Por trás do doce consumido na Fenadoce tem muito trabalho e dedicação envolvidos

Docerias envolvidas mobilizaram uma grande equipe de profissionais para conseguir atender a demanda por mais de 2 milhões de doces. (Foto: Rafael Takaki)

Por trás dos quase dois milhões de doces consumidos durante os 19 dias da Feira Nacional do Doce (Fenadoce) tem uma legião de doceiras envolvidas com o trabalho de produção destas guloseimas. Para quem consome pode ser apenas 30 gramas ou mais de açúcar e ingredientes nobres, mas para quem os prepara, tem muita dedicação, noites mal dormidas e uma jornada que começa antes mesmo do galo cantar.

De acordo com a presidente da Associação dos Produtores de Doces de Pelotas, Simone Bica, da Dona Xica Doces de Pelotas, a entidade possui hoje 22 associadas, mas elas não trabalham sós. Cada uma possui uma equipe reforçada de outras doceiras, que fabricam não apenas os doces consumidos na Fenadoce, mas também para abastecer as docerias de Pelotas, que têm demanda aquecida durante o evento.

A Fenadoce é o “Carnaval” das Doceiras, o evento máximo da categoria, mas com o aumento no consumo, aumenta também a produção e todos os custos envolvidos com a atividade. “Todas as nossas associadas estão envolvidas com a feira e nesta época do ano precisamos contratar outras pessoas para nos ajudar”, disse a presidente.

Doce finos ou cristalizados, todos agradam ao paladar dos turistas. (Foto: Rafael Takaki)

Ao longo do ano a Dona Xica tem três funcionárias e em época de feira, chega a 15 ou 16, exemplifica. Segundo ela, mesmo quem não está envolvido com a associação e com a Fenadoce acaba se beneficiando com a venda de doces. “No nosso espaço da Rua do Doce, na rua Sete de Setembro, houve um aumento considerável na venda de doces também”, afirmou. Ela estima que as doceiras chegam a duplicar a sua venda diária pois quem está na cidade se motiva a consumir mais doce. Quindim e bombom de morango são os campeões de venda.

A expectativa para esta edição é superar o montante de 1,9 milhão de unidades de doces vendidas somente dentro da feira. “Nós sempre queremos superar a marca. Então, para este ano, esperamos chegar a no mínimo dois milhões e estamos trabalhando para isso”, afirmou a doceira. Segundo ela, a movimentação na feira colabora para atingir esta meta, pois já os primeiros dias foram de corredores lotados, no pavilhão do Centro de Eventos, o que de acordo com ela, não costuma ser comum e, só reforça as boas expectativas.
As doceiras estão preparando inúmeras novidades que devem ser lançadas ao longo do evento. “Eu consegui lançar no final da feira, no ano passado, dois bombons, um de vinho e outro de amarula e nosso trabalho deve ser em cima destes dois tipos neste ano. “Também estamos trabalhando com o quindim diet, produção exclusiva da Dona Xica, feito à base de Xilitol e calda de Agave”, ressalta.

O preço precisou ser reajustado ainda no mês de março, diante da alta dos principais ingredientes do doce, como os ovos, o açúcar, leite condensado e outros. Mas o preço praticado na Fenadoce de R$ 7,50 a unidade é o mesmo cobrado nas docerias do Centro, afirma. “Geralmente o preço a ser trabalhado durante a feira é acertado no mês de abril, mas este ano não conseguimos segurar, mas foi muito bem pensado e chegamos a um valor razoável para o consumidor”, ressalta.

Uma atividade carregada de tradição familiar
A doceira Renata Siqueira da Silva, de 51 anos, convive com doces desde que “se conhece por gente”. Ela lembra que aos seis anos, já observava a mãe Magda Siqueira, também doceira, falecida no ano passado, a confeccionar os doces, mas foi aos nove anos que começou a aprender e aos 17, já casada, passou a colocar a mão na massa, como profissão. Sua especialidade são os doces tradicionais, mas faz de tudo um pouco, como os quindins, panelinhas de coco, olho de sogra, bombons de morango. Entre os seus diferenciais estão a Lata de Lixo e Borboleta, com chocolate e musse com nata e brigadeiro.

Doces tradicionais são a especialidade da doceria de Renata Silva. (Foto: Luciara Schneid/JTR)

Nos 19 dias de feira, a rotina das doceiras muda completamente e a principal preocupação do dia passa a ser o doce e a Fenadoce, segundo Renata uma grande oportunidade para a categoria das doceiras. “Nos dias de mais movimento o dia começa antes das 6h e termina depois da meia-noite e conforme a demanda vamos ajustando o horário de acordar para mais cedo e deitar mais tarde”, ressalta. Em alguns momentos sobra um tempinho para atender nas bancas na feira e avaliar o movimento, finaliza.

Doce patrimônio
A tradição doceira conquistou para a cidade, em 2018, o reconhecimento como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 6 de junho, instituído através da lei 6.582/2018, é comemorado o Dia da Doceira. Fundada em abril de 2008, a Associação possui 22 associadas, empresárias do setor que têm como objetivo além de fortalecer o segmento, proteger o legado das receitas de doces tradicionais e estimular a inovação e desenvolvimento das empresas. A tradição dos doces ao território de Pelotas é garantida através do selo de Indicação de Procedência dos Doces de Pelotas (IP), registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Quinze doces tradicionais pelotenses têm a indicação de procedência e certificação através do selo de identificação e origem geográfica. São eles, a Panelinha de Côco, Pastel de Santa Clara, Bem Casado, Broinha de Côco, Amanteigado, Beijinho de Côco, Ninho, Olho de Sogra, Camafeu, Fatias de Braga, Papo de Anjo, Queijadinha, Quindim, Trouxas de Amêndoas e os Doces Cristalizados.

As doceiras levam os doces e o nome de Pelotas também a feiras regionais e estaduais, como a Feira do Artesanato de Rio Grande (Fearg) e a Expointer, em Esteio, onde possuem espaço físico fixo.

Patrimônio Cultural reconhecido nacionalmente, os doces pelotenses nascem
das mãos de profissionais altamente qualificados. (Foto: Rafael Takaki)