O doce artesanal pelotense é o principal “personagem” da Feira Nacional do Doce (Fenadoce), que nesta 28ª edição celebra a retomada dos encontros e das atividades econômicas, depois de dois anos de pandemia de Covid-19 e sem a realização do evento.
A expectativa é de superar os números de 2019, último ano em que foi realizada a feira, quando foram comercializados mais de 1,3 milhão de doces e recebidos 246 mil visitantes, nos 19 dias de evento. Entre os doces mais vendidos, destaque para o quindim, bombom de morango e bem-casado.
E os números vêm se confirmando, com a venda, em nove dias do evento, de mais de 1,29 milhão de doces e cerca de 190 mil visitantes. Este ano, a feira, que teve os pavilhões do Centro de Eventos abertos no dia 3 de junho, se estende até o dia 19. E, para celebrar esta retomada, está de volta o doce gratuito por ingresso comprado, conta a presidente da Associação dos Produtores de Doces de Pelotas, Simone Bica, da Dona Xica Doces de Pelotas. “Ao chegar na feira, o visitante já entra saboreando um doce, afinal todo mundo gosta de receber um agrado”, salienta.
E para consolidar o doce como atrativo turístico o ano inteiro, não apenas na Fenadoce, será inaugurada no dia 1º de julho, abrindo as comemorações dos 210 anos de Pelotas, o Centro de Comercialização de Produtos Associados ao Turismo, denominado “Rua do Doce”, onde serão expostos e comercializados os doces tradicionais pelotenses o ano inteiro, anuncia a presidente.
O espaço, localizado no centro da cidade, na rua Sete de Setembro, entre o calçadão da ruas Andrade Neves e General Osório, junto ao chafariz As Três Meninas, terá a gestão da Associação dos Produtores de Doces de Pelotas em parceria com a Cooperativa de Doceiros de Pelotas (Coodopel), explica Simone. O local contará com sete espaços para as doceiras, além de um sanitário para o público em geral, adaptado para pessoas com necessidades especiais, área de alimentação e de convivência.
No Centro de Eventos Fenadoce, no local denominado como Cidade do Doce, em que o cenário replica o Mercado Público de Pelotas, estão instaladas pelo menos 27 bancas que oferecem durante a feira os mais variados tipos de doces ao público, ao preço unitário de R$ 5. “É a coroação do nosso trabalho do ano inteiro, que é colocado em evidência e reconhecido”, destaca a doceira, ressaltando o sabor especial nesta edição. “Foram dois anos sem este momento importante para o nosso trabalho, de reivindicações, em que tivemos que nos readaptar”, lembra.
Segundo ela, a associação reúne 17 associadas, que mantêm loja física e que geram vários postos de trabalho. “Durante o ano, quem trabalha com oito funcionários, por exemplo, na época da Fenadoce, este número sobe para 20 a 25”, diz. Simone conta que somente para os seus estandes, na arrancada, foram produzidos 15 mil doces. Além do estande individual – algumas doçarias têm dois espaços – elas produzem também para o estande da Associação, localizado junto à praça de alimentação da Cidade do Doce.
Tradicionalmente, o início do mês de junho é para os pelotenses um momento de enaltecer, durante a Fenadoce, a tradição doceira, que conquistou para a cidade, em 2018, o reconhecimento como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
É neste mês também, que é comemorado o Dia da Doceira, em 6 de junho, instituído através da lei 6.582/2018, projeto de autoria do deputado federal Daniel Trzeciak, quando ainda era vereador. Simone destaca a mudança de atitude ocorrida, nos últimos tempos, fazendo com que Pelotas seja vista e movimentada como cidade turística. “Eu vejo em Pelotas uma capacidade turística e econômica enorme e a população pelotense precisa se apropriar disso e reagir a tudo o que temos em volta”, ressalta.
Fundada em abril de 2008, a Associação reúne também empresários do setor e tem como objetivo, além de fortalecer o segmento, proteger o legado das receitas de doces tradicionais e estimular a inovação e desenvolvimento das empresas. A tradição dos doces ao território de Pelotas é garantida através do selo de Indicação de Procedência dos Doces de Pelotas (IP), registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).
Quinze doces tradicionais pelotenses têm a indicação de procedência e certificação através do selo de identificação e origem geográfica. São eles, a panelinha de coco, pastel de santa clara, bem casado, broinha de coco, amanteigado, beijinho de coco, ninho, olho de sogra, camafeu, fatias de braga, papo de anjo, queijadinha, quindim, trouxas de amêndoas e os doces cristalizados.
As doceiras levam os doces e o nome de Pelotas também a feiras regionais e estaduais, como a Feira do Artesanato de Rio Grande (Fearg) e a Expointer, em Esteio, onde possuem espaço físico fixo, junto ao pavilhão de Indústria e Comércio, no Parque Assis Brasil.
Tradição doceira
Conforme o Iphan, Pelotas encontra-se no epicentro de uma região doceira que abarca uma multiplicidade de saberes e identidades sob a forma de duas tradições: a de doces finos e a de doces coloniais. O doce desempenha um papel peculiar na composição da sociedade regional, sendo um elemento cultural que amarra a diversidade de grupos étnicos e sociais que a compõe.
.Na sua maioria, aponta o instituto, essas doceiras e doceiros compreendem seu ofício como a continuidade das trajetórias de suas famílias, num templo ampliado. Essa relação está posta, sobretudo, no meio rural, entre os produtores de doces de frutas, que se encontram profundamente ligados à região colonial, como um espaço de vivências, trabalho e afetos. Assim, o registro contempla o espaço de ocorrência das duas tradições doceiras e os sentidos que a elas são atribuídos, por grupos detentores, e se justifica tendo em vista seu valor identitário e a relação demonstrada entre o saber doceiro e o território referido.




