Novas cultivares da Embrapa contemplam consumo in natura e indústria

BRS Sarau e BRS Ticuna são resultados de pesquisas realizadas pela Embrapa Clima Temperado. (Fotos: Paulo Lanzetta)

No mês em que Pelotas foi sede de eventos de projeção nacional e internacional na área da fruticultura, primeiro com o Congresso Internacional da Indústria de Fruta de Caroço (Cancon15) e em seguida com o Congresso Brasileiro de Fruticultura, equipe de pesquisa da área de melhoramento genético da Embrapa Clima Temperado lançou duas novas cultivares que contemplam o consumo in natura e para beneficiamento na indústria.

A BRS Sarau (pêssego de mesa) e a BRS Ticuna (amora preta) foram lançadas na primeira semana de novembro no Centro de Eventos Fenadoce, onde ocorreu o Congresso de Fruticultura. Ambas levaram mais de uma década para atingirem o patamar desejado pelos cientistas da unidade.

Um deles é o engenheiro agrônomo Rodrigo Franzon, doutor em Fruticultura pela Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel da Universidade Federal de Pelotas (Faem/UFPel). Ele se juntou à equipe voltada para o estudo que resultou no lançamento da cultivar BRS Sarau em 2011, juntamente com a pesquisadora Maria do Carmo Raseira, responsável pelo departamento de Melhoramento Genético da Embrapa Clima Temperado – o qual conta com histórico de mais de meio século de atividade na área, principalmente na cultura do pêssego, com o lançamento de cultivares tanto para indústria como para mesa.

Pesquisadores Rodrigo Franzon e Maria do Carmo Raseira, envolvidos na criação das novas cultivares de pêssego e amora, BRS Sarau e BRS Ticuna, respectivamente. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Esse é o caso da BRS Sarau. Pouco cultivado na região, estima-se que entre 85% a 90% dos cinco mil hectares cultivados em Pelotas e arredores são destinados à indústria. Conforme Franzon, o pêssego de mesa nunca poderá ser enlatado. Ele dá detalhes da cultivar: conforme o pesquisador, a BRS Sarau oferece um pêssego de polpa branca, formato redondo, “tendendo a alongado”, com cerca de até 60% de coloração vermelha na película (casca), o que, para o mercado consumidor, é “um grande atrativo”, indica. Mais: tem caroço solto, outro requisito que interessa ao mercado. “É uma das primeiras perguntas que nos fazem”, informa Franzon. Mas em resumo: “É uma fruta bonita e de produtividade alta, facilmente vai superar 20 toneladas por hectare”, crava. Ele acrescenta ainda que se cultivada em pomares bem manejados (aliados a boas condições de clima e de solo) “com certeza” essa produtividade vai saltar para mais de 30 toneladas.

BRS Sarau oferece um pêssego de polpa branca, formato redondo, com cerca de até 60% de coloração vermelha na película (casca) e caroço solto, com produtividade de 20 toneladas por hectare. (Foto: Paulo Lanzetta)

A maturação, tardia, também coincide com interesses do mercado – preocupação natural do produtor que busca rentabilidade. Na região de Pelotas, a previsão é de que esteja pronto para colher entre 15 a 25 de dezembro, em um período que se estende entre 15 a 20 dias. “Uma época excelente para comercialização de frutas, justamente quando a procura aumenta”, argumenta o pesquisador.

Em teste, a BRS Sarau demonstrou boa capacidade de aclimatação nas regiões onde foi posta à prova – Sul (Rio Grande do Sul e Santa Catarina) e Sudeste (em viveiros em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo). Tanto que produtores capixabas e paulistas já se decidiram pela cultivar. Na região, ainda é uma incógnita: vale relembrar que a Zona Sul produz maciçamente para a indústria e a nova cultivar foi desenvolvida para consumo in natura, tipo de pêssego produzido, como se diz, “da Serra gaúcha pra cima”. “Não é a característica da região”, reconhece o pesquisador. “É uma questão de conhecer a cultivar e querer produzi-la”.

A Embrapa já lançou edital de licenciamento para viveiristas que estarão autorizados a produzir as mudas da BRS Sarau, a quem cabe comercializá-las para os produtores. Havendo interesse, após período de enxerto, que costuma ocorrer em dezembro e janeiro, as mudas estarão prontas para plantio a campo no inverno do ano que vem. No primeiro ano, Franzon descarta: dificilmente terá fruta da nova cultivar. “Havendo plantios no próximo inverno, essa fruta deve começar a chegar na gôndola dos supermercados e das fruteiras só em 2025. O horizonte que sempre se trabalha para atingir uma expressão maior é de quatro a cinco anos”, explica.

BRS Ticuna é nova cultivar de amora preta
A nova cultivar de amora preta, batizada BRS Ticuna, demandou estudo que germinou por 20 anos – no mínimo. A pesquisadora Maria do Carmo Raseira conta que esse histórico é ainda maior – remonta a um período que se confunde com sua própria história como pesquisadora, que já soma 49 anos apenas na Embrapa. Ela diz que foi no início da década de 1970 que descobriu a fruta. Não em Pelotas, mas na Universidade do Arkansas (EUA), para onde se transferiu à época para o mestrado em Plant Science (fruticultura. em tradução livre).

BRS Ticuna foi estudada por 20 anos, é recomendada para indústrias de qualquer porte
e possui produtividade que pode alcançar 20 toneladas por hectare. (Foto: Paulo Lanzetta)

“Foi a primeira vez que eu vi, embora se encontre em nossos campos nativos”, disse. Na ocasião, a indústria de conservas Agapê solicitou mudas e as introduziu em um terreno de um hectare em Canguçu para processar a fruta e lançá-la no mercado como um produto dietético que chegou a ser exportado para o Paraguai. A produção, se não teve sequência no mercado, teve na Embrapa. Em 1978, após receber sementes dos Estados Unidos, foi incluída em programa de melhoramento genético com vistas a se tornar opção a pequenos produtores. “Em área pequena se pode ter bom rendimento, inclusive com lucro”, ressalta ela.

Uma luva na agroindústria
Mas o cruzamento que resultou na BRS Ticuna só ocorreu há 20 anos. A acidez da fruta explica o tempo decorrido. “Não caberia no mercado”, justifica a cientista. “Precisávamos de uma cultivar doce para o mercado in natura, que garante preços que podem chegar a R$ 40 o quilo”. No entanto, nessas duas décadas, a equipe percebeu que uma fatia muito pequena da produção de amora preta é comercializada fresca. A maior parte é beneficiada na forma de iogurtes, geleias e sucos. “Para a indústria o que importa é produtividade, e a amora preta é altamente produtiva, além de ácida, o que para doces como geleia é ótimo”, diz Maria do Carmo.

Em dezembro do ano passado, a cultivar foi apresentada a produtores, quando foram servidos produtos à base da fruta. Foi aprovada com louvor, segundo a pesquisadora. Para ela, a cultivar reforça o apelo da amora preta na alavancagem da produção e da abertura de agroindústrias – mas não apenas. Com a palavra, a criadora. “É recomendada para a indústria de qualquer porte. Pode ser para produção de doces, geleias, iogurtes, sucos, o que for – também é usada para bebida fermentada, como se fosse vinho, e receitas de licor”.

Feita para a pequena propriedade
A maioria dos produtores que já optaram pela fruta são considerados pequenos. Cultivam, de acordo com Maria do Carmo, em áreas que não chegam a um hectare. Já a produtividade pode chegar a 20 toneladas (por hectare). “É uma cultura com produtividade muito alta, barata, porque pode usar mão de obra familiar, e oferece bons preços”, recomenda. No entanto, não se engane: a amora preta é uma planta arbustiva, diferentemente das que se encontram em árvores para ornamentação de áreas urbanas.

Atualmente, a nova cultivar já está em mãos de viveiristas para ser plantada. “Ainda vai levar alguns anos para se ter escala no mercado, como acontece com toda cultivar”, conforma-se. A pesquisadora estima três anos para isso. “Leva-se mais de uma década para lançar uma cultivar, e sempre tem coisa nova, outras duas cultivares da fruta já estão registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária para serem lançadas também, mas com outras características – o melhoramento genético nunca vai nos dar algo perfeito e ideal, sempre vai ter o que se melhorar, é um trabalho infinito”, disse.

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