Pelotense luta pela permanência em tempo integral em UTIs neonatais

O padrinho, Jeferson Bilhalva, acompanhou a pequena Laura, ainda no hospital. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando recebeu a notícia de que seria padrinho da pequena Laura, Jeferson Bilhalva, de 36 anos, não imaginava que a missão se transformaria em luta. Laura Born Gomes nasceu em maio de 2017 com coarctação da veia aorta e cardiopatia, o que levou a bebê a ser transferida, com apenas 15 dias, para o Hospital da Criança Santo Antônio, em Porto Alegre.

Em Pelotas, enquanto esperavam por um leito na Capital, os pais tiveram direito a duas visitas diárias, de 30 minutos. Já em Porto Alegre, a menina contou com a presença dos pais, Bruna Born e William Gomes, e do padrinho em tempo integral durante a permanência na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Segundo Bilhalva, por causa desse contato com a recém-nascida, os quatro viveram no hospital dias de muito acolhimento e união, apesar da tensão pela melhora da menina. Depois de mais de 20 dias de internação, a rápida recuperação permitiu que ela e a família retornassem à cidade natal. Em outubro de 2017, com cinco meses, a menina voltou a apresentar problemas de saúde e veio a falecer em decorrência de uma parada cardíaca.

O padrinho, que na época pediu demissão de seu emprego formal para acompanhar a afilhada, explica que os dias em que esteve no hospital o fizeram refletir e pesquisar sobre a importância do contato físico na recuperação dos pacientes de UTIs neonatais e pediátricas e a questionar a diferença de tratamento entre as duas cidades. (Foto: Rafaela Dutra/JTR)

O padrinho, que na época pediu demissão de seu emprego formal para acompanhar a afilhada, explica que os dias em que esteve no hospital o fizeram refletir e pesquisar sobre a importância do contato físico na recuperação dos pacientes de UTIs neonatais e pediátricas e a questionar a diferença de tratamento entre as duas cidades.

Assim, surgiu o Projeto Colo de Laurinha, que visa à permanência dos pais ou acompanhantes junto às crianças internadas nos hospitais de Pelotas e região. Depois de quatro anos, o agora motorista de aplicativo transformou a saudade em luta por aqueles que passam pela experiência já vivenciada por ele. “Está sendo fantástico lutar pelos pais, para que eles saibam que eles têm esse direito por lei”, conta ele, que acredita que esta tenha sido a missão deixada por Laurinha.

A diretora técnica do Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP-UCPel), Márcia Anderson, explica que a circulação nas UTIs são restritas e os autorizados a entrar devem tomar alguns cuidados, como estar devidamente higienizado e, quando necessário, fazer uso de avental e luvas. No entanto, ela lembra que a presença dos pais, é direito da criança, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “É uma forma que os mesmos têm de acompanhar o atendimento, participar dos cuidados e da evolução de seus filhos”, afirma Márcia. O Hospital permite o acompanhamento dos pais no local.

De acordo com Bilhalva, nem todos os hospitais da região seguem à risca a Lei nº 8.069 de 1990 e o projeto busca cobrar das autoridades o cumprimento da mesma, garantindo a permanência dos pais ou responsáveis junto à criança. O projeto está sendo apresentado por ele nos hospitais que ainda não adaptaram as UTIs. “Nosso futuro está nascendo e a gente não pode deixar essas crianças sozinhas”, ressalta.

Viviane Freitas, de 37 anos, mãe do Miguel, que agora tem 6 meses e um riso frouxo, conta que ele nasceu prematuro e precisou ficar por quase 50 dias no HUSFP. A mãe esperou 20 dias para segurá-lo no colo pela primeira vez. Antes disso, ela e o marido apenas tocavam as mãos e pés do bebê. Para ela, os dias de internação foram de medo e incerteza, considerando a possibilidade de se ter mudanças repentinas, mas que poder senti-lo em seu peito, quando foi possível colocar em prática o método canguru, transformou a experiência em dias inesquecíveis. Ela resume a sensação de segurá-lo pela primeira vez como “senti-lo nascer outra vez.”

O peso do prematuro é um dos principais fatores para a alta e o contato com a mãe, no caso de Miguel, foi essencial, já que ele pegou rápido o gosto pelo leite materno. “Ele nasceu com 1,575 quilos, um pedacinho de gente. Eu tive o primeiro contato físico com ele só no dia seguinte. Depois, ele sentia quando chegávamos na incubadora, pois abria os olhos e ficava se mexendo todo”, lembra.

No mesmo sentido, o padrinho de Laura lembra, emocionado, de quando a mão pequena da menina, de dentro da incubadora, segurava em seu dedo para dormir e de quando ela dormia em seu peito. Agora, ele sonha que o projeto seja nacionalmente conhecido, para que outras pessoas passem pela experiência e tenham memórias carinhosas como as dele e de Viviane. “Vai ser gratificante ver a felicidade de cada pai, de cada mãe e saber que a Laurinha vai estar presente, fazendo o bem para eles”, conclui.

HE também permite a visitação
A enfermeira Neonatologista e chefe da UTI Neonatal do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Nara Nunes, explica que o Hospital entende os benefícios, ao recém-nascido, da proximidade dos seus pais para melhora clínica e na formação e fortalecimento do vínculo com a família, mas que a unidade apresenta alguns obstáculos em relação área física e a presença e acomodação dos pais durante a noite, por exemplo.

“Essas melhorias já foram para o projeto e serão contempladas no novo Hospital Escola”, conta. Apesar disso, segundo ela, os pais têm direito a visitação, sem restrição de horário e ainda com horários determinados para visitas de outros familiares.

Agora, no período de pandemia, os horários foram alterados cumprindo as determinações do Comitê Covid do HE.

Entrevista ao Tradição News

Bilhalva também concedeu entrevista ao programa Tradição News, que você confere abaixo: