 500 refeições diárias para a as vítimas da tragédia climática. Ao todo, são 15 pessoas atuando no voluntariado – algumas não possuem ligação com nenhum movimento social, mas resolveram se somaram à causa neste momento não só de dor e tristeza, mas ainda, de escassez de alimentos para milhões de gaúchos.

“Fazemos parte desta rede de solidariedade necessária também agora, diante de tudo que aconteceu e ainda está acontecendo. Nós entendemos que processo é extremamente importante, pois para muitos falta o básico: comida”, destaca Mabelly Vargas Pacífico, de 24 anos, integrante do Levante Popular da Juventude, um dos movimentos sociais surgidos a partir do MST e que tem como foco dar suporte principalmente aos vulneráveis socialmente que residem nas áreas urbanas periféricas do país.

A jovem é uma das coordenadoras do projeto que prepara e distribui almoço e janta para moradores de um residencial de famílias de baixa renda, o Acácia, e ainda para os alojados em outros quatro locais que estão servindo como abrigos independentes na cidade: Osório, Pontal e Núcleo de Transporte da Universidade Federal de Pelotas (Nutrans-UFPel), além do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) campus Visconde da Graça (CAVG), o único que é assistido pela Prefeitura. “Começamos preparando e doando 50 refeições diárias. E, para isso, além das doações, grande parte dos alimentos usados vêm do governo Federal, através da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. Hoje já são 500 marmitas por dia, sendo o abrigo que mais destinamos o instalado no CAVG”, detalha a voluntária.

Mabelly acrescenta: “Neste, são entregues no mínimo 110 refeições, sendo almoço e janta todos os dias. Mas estamos cientes de que quando as águas baixarem e essas pessoas voltarem para casa, teremos que aumentar a produção. E, para isso, deslocarmos a nossa cozinha para um lugar maior, já que é fácil detectar que a fome vai aumentar”, prevê.

Sandi Xavier Mancília, de 32 anos, membro do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e outra coordenadora do Cozinha Solidária, entende que o projeto vai além do que os movimentos sociais objetivavam quando surgem. “Também através deste projeto, os movimentos surgidos após e, em torno do MST, levam uma mensagem principalmente aos urbanos: o real papel, o que, de fato, é o objetivo dos camponeses, além da solidariedade com todos, destinar alimentos também para aqueles que não residem no campo”, explica a estudante universitária e funcionária do Armazém do Campo.

Fazendo parte daqueles que se somaram à causa apenas como voluntários está a nutricionista Lidiane Vieira, de 43 anos, que usa parte do seu conhecimento profissional para também colaborar. “Eu, além de orientar quanto ao cálculo das quantidades para formar cada marmita, ajudo no preparo da comida e tudo mais. Resumindo: assim como todos, faço de tudo um pouco. Entendo que tanto como profissional quanto como ser humano tenho que dar minha contribuição”, disse a voluntária, que, por também trabalhar na Secretaria de Assistência Social, órgão da Prefeitura, tem contato diário com a vulnerabilidade social de algumas áreas do município.

Indagada sobre como se sente ao deixar o consultório particular onde obtém seu sustento para se dedicar três horas do seu tempo dia sim e dia não para colaborar com a causa, Lidiane resume: “Quando vejo e ajudo a preparar estas marmitas, para depois elas saírem da cozinha e, por fim, chegarem a quem precisa, entendo que uma das minhas funções como nutricionista: o acesso à alimentação para todos, está sendo realizada”.

A reportagem do JTR foi até o Nutrans – local onde o alimento chega para cessar a fome cerca de 25 pessoas estão alojadas. Todas fugiram da cheia também no bairro das Doquinhas, onde moram muitos pescadores como Adriane Oleiro, de 47 anos, que é responsável por coordenar o abrigo. “Mesmo que minha casa já tenha sido inundada no mínimo umas oito vezes, é a primeira vez que fui obrigada a buscar um local que não seja a moradia de amigos para me abrigar. Em todas essas oportunidades, eu fui só mais uma a recomeçar a partir de doações, pois perdi todos os móveis”, relata a pescadora.

Adriane finaliza destacando a importância do gesto das voluntárias e voluntários do Cozinha Solidária. “Essas marmitas, no mínimo 80, que essas pessoas nos doam diariamente, entendemos ser um gesto muito valioso, pois quase nada temos, inclusive, neste sentido. Essa comida é de comer rezando, divina, maravilhosa, feita com higiene e sempre variada: vem arroz, feijão, carne e saladas.  Cada dia uma refeição mais gostosa que a outra e que alimenta não só a nós, aqui do abrigo, mas outros tantos, também das Doquinhas, como muitas mães e seus filhos que estão ocupando um terreno da UFPel, próximo daqui. Então, só temos a agradecer a quem está nos ajudando”.

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