Projeto resgata trajetória de mulheres que marcaram a Escola de Belas Artes em Pelotas

Projeto existe desde 2023 e restaura obras de artistas mulheres esquecidas pela história. (Foto: Divulgação)

Explorando e valorizando a história de mulheres artistas de Pelotas, o projeto “As artistas da EBA: processos criativos e ações interdisciplinares”, vinculado a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), amplia, desde 2023, investigações sobre o protagonismo feminino na produção artística da cidade entre 1949 e 1969, na Escola de Belas Artes (EBA). Com foco em promover a preservação das obras, a pesquisa proporciona reconhecimento do trabalho de mulheres que sofreram invisibilização em uma época em que ser artista não era fácil nem adequado.

De acordo com a professora doutora. Daniele da Fonseca, coordenadora do projeto de pesquisa, e a mestre Simone de Oliveira, doutoranda em Memória Social e Patrimônio Cultural, a ideia surgiu a partir da ocultação do nome de uma artista pelotense, Benette Casaretto, quando, entre visitas ao Palácio Piratini, apenas uma obra constava como sendo de autoria não identificada. Entretanto, a pintura continha a assinatura de Benette bastante visível. Com isso, ficou evidente o desconhecimento de sua obra, além da desproporção entre a quantidade de obras produzidas por homens e mulheres.

Simone e Daniele afirmam que diversas obras de Benette foram catalogadas no curso de conservação e restauração, sendo que algumas delas tiveram os materiais de pintura estudados sob o viés da composição química das tintas usadas. “Este estudo foi publicado na edição de uma revista científica junto com outros estudos semelhantes, nenhum outro se debruçou sobre obras de mulheres. Isso colocou o nome de Benette ao lado de artistas consagrados no cenário nacional”, contam. A partir disso, a pesquisa começou a ser organizada como forma de dar continuidade e ampliar as investigações sobre artistas mulheres apagadas pela história.

Áreas se complementam

Para as pesquisadoras, a interdisciplinaridade é fundamental e contribui para a compreensão sobre essas trajetórias. “Neste projeto, química, educação, computação, arte, patrimônio cultural e interseccionalidade social dialogam para levar aos estudantes um ensino mais significativo. O conhecimento não evolui ou desenvolve-se fechado em um único campo de saber, é necessário ampliar e ligar esses campos”, pontuam.

Nesse sentido, conforme Mateus Ferrer, coordenador da frente Ciência e Engenharia de Materiais, a química e a engenharia desempenham um papel importante ao permitir que a composição, estrutura e processos de transformação de materiais sejam estudados. Segundo ele, os materiais fazem parte da história da humanidade. “Muitas vezes, aspectos importantes da história de uma obra não são visíveis a olho nu. O estudo científico dos materiais pode revelar as causas de alterações de cor, processos de degradação, auxiliar na autenticação e datação de obras e até fornecer informações sobre o cotidiano e as técnicas utilizadas pelos artistas de diferentes períodos”, detalha.

Ferrer afirma que identificar esses elementos é compreender de forma mais precisa a artista, seus recursos utilizados na época e sua intenção na produção. “Em muitos períodos da história, era comum que os artistas preparassem suas próprias tintas, vernizes e outros insumos empregados em suas obras. Esses materiais frequentemente eram produzidos a partir de misturas complexas”, diz.

Arte e engenharia

Além de se aperfeiçoar nas técnicas, o coordenador destaca que os estudantes participantes possuem um papel singular na construção do reconhecimento às artistas. “Eles contribuem buscando compreender não apenas os materiais presentes nas obras, mas também as pessoas, os contextos históricos e os significados culturais. Essa integração de diferentes perspectivas é especialmente importante em pesquisas relacionadas à arte e ao patrimônio’, explica.

A doutoranda Juliana Seixas, pesquisadora que atua por meio do doutorado do Programa de Pós Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais (PPGCEM) da UFPel, investiga a materialidade das obras, suas técnicas de produção e os processos de degradação desses materiais, principalmente da Benette.

Durante o levantamento das obras, Juliana afirma que foi marcante perceber a dimensão do apagamento das artistas e, ao mesmo tempo, a riqueza da produção que ainda pode ser valorizada. “Fica muito evidente como esse projeto ajuda a trazer visibilidade para produções que, por muito tempo, ficaram à margem”, conta.

Outro ponto que chama sua atenção é a aproximação entre arte e engenharia, já que a análise da materialidade vai além de observar tinta e suporte, mas também conseguir compreender escolhas e possibilidades de conservação. “Essa relação entre o olhar sensível da arte e o olhar técnico da engenharia torna a pesquisa muito interessante, porque mostra que uma obra pode ser compreendida tanto pela sua expressão artística, quanto pelos materiais que a constituem”, pontua.

Ela ressalta que é desafiador lidar com a escassez e fragmentação das fontes, pois muitas vezes os registros estão dispersos entre arquivos institucionais, documentos familiares e relatos orais. “É necessário cruzar informações de diferentes naturezas, como documentos, imagens, entrevistas e análises materiais”, diz.

Lacunas e memórias

Já para Simone e Daniele, a distância temporal entre o período estudado na EBA e o tempo presente é um dos principais desafios. “Um bom número destas mulheres já não pode nos contar sua história com suas palavras, pois já faleceram. Além disso, o tempo não é um bom amigo das memórias. Quanto mais próximo do presente estiver a existência de uma artista, mais fácil sabermos por onde andou e o que produziu”.

Um obstáculo pertinente é a condição legal em relação ao matrimônio e a própria sociedade no período estudado. “A época pesquisada era de ‘liberdade vigiada’, a sociedade esperava que as mulheres cumprissem um papel social. Com isso, as alunas que eram em sua maioria muito jovens e solteiras ao passar pela EBA, ao casarem-se, mudaram de sobrenome, era obrigação legal, e isto torna a busca bastante difícil, em alguns casos se tornou inviável”, complementam.

Segundo elas, todas as pesquisas sempre são carregadas de surpresas, entre elas o número de mulheres que, ao longo de suas vidas, se dedicaram a diversas formas de arte. Entre as artistas identificadas estão Benette Casaretto, Clara Pechansky, Lisarb Real, Flora Bendjouya e outras ex-alunas da EBA.

Mágico sentado, de Clara Pechansky. (Foto: Arquivo)

O projeto propõe a criação de um repositório virtual, a fim de possibilitar o acesso a vida e às obras dessas artistas a população e ações educativas. A equipe reforça que convida as pessoas a colaborar com o projeto, caso alguém possua obras de mulheres artistas pode entrar em contato pelo e-mail [email protected] ou por mensagem no Instagram @asartistasdaeba.

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