Presente de Natal da Apae está nas mãos da sociedade pelotense

Associação está localizada na rua Olga Eifler, 220, Três Vendas, Zona Norte de Pelotas, e dispõe de mensageiros para buscar a contribuição em casa. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

A solidariedade é o maior presente que a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) Pelotas pode receber neste Natal. Se traduzida no aumento de doadores mensais, dos atuais 1,4 mil para quatro mil, a instituição afasta qualquer sombra de paralisação das atividades, deixando de assistir em um primeiro momento 650 famílias que precisam lidar com crianças com algum tipo de deficiência intelectual, múltipla e autismo.

Para se tornar um doador regular, de qualquer quantia sempre bem-vinda, não é difícil. É até bem simples. Basta entrar em contato pelo telefone (53) 3301-5137. A unidade local da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), localizada na rua Olga Eifler, 220, Três Vendas, Zona Norte de Pelotas, dispõe de mensageiros para buscar a contribuição em casa. O apoio pode também ser via pix. Anote: 53 98422-2520.

Com os sonhados quatro mil contribuintes mensais, pelas contas do presidente-
interventor Luiz Osório Santos, no cargo desde julho deste ano, será possível saltar de uma renda de R$ 35 mil por mês para R$ 90 mil. O valor é suficiente para pagar dívidas de custeio, manutenção e do passivo acumulado que determinou a intervenção pela Federação das Apaes do Rio Grande do Sul com Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), encargos trabalhistas e de imposto de renda.

“Chegamos à conclusão de que se a gente trabalhar fortemente, pela relevância social que a Apae tem junto às famílias e às pessoas atendidas, um serviço de atenção especializada, que normalmente o SUS [Sistema Único de Saúde] não oferece, vamos evitar que a Apae feche”, conta ele ao Tradição Regional ao lado da assistente social Mariana Barreto Siqueira e da diretora da escola mantida pela Apae, Giane Dias, estabelecimento que atende desde crianças da educação infantil até adultos.

O objetivo da nova gestão é gerar uma estabilidade duradoura à unidade, realidade distante no horizonte, a fim de que se permita afastar em definitivo a ameaça de fechamento. Não há um prazo preestabelecido para se alcançar a meta. Há, porém, a necessidade de manter os serviços ao contingente da população que não pode abrir mão deles, precisamente em três áreas: educação, assistência social e saúde.

 

O presidente-interventor Luiz Osório Santos, a diretora da escola mantida pela Apae, Giane Dias, e a assistente social Mariana Barreto Siqueira e, que lutam para oferecer atendimento qualificado aos atendidos pela Apae. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Todas são executadas em termos de cooperação com a prefeitura. “Embora sejamos uma entidade privada, o que fazemos aqui é serviço público de atenção especializada por meio de termos de cooperação com a prefeitura”, explica o atual gestor da unidade. Neste mês já foram renovados os convênios relativos à assistência social e à educação. Em maio de 2024 se dará a renovação do termo de cooperação do serviço de saúde. Os encaminhamentos são de responsabilidade da administração pública, via regulação municipal. O montante repassado pelo Executivo é voltado para a folha de pagamento dos profissionais contratados pela unidade.

No caso da assistência social, esclarece a responsável pelo setor, o foco são as famílias. De acordo com Mariana, além de direcionar, conforme a necessidade, à rede socioassistencial, prestam serviço de acolhimento e orientação – bem como à equipe multidisciplinar que atua na Apae Pelotas. O setor de saúde dispõe de profissionais de Neurologia, Terapia Ocupacional, Fisioterapia, Psicopedagogia, Psicologia e Educação Física.

Já a Escola Especial Joaquim Gonçalves Ledo, que funciona nas dependências da unidade, conta com Educação Infantil, Ensino Fundamental completo (até o 9º ano) e Educação de Jovens e Adultos (EJA). São 90 alunos, dos quatro aos 32 anos. “A partir dos 15 já estão no EJA”, diz Giane. São oferecidas também oficinas de música, culinária, capoeira, artesanato, entre outras, além da alimentação (merenda escolar). “Nosso trabalho é focado na autonomia deles”, completa a educadora. O corpo docente é composto por 10 profissionais, nos turnos da manhã e tarde. “Trabalhamos as habilidades de cada um, dentro da realidade deles”, afirma. As aulas são retomadas em fevereiro, a partir da segunda quinzena. Mas o funcionamento só para mesmo no recesso entre Natal e Ano Novo. A partir de janeiro os serviços de saúde prosseguem

No entanto, essas verbas não são suficientes. De acordo com Luiz Osório Santos, as outras despesas não são sustentadas pelos convênios com a prefeitura. Ao longo dos anos a unidade Pelotas acumulou dívidas que justificaram a atual intervenção, e as doações da sociedade civil estão aquém das necessidades da instituição. “Nosso grande desafio hoje é ampliarmos o número de doadores”, reforça ele.

“Para nós, aquele doador que todos os meses nos ajuda com R$ 10, R$ 15, R$ 20, é estratégico”, argumenta. “Há espaço físico, há serviços que podem ser qualificados, instituídos e uma demanda reprimida de quase mil pessoas, segundo a prefeitura.” Dentre esses serviços, para 2024 a Apae Pelotas pretende implantar a estimulação precoce, a fim de atender crianças do 0 aos 4 anos. “Quanto antes o diagnóstico e o tratamento, melhor para a criança, como no caso de bebês que já saem do hospital com Síndrome de Down, e para as famílias”, diz a assistente social Mariana Siqueira. Embora a incerteza pela inexistência de verbas para executá-lo, já há movimento no sentido de implantar o serviço. O projeto já foi encaminhado junto à Secretaria de Saúde.

O que falta
Para atingir o objetivo, a Apae Pelotas já está na labuta. O primeiro passo é dar início a um trabalho de divulgação maciço a fim de sensibilizar a comunidade. Está prevista uma campanha na TV em parceria com a fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, além de alargar parcerias, como a já em andamento com a Associação Comercial de Pelotas (ACP). “Não é trabalho para se fazer sozinho”, reconhece o atual presidente da unidade.

Baixa renda prepondera
O perfil socioeconômico das famílias é de baixa renda. “A refeição mais completa que nosso público tem acesso é a que oferecemos”, reforça Mariana. Tanto que são distribuídas cestas básicas todos os meses – para 90% dos atendidos.

O abandono parental não é incomum, invariavelmente o paterno. Por isso o trabalho também precisa ser extensivo às famílias, chefiadas por mães que jamais estiveram preparadas para a realidade de criar um filho com algum tipo de limitação. Ninguém está. A maioria delas permanece na Apae enquanto os filhos e filhas estão em aula, pois não tem como retornar para suas casas – o passe-livre do transporte coletivo só autoriza o uso do benefício na companhia da criança.

Uma ou duas vezes por semana a unidade realiza trabalhos com grupos de mães, com oficinas de maquiagem e culinária, sessão de cinema, palestras, rodas de conversa com psicólogas, entre outras atividades. “O maior medo delas é morrer por não saberem quem vai ficar os filhos”, informa a assistente social.

“A Alícia só se desenvolve”
Angélica Milgarejo Fanca, de 37 anos, dona de casa, é mãe da Alícia Fanca Amaro, de 6. A menina precisa dos serviços da Apae devido à paralisia cerebral que a impede de caminhar e ter o movimento pleno das mãos. Desde 2021 elas estão na Apae. O tratamento começou com fisioterapia. Mais tarde teve acesso à terapia ocupacional e à fonoaudióloga, e hoje está na escola.

“O desenvolvimento dela só tem melhorado”, elogia Angélica. “Antes ela não conseguia agarrar as coisas”, conta. E não apenas. Ainda não tem firmeza para conseguir caminhar, mas já fica de pé apoiada em uma estrutura qualquer, como um sofá. Elas não esmorecem. E a mãe confia que mais avanços virão: “Devagarzinho ela vai desenvolvendo”.

Em trabalho de fisioterapia e outras especialidades, Alícia Fanca Amaro, de 6 anos, filha de Angélica Milgarejo Fanca, de 37, demonstra evolução a partir dos cuidados da Apae. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Do convívio na unidade local da Apae, ela só tem elogios. “O pessoal é maravilhoso, recebe a gente muito bem, são profissionais excelentes, da coordenadoria, o pessoal que atende, que trabalha aqui, até o pessoal da faxina, são muito gente boa”.

Assim como as outras mães, sua rotina é acompanhar a filha “o tempo todo”. Vale a pena. Graças ao tratamento na Apae, a vida da criança não se resume à cadeira de rodas. Hoje Alicia engatinha “por tudo que é lugar”. Sem Apae seria possível? “Não, sem a Apae ela não teria nenhum progresso, a gente não sabe lidar, graças aos profissionais que atendem aqui a Alícia só se desenvolve”.