
O primeiro cigarro vinha antes mesmo do café. O último, pouco antes de dormir. Entre um compromisso e outro, antes, durante e depois de qualquer atividade, fumar fazia parte da rotina do jornalista Fábio Rosário por quase 30 anos. Nem mesmo após três infecções por Covid-19 ele conseguiu abandonar o vício. Foi só ao descobrir um enfisema pulmonar e pensar na filha adolescente que decidiu parar. Já se passaram sete meses sem tabaco, a qualidade de vida, o fôlego e o sabor das comidas já retornaram a vida de Rosário.
Mesmo com décadas de campanhas de conscientização, o tabagismo segue sendo um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil. No Rio Grande do Sul, o cenário preocupa especialistas, principalmente diante do aumento do consumo de cigarros eletrônicos entre jovens. Em Pelotas, programas gratuitos de cessação do tabagismo têm ajudado fumantes a enfrentar a dependência da nicotina, considerada mais forte que drogas como álcool, cocaína e heroína, de acordo com o médico Roni Quevedo.
Segundo estudo do Instituto Nacional de Câncer (Inca) “A Conta que a Indústria do Tabaco Não Conta”, para cada R$ 1 de lucro da indústria do tabaco, o Governo Federal gasta R$ 5, de forma direta e indireta com doenças causadas pelo fumo. A pesquisa ainda aponta que uma parcela desse lucro pode ser usada em ações de estímulo à iniciação de jovens e crianças no tabagismo, a fim de repor os usuários atuais que irão adoecer ou falecer, gerando custos futuros.

O vício
A relação do jornalista com o cigarro começou cedo e se transformou em dependência ao longo dos anos. Ele conta que fumava desde o momento em que acordava até poucos minutos antes de dormir e qualquer atividade era acompanhada por um cigarro. Mesmo diante dos sinais do próprio corpo, abandonar o vício parecia impossível. Após contrair Covid-19 pela terceira vez, Rosário conseguiu ficar sete dias sem fumar, mas voltou ao hábito logo depois. A mudança definitiva aconteceu quando foi diagnosticado com enfisema pulmonar e filha foi decisiva para a escolha de parar.

Rosário admite que a vontade de fumar permanece presente diariamente. Para enfrentar a abstinência, recorreu a adesivos de nicotina, medicação psiquiátrica e estratégias comportamentais, como beber água, mascar chicletes e participar do programa de 12 passos do Alcoólicos Anônimos.
“Eu evito o primeiro cigarro do dia e luto por mais 24 horas. O que mais me orgulha é saber que é possível e que cada dia é um milagre, uma superação. Meu conselho para aqueles que pensam em parar, parem logo. A conta um dia chega. Procure um médico, posto de saúde, veja sobre tabagismo, use os adesivos”, diz.
A universitária Sandy*, também conheceu o cigarro ainda na adolescência. Aos 14 anos, experimentou pela primeira vez motivada pela “estética” e pela influência de amigos. O que começou como algo esporádico se transformou em hábito durante a faculdade. Ela conta que o cigarro passou a fazer parte dos intervalos das aulas, dos momentos de ansiedade e das festas. Em pouco tempo, percebeu que já fumava mesmo sem motivo específico.
Há dois meses sem fumar, a universitária afirma que os sintomas emocionais foram mais difíceis do que os físicos. Conviver com amigos fumantes e frequentar festas aumentou a ansiedade nas primeiras semanas. Hoje, diz não sentir mais vontade de fumar, mas reconhece que o processo exigiu esforço diário. “Depois de um mês sem fumar tive uma recaída e no outro dia acordei com gosto de cigarro na boca e o cheiro impregnado, algo que fazia tempo que não sentia, e usei isso como motivação pra continuar sem fumar. Recebi muito apoio da minha família, já que não tenho ninguém em casa que seja fumante. Acredito que a longo prazo essa mudança me fará bem”, relata.
Danos irreversíveis
Segundo a médica pneumologista Helena Van Der Laan, não existe nível seguro para o consumo de tabaco. Mesmo fumantes ocasionais aumentam significativamente os riscos de complicações e doenças. Ela explica que o cigarro destrói progressivamente os cílios responsáveis por limpar as vias aéreas, provocando inflamações crônicas e danos irreversíveis. Além do câncer de pulmão, o tabagismo está associado a doenças cardiovasculares, câncer de bexiga, cavidade oral e laringe.
De acordo com dados do Inca e da Fundação do Câncer, o tabagismo mata mais de 145 mil pessoas por ano no país, o que representa cerca de 477 mortes evitáveis por dia. “O cigarro é o principal fator de risco para a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), afetando cerca de 6 a 14 milhões de brasileiros. O tabagismo também é responsável por 80% das mortes por câncer de pulmão no Brasil”, complementa Helena.
A pneumologista também alerta para o crescimento do uso de cigarros eletrônicos conhecido também como vape ou pod, especialmente entre adolescentes e jovens. Apesar de proibidos no Brasil pela Anvisa, os dispositivos continuam sendo facilmente encontrados.
De acordo com ela, o dispositivo contém substâncias tóxicas, metais pesados e altas concentrações de nicotina. Um dos maiores temores dos especialistas é a EVALI, uma lesão pulmonar grave causada pelos solventes dos cigarros eletrônicos e que pode levar pacientes à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por insuficiência respiratória.
Conforme pesquisa da Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), o número de usuários de cigarros eletrônicos cresceu quase 580% de 2018 a 2023, passando de 500 mil a 2,9 milhões de pessoas. Dados alarmantes também foram divulgados pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, que apresenta um diagnóstico sobre a realidade de mais de 12,3 milhões de jovens entre 13 e 17 anos que estudam nas redes pública e privada no Brasil. A experimentação de vapes saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. O uso recente desses dispositivos cresceu mais de 300% no período. Em contrapartida, houve uma queda na experimentação de cigarros e de narguilé, o que foi considerado uma possível substituição de produtos.
Grupos gratuitos de cessação
Em Pelotas, o combate ao tabagismo acontece por meio dos grupos de cessação oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e também no formato on-line, através do Núcleo de Telessaúde da Secretaria Municipal de Saúde. A enfermeira Caroline Ullrich explica que o grupo virtual surgiu em 2024 para ampliar o acesso ao tratamento, especialmente para pessoas com dificuldade de deslocamento ou incompatibilidade de horários. O município já possui grupos presenciais desde 2014.
Atualmente, oito grupos presenciais atendem cerca de 144 pacientes. Já o programa on-line chegou ao grupo número 10 e mantém cronograma organizado até 2027. O atendimento conta com equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros, psicólogos e nutricionistas, além de apoio com medicamentos e acompanhamento contínuo. Segundo a enfermeira, os principais desafios relatados pelos participantes estão relacionados à ansiedade, rotina intensa, sobrecarga de trabalho e dificuldades familiares.

Caroline indica que o perfil mais comum de pacientes é de mulheres e pessoas com mais de 50 anos. “No follow-up do grupo on-line observamos que as principais dificuldades relatadas estavam relacionadas à sobrecarga de trabalho, rotina intensa, dificuldades familiares e organização do tempo. As barreiras identificadas não pareciam estar predominantemente associadas à falta de desejo de parar de fumar. Até mesmo os participantes com recaída frequentemente mantinham interesse em continuar o acompanhamento. Também identificamos alta frequência de comorbidades, principalmente hipertensão, diabetes, obesidade e DPOC”, relata.
O relato de experiência do grupo on-line foi selecionado recentemente para a etapa estadual da Mostra Teu SUS, RS – edição 2026. Promovida pelo Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (Cosems/RS), a Mostra apresentou iniciativas desenvolvidas em 37 municípios para trocas de experiências entre gestores, trabalhadores e apoiadores do SUS. Caso você tenha interesse em fazer adesão aos grupos de cessação do tabagismo, se dirija a UBS mais próxima a sua casa ou entre em contato pelo número do Tele Atendimento (53) 991451113.
“A nicotina não respeita ninguém”
Para o médico Roni Quevedo, coordenador dos programas Vi-Vendo, Fumo Zero e UCPel Mais Saudável, o tabagismo é uma das dependências mais difíceis de tratar. Segundo ele, muitos fumantes associam o cigarro a prazer, alívio da ansiedade e momentos da rotina, criando uma relação emocional e comportamental com a nicotina.

O médico destaca que parar de fumar depende acima de tudo, da decisão do próprio fumante. Mudanças de hábito, acompanhamento psicológico e suporte médico podem ajudar, mas não substituem a escolha individual de abandonar o cigarro. “Dependendo de onde tu comprar, o cigarro é sete reais, e com ele vem a promessa de melhorar a atenção, o raciocínio, diminuir a ansiedade, claro, o tratamento para isso, com o psicólogo, com o médico, é bem mais caro. A indústria promete muita coisa por um preço muito acessível e o enfrentamento para o tabagista, é muito complicado, ele não quer parar com aquilo que parece que lhe dá alívio”, explica.
Quevedo ainda reforça a relação do cigarro com situações da vida dos dependentes. “Se o tabagista vai para um estádio de futebol fumar e assistir um jogo, ou fica em casa vendo pela televisão, se o time dele ganha ele fuma, se o time dele perde ele fuma, se o jogo der empate ele fuma também. Na realidade ele não sabe porque está fumando. Um tabagista médio, aqui em Pelotas, que fuma de 12 a 13 cigarros por dia, segundo estudos, ele tem menos de dez anos de vida e de cada três fumantes, um a dois vai morrer antes do previsto”, diz.
Problema crescente
A técnica responsável pelo Programa Estadual de Controle ao Tabagismo da Secretaria Estadual da Saúde, Andréia Volkmer, afirma que o Rio Grande do Sul apresenta um dos cenários mais preocupantes do país. Segundo ela, Porto Alegre lidera entre as capitais brasileiras com maior número de fumantes, e o estado foi o único do país a registrar aumento no número de fumantes entre 2013 e 2019, mesmo mais de 80% dos municípios aderindo ao programa que oferece capacitações para os profissionais de saúde.
Andréia enfatiza que o cigarro e o tabaco é o principal fator de risco para as principais causas de morte no estado. “É isso que nos preocupa, que a gente possa prevenir que as pessoas não iniciem a experimentação do cigarro por conta da nicotina, a dependência que é considerada uma doença, não um hábito”, fala.
“A pessoa precisa decidir. Se ela não quer parar de fumar, não tem programa que dê conta disso. A gente sempre orienta que o acompanhamento em grupo é a melhor escolha, embora as pessoas tenham mais resistência, ali eles vão encontrar pessoas na mesma situação, com sintomas de abstinência, dificuldades e dúvidas”, conclui a técnica.
*Nome fictício utilizado para preservar a identidade da entrevistada



