Pelotas: Moradores do Posto Branco realizam manifestação pacífica contra valor do pedágio na região

Manifestação pacífica ocorreu ao lado da BR-116. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Moradores da localidade Posto Branco, interior de Pelotas, estiveram reunidos, ao lado da BR-116, em uma manifestação pacífica, portando faixas, para reivindicar o valor do pedágio no Retiro que, assim como em outros locais, aumentou recentemente, bem como a isenção do valor (R$ 15,30) para quem reside na área e para moradores de localidades próximas, que integram o Município. Na ocasião, os manifestantes foram notificados e surpreendidos – através de documento de autoria da Ecosul –  por oficiais de justiça a respeito do movimento que precisou ser realizado ao lado da via, sem obstruí-la, estando os envolvidos sujeitos a multa em caso de desacato.

Documento foi entregue por oficiais de justiça aos manifestantes presentes. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Segundo os presentes no local, transitar para outras regiões do Município tem sido impossível, devido ao valor cobrado pelo pedágio. Aquisição de alimentação, desempenho do trabalho, acesso a universidades, acesso a atendimento médico, transporte de produtos para venda, entre outras ações tem exigido da comunidade uma grande quantia de recurso – o que é inviável para eles – a fim de que possam seguir com sua rotina, garantindo seu bem estar físico, financeiro etc.

Conforme o presidente do Ceasa, José Paulo Benemann, muitos produtores rurais que necessitam fazer o trajeto diariamente perdem a quantia que seria adquirida após a venda de produtos porque precisam quitar o valor solicitado por meio do pedágio. “Eles gastam R$ 30,60 para ir e voltar, para trabalhar. Muitas vezes, ganham R$ 40 por dia. O pessoal não consegue passar para lá. […] Isso aqui tudo [produtos como alface, repolho etc] ele deixa no pedágio. Isso aqui é só para ele chegar”, afirma José, que ainda destaca que o acréscimo nos produtos é de cerca de 2% a 3%, devido ao valor cobrado no pedágio. Produtos vendidos nos mercados da localidade também sobem de preço devido ao aumento do valor do pedágio, o que também afeta negativamente a comunidade, destaca o presidente.

Paulo Benemann falou sobre o prejuízo financeiro ocasionado ao produtor devido ao valor do pedágio. (Foto: Adilson Cruz/JTR)

Além dos produtores, moradores que precisam buscar recursos no Municípios também estão sendo significativamente afetados. Uma mulher que reside no local há mais de 18 anos e que preferiu não ser identificada, diz que o estabelecimento do preço atual prejudica os residentes em muitos campos, como o acesso ao atendimento médico. “A gente não pode ter um carro para ir no supermercado. Toda vez é R$ 30 reais. Esse preço absurdo. Tem pessoas que moram aqui e que trabalham na cidade. Essa praça de pedágio é muito próxima da entrada da cidade. A cidade vem crescendo em direção a zona norte. A praça de pedágio está quase dentro da cidade. Essa praça teria que ser em outra localização. Não tem médico porque o médico quer vir de carro e o médico não quer pagar R$ 30 de pedágio para vir aqui trabalhar. Cada vez que tu quer receber uma mercadoria em casa, é um transtorno para te entregarem. Tem pessoas que fazem faculdade lá no Capão do Leão. Sair daqui para pegar quantos ônibus para irem até lá. Podem ir de carro? Não, é R$ 30 de carro todo dia. Se torna inviável, não tem quem consiga sustentar”, reclama.

A fonte ainda detalha sobre o pagamento contínuo de pedágio que danou os residentes do local por muito tempo, além das isenções que estão sendo cada vez menos disponibilizadas. “Os filhos da gente estão crescendo. É uma geração inteira que paga pedágio aqui.  Algumas isenções tem, mas eles vão tirando com  tempo. Já é uma minoria de gente que tem. Eles ameaçaram tirar agora no final do ano. […] A gente é refém, a gente não pode ser cidadão dentro da nossa própria cidade. Nós aqui somos sub-pelotenses. A gente não é um cidadão. A gente não consegue pertencer nem ao Município dignamente”, finaliza a moradora.

Mara Soares também esteve envolvida com a manifestação e afirma que, devido a escassez de atendimento na UPA da localidade, muitos moradores precisam buscar atendimento em outros locais, mas o valor do pedágio impede tal ação. “Tu tenta passar na Ecosul é R$ 30 reais e tantos. Tu vai várias vezes fazer o exame, tentar consultar. Não consegue. Quando tu consegue, tu não tem o dinheiro para fazer o exame, não tem o dinheiro para fazer a compra do remédio”, explica.

“A Ecosul dá para alguns e não dá para outros [isenção]. Eles não estão cumprindo com o papel que foi assinado por eles. Nós tinha uma estrada alternativa e eles resolveram fechar nossa estrada alternativa que era por aqui, dizendo que iam dar isenção. Mas faz 12 anos que eu moro ali. A isenção sempre foi negada para todos os moradores”, comenta Mara sobre o proceder da empresa privada.

Ação da Ecosul 

A Ecosul entrou com uma ação judicial, que foi aprovada na manhã de hoje (3) pelo juiz Régis Adriano Vanzin, destinada a manifestantes presentes no local, que explicitava a necessidade de os envolvidos não obstruírem a via – BR-116 -, podendo resultar em multa no valor de 10 mil para cada indivíduo.

O documento diz: “No caso concreto, é óbvio que o exercício dos direitos fundamentais supramencionados não pode acarretar obstrução das vias de tráfego ou mesmo das praças de pedágio, pois tal circunstância afrontaria o direito á liberdade de locomoção dos demais usuários (artigo 5º, inciso XV, da Constituição Federal).” Ainda, sobre a sujeição de punição, o documento salienta que cada manifestante, se desacatar as diretrizes especificadas, poderá estar “sob pena de incidência de multa de R$ 10.000,00″.

A empresa se posicionou por meio de nota: “A Ecosul não é contra qualquer tipo de manifestação, desde que ordeira e dentro da legalidade, sem pôr em risco a segurança de qualquer parte envolvida”, disse.