La Beca Queijaria obtém formalização junto ao SIM

Camila Pizzoni começou o negócio em 2023 em uma propriedade da Colônia Ramos. (Foto: divulgação)

Demorou, mas saiu a legalização. Desde 2023, a médica veterinária Camila Pizoni, com o apoio técnico da Emater Pelotas, vinha trabalhando na formalização da La Beca Queijaria como agroindústria familiar de laticínios derivados de leite de ovelha junto ao Sistema de Inspeção Municipal (SIM). Com a conquista, os produtos artesanais feitos com leite de ovelhas da raça Lacaune deixam a fase experimental e chegam, oficialmente, à mesa dos consumidores. A estreia no mercado será na Fenadoce 2025, que ocorre de 16 de julho a 3 de agosto, em Pelotas.

“A legalização não só garante um produto com ainda mais qualidade, como também abre portas para novos mercados e fortalece o nosso trabalho”, destacou a veterinária.

Segundo Camila, o projeto foi protocolado junto à prefeitura em setembro de 2023, analisado no fim de novembro e teve autorização para início das obras apenas no final de março de 2024. “Comecei a obra em abril e segui até novembro, quando foi feita a primeira vistoria para verificar o cumprimento das exigências”, relatou.

Após a aprovação, iniciou-se a fabricação dos produtos para realização das análises microbiológicas. “Como é necessária a legalização individual de cada item, comecei pelo queijo tipo Boursin em conserva de azeite, que é um produto diferente e ainda não possuía normativa específica”, explicou.

Outro item legalizado foi o doce de leite, considerado de venda rápida, sem exigência de tempo de prateleira ou maturação e com boa liquidez. Ambos estão liberados desde abril. “Foram mais de 12 meses entre o início das obras e a liberação dos primeiros produtos”, disse.

Linha de produção será diversificada
Os próximos itens a serem regularizados são os queijos (tradicional e com nozes) e os iogurtes, que Camila espera poder oferecer ao público já na Fenadoce. A meta é ampliar gradualmente a linha e legalizar novos produtos.

“A maior dificuldade são os custos iniciais das análises, que são bastante onerosas, especialmente para pequenos produtores”, afirmou.

Queijo tipo Boursin em conserva no azeite é o carro-chefe. (Foto: divulgação)

Além disso, a quantidade exigida para análise é significativa — cerca de 300 gramas — o que, no caso do leite de ovelha, representa um volume proporcionalmente alto, já que a produção por animal varia entre 1 e 1,5 litro por dia.

Atualmente, a propriedade conta com oito ovelhas em lactação, de um rebanho de 40 animais da raça Lacaune — de origem francesa e considerada ideal para a produção leiteira no Sul do Brasil. O rebanho começou com 12 animais, adquiridos de uma propriedade em Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha. A expectativa é alcançar 16 ovelhas em lactação até a metade do ano.

“O rebanho cresceu bastante desde 2023 e, com isso, teremos maior produção para participar de feiras como a Fenadoce e a Expointer”, comemorou.

A agroindústria recebeu o selo SIM, que autoriza a comercialização dentro do município de Pelotas. “Desde o início do ano, existe o Consim — consórcio com mais de 22 municípios — que permite a venda em todas as cidades participantes. Agora, a meta é fazer contatos e abrir novos mercados”, contou.

Segundo ela, os produtos já estão disponíveis em pontos de venda em Pelotas, além da participação em feiras com apoio da Emater.

Turismo rural é outra frente do empreendimento
Instalada na Colônia Ramos, a cerca de 25 quilômetros da zona urbana de Pelotas, a La Beca é a primeira agroindústria do município voltada à produção de laticínios com leite ovino. Em breve, o espaço deve integrar roteiros de turismo rural, com visitação, venda de produtos, degustações e café colonial.

A propriedade, de 11 hectares, foi adquirida em 2020, durante a pandemia, com mudança definitiva da família no ano seguinte. Desde então, passou por diversas transformações — construção da estrutura de produção e beneficiamento, implantação de pastagens, aquisição de equipamentos, formação do rebanho Lacaune, realização de cursos e visitas técnicas a agroindústrias especializadas, inclusive fora do estado.

Leite de ovelha: mais nutritivo e fácil de digerir
O leite de ovelha difere do de vaca em diversos aspectos. É mais branco, possui sabor suave e levemente adocicado, além de apresentar maiores teores de extrato seco, proteína, gordura, minerais e densidade.

A quantidade de gordura pode ser até duas vezes superior à do leite de vaca, porém com glóbulos menores, o que facilita a digestão e não eleva os níveis de colesterol. Também há maior concentração de vitaminas dos complexos A, B, D e E. A vitamina D, por exemplo, chega a 0,18 gramas por 100 gramas de leite, contra 0,04 gramas no leite bovino.

Produção usa leite de ovinos da raça francesa Lacaune. (Foto: divulgação)

No quesito minerais, destaca-se o alto teor de cálcio — até 75% superior ao encontrado no leite de vaca.

A média de produção por fêmea é de 1,5 litro por dia, em duas ordenhas. A cada cinco litros, é possível obter cerca de um quilo de sólidos. A gestação e o período de lactação duram, em média, cinco meses.