Tradição e inovação no campo: aviões agrícolas e drones dividem espaço na Zona Sul

Na região onde nasceu a aviação agrícola os drones surgem como ferramentas complementares ao trabalho de pulverização de lavouras. (Fotos: divulgação e Wenderson Araújo/Trilux)

Berço da aviação agrícola e detentora de 35% da frota gaúcha de aeronaves destinadas à pulverização de lavouras, a região sul do Estado se converteu em um cenário no qual a tradição e a inovação do setor convivem com cada vez mais frequência nos céus. Dados do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) apontam para um incremento de 7,2% da frota nacional de aviões agrícolas no último ano, enquanto o número de drones ocupados nas lavouras aumentou 117% conforme os registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) no mesmo período.

O diretor do Sindag, Cláudio Júnior Oliveira, explica que o Rio Grande do Sul conta, atualmente, com aproximadamente 390 aviões agrícolas, dos quais até 135 estão concentrados na região Sul. “O mercado está aquecido. A safra 2025 caminha para recorde e a frota nacional cresceu. A própria Anac abriu tomada de subsídios para aprimorar a formação de pilotos e técnicos, pois há boa demanda no mercado por esses profissionais, pois para cada avião em operação, são necessárias pelo menos cinco pessoas envolvidas no processo”, disse.

Se por um lado a aviação agrícola mantém sua relevância, os drones vêm se consolidando como alternativa tecnológica. Desde a regulamentação em 2021, o número de equipamentos disparou no Brasil, chegando a mais de 8 mil em operação. “Eles têm ocupado espaço em áreas pequenas ou encharcadas, complementando o trabalho dos aviões”, reforça Oliveira.

A relação, todavia, não parece ser excludente e, na opinião de especialistas e produtores, os dois equipamentos se complementam. “Para grandes áreas, aviões seguem com maior produtividade e a frota tripulada continua crescendo, mostrando que um complementa o outro”, comentou.

Setor orizícola ainda depende muito da aviação
Com 165.986 hectares ocupados por lavouras de arroz, na safra passada, a Zona Sul ainda é uma região de predominância dos aviões agrícolas e, conforme produtores e especialistas, deve permanecer assim por mais tempo.

Para o diretor da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Fernando Rechsteiner, a evolução dos drones é inegável. “Agora, a tendência está muito clara. Os drones estão aumentando de tamanho, de capacidade, e eu enxergo, sim, no futuro, que eles vão acabar ocupando o espaço da aviação agrícola”, analisou.

A mudança, na visão de Rechsteiner, no entanto, não deve ser rápida. “No curto prazo, eu diria que a aviação agrícola não vai acabar. O avião ainda tem muito espaço dentro da lavoura, ainda é uma ferramenta muito importante da qual não podemos abrir mão, principalmente nas lavouras de arroz, onde uma parte importante das aplicações é feita com água dentro da lavoura, que não há a possibilidade de a aplicação terrestre ser utilizada”, afirmou.

Drones têm sido usados em áreas onde os sobrevoos são mais arriscados. (Foto: Divulgação)

O agrônomo da Arrozeira Pelotas, João Ricardo Martins, reforça a escolha do avião pela rapidez do serviço. “Ainda usamos pouco a tecnologia dos drones em nossas lavouras, ainda não temos resultados sobre o uso dela. Mas, segundo dados obtidos com outros produtores, ela tem uma ótima eficiência e economia de defensivos, pelo drone aplicar dentro de uma área previamente demarcada”, explicou. A empresa investe em aviação agrícola aproximadamente R$ 300 por hectare, com quatro aplicações por safra.

Aviação agrícola é um patrimônio regional
A aviação agrícola brasileira surgiu em 1947, nos céus de Pelotas, durante uma das maiores pragas de gafanhotos já registradas no país. Em agosto daquele ano, o agrônomo Leôncio Fontelles, do Ministério da Agricultura, e o piloto Clovis Candiota tiveram a ideia de adaptar a um avião biplano modelo Muniz M-9, usado para instrução de pilotos no Aeroclube de Pelotas, um equipamento capaz de realizar pulverização. O projeto foi inspirado em equipamentos estrangeiros e construído em uma funilaria da cidade.

No dia 19, Candiota realizou aquele que seria o primeiro vôo da aviação agrícola no Brasil. A imagem do campo coberto por milhões de insetos mortos comprovou o sucesso da iniciativa. A partir dali, Fontelles e Candiota fundaram a Serviço Aéreo Nacional de Defesa Agrícola (Sanda), que passou a atender tanto o governo quanto produtores rurais no combate a pragas. A empresa prestou serviços e combate a gafanhotos e outras pragas para o governo gaúcho e produtores rurais.

Hoje, 78 anos depois, a tradição da aviação agrícola segue forte na Zona Sul, onde estão algumas das mais tradicionais empresas do estado. Em Pelotas, a Mirim Aviação Agrícola, criada em 1977, mantém 17 aeronaves em operação em 20 cidades da região.
“O avião é uma ferramenta essencial para a lavoura. Grande parte do agronegócio é impulsionado por essa ferramenta e o setor está cada vez mais aquecido”, disse o sócio e piloto, Silvio Antônio Kempfer, que atua há 32 anos na empresa.

Segundo Kempfer, o impacto dos drones tem sido positivo para a empresa. “O uso do drone em certos lugares nos tira do risco. Eles conseguem entrar em lugares que o avião não entra. O drone hoje é uma ferramenta que ajudou muito no nosso trabalho, evitando um risco maior para nossa operação. Então, vemos o drone como um parceiro e não como um inimigo”, disse.

“O avião é uma ferramenta essencial para a lavoura”, disse Sílvio Antonio Kempfer. (Foto: reprodução)

Na Taim Aero Agrícola, criada em 1992, o também piloto e sócio Alan Sejer Poulsen reforça essa percepção. “O agro está crescendo em um ritmo grande e, como está entrando mais de 150 aeronaves por ano, já há uma falta de profissionais no setor da aviação em geral. Hoje, qualquer piloto que se forma, dificilmente não seja contratado”, comentou.

Formação e remunerações
De acordo com o Sindag, o país conta, atualmente, com 2,2 mil pilotos agrícolas registrados. Uma das principais instituições de formação de pilotos no RS é a Aero Agrícola Santos Dumont, fundada em 1979, em Cachoeira do Sul. A escola oferece curso de instrução de voo, piloto privado, comercial e agrícola, com aulas teóricas e práticas, com instalações completas e atividades complementares. O investimento na especialização é pesado: R$ 55,6 mil. Desde a primeira turma, já foram formados 1,1 mil alunos.

“Os pilotos precisam de uma alta capacitação, podendo ser uma barreira de entrada no setor. Mas isso é importante para que se mantenha com a devida segurança necessária para aplicação em si”, comentou Oliveira.

Quanto à remuneração dos profissionais, o piso definido pela convenção coletiva entre o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) e o Sindag é de 15,5% sobre o faturamento do serviço, variando conforme a área trabalhada. As contratações geralmente são em regime CLT.

Os custos dos serviços variam conforme o tipo de aplicação. Na Taim Aero Agrícola, que opera com quatro aeronaves, por exemplo, o preço pode ir de R$ 65 a R$ 110 por hectare, dependendo do volume aplicado. “Nos fertilizantes e semeadura de pastagens, a variação é ainda maior, pois trabalhamos com diferentes quantidades por hectare”, explicou Poulsen.

Drones surgem como oportunidade profissional e de negócios
Na Zona Sul, o setor está em ampliação. O empresário Reginaldo Lemes, proprietário da Dronesul, sediada em Pelotas e que há três anos trabalha tanto com treinamento quanto com prestação de serviços, está entre aqueles que comemora o mercado aquecido.
“Estamos otimistas. Na agricultura, um piloto de drone pode ganhar de R$ 3 mil a mais de R$ 10 mil, dependendo da experiência e do equipamento”, afirmou.

Conforme Lemes, os custos dos cursos variam de R$ 550 a R$ 1,1 mil, dependendo da especialização escolhida pelo aluno.

A situação se repete na Fronteira Sul Drones, que abriu sua sede em Pelotas em 2024. Além de vender equipamentos, a empresa aposta na formação de pilotos. “Na hora de fechar a venda de um drone agrícola, muitas vezes a decisão final do comprador ficava dependendo de conseguir um piloto capacitado e vimos nisso uma oportunidade de negócio”, explica a sócia Naiane Mattos.

Drones têm sido usados em áreas onde os sobrevoos são mais arriscados. (Foto: Waderson Araújo Trilux)

A primeira turma de treinamento esgotou antes mesmo do início das aulas. O investimento para o curso variou de R$ 2,9 mil a R$ 3,9 mil. Naiane afirma que já há fila de espera pela próxima edição. Conforme os empresários, o mercado de trabalho tem absorvido rapidamente os profissionais formados.