Pelotas: Grupo São Lázaro alimenta pessoas em situação de rua todo ano

Grupo distribui refeições todas as segundas-feiras, trabalho realizado há 25 anos. (Foto: Divulgação)

Todas as segundas-feiras a larga calçada da rua Anchieta da agência central dos Correios de Pelotas se torna a sala de jantar de dezenas de moradores de rua ou em situação de vulnerabilidade social. E isso só acontece graças ao trabalho voluntário de um grupo de pessoas denominado São Lázaro, de maioria católica. A janta oferecida uma vez por semana há 25 anos pelo grupo nas quatro estações do ano, algumas vezes sob chuva intensa, ameniza a fome de parcela de um grupo social numeroso, que vive abaixo da linha da pobreza na zona urbana do município.

Eles não são invisíveis. Os beneficiários, homens, mulheres, jovens e crianças, se contentam não apenas com o alimento preparado e servido gratuitamente todas as segundas, pós 20h. Segundo Maria Inês Pepe, principal porta-voz do São Lázaro, esse contingente que vai até o local se satisfaz com um sorriso, um abraço, uma conversa sincera. Acolhimento que chama. “Estabeleci com eles uma relação de confiança e respeito.

Respeito o jeito deles serem, as dificuldades que passam, os erros que cometem. É preciso entender o que pode ocorrer com um ser humano quando falta o básico para viver com dignidade”, diz.

E ainda assim, o humanismo está presente. Enquanto a janta é servida, mais de 200 porções a cada segunda-feira, Maria Inês conta ao Tradição Regional que já viu ali exemplos de solidariedade que merecem nota em jornal. Em noites que sobram alimentos, é possível levar porções. No entanto, é comum vê-los desistindo de garantir uma refeição que não terão mais tarde ou no dia seguinte em favor de retardatários. “Cansei de ver”, assegura. “Se deparar com uma atitude dessas, de pessoas que não têm nada ou muito pouco, pode parecer inacreditável, mas não – é o mais comum”, aponta.

Trabalho voluntário e ajuda
O Grupo São Lázaro conta com cerca de 40 pessoas, estima Maria Inês, com idades entre 40 e 82 anos. A comida é feita na garagem da casa dela, todas as segundas. Não há coordenação, as decisões são coletivas e colegiadas. “Todo mundo trabalha e decide junto”. Como exemplo a janta especial oferecida nos 25 anos do grupo, completados em abril. Tinha estrogonofe, refrigerante e sobremesa (torta doce). Difere do trivial.

Conforme Maria Inês, o cardápio é elaborado de acordo com o que o grupo arrecada. No dia 4 de dezembro, tinha arroz com couve, feijão e massa. Acompanha pão francês e suco natural (laranja). “O que se ganha se bota nas panelas”, garante. Não se compra nada. E, mesmo assim, sempre há a janta das segundas-feiras ali na calçada da agência dos Correios, no encontro das ruas Anchieta e Tiradentes. Fé inabalável na Providência Divina? “Com certeza”, responde ela. “Nunca faltou comida, já aconteceu de numa segunda-feira a gente usar todo o estoque de feijão e no outro dia uma pessoa chegar com 20, 30 quilos”, lembra.

Dia 18, mesmo, foi servida a tradicional ceia de Natal. Teve salada de maionese, galeto assado na churrasqueira da Igreja São Cristóvão, que cede o espaço, macarrão e torta doce, tudo servido em bandeja e isopor, além de refrigerante.

Mas além da ajuda divina, o grupo faz por onde. Tem vários contatos na Central de Abastecimento (Ceasa) de Pelotas, em distribuidoras de hortifrutigranjeiros e afins. Há parceiros que angariam dinheiro e com o montante abastecem a despensa com itens alimentícios e insumos como açúcar, sal, óleo e gás, apesar do apoio do Gás Marrinhas. “É assim que funciona, passa gente aqui, olha, se sensibiliza e doa, esses tempos um menino bem jovem passou e pediu meu pix”, explica ela. O leitor pode fazer o mesmo. Anote a chave, telefone: (53) 99135-4300.

Como tudo começou
Em 1998, num fim de tarde atipicamente frio para o mês de abril, a jovem estudante de Ensino Médio Clarissa Gonçalves, a Kika, então com 18 anos, foi abordada por Beiço, conhecido morador de rua da área central. O expediente na loja de roupas onde trabalhava no turno inverso ao da escola já se encaminhava para o final e Beiço, sabendo que uma madrugada gelada o esperava, queria papelão. Foi o que pediu.

A principal porta-voz do São Lázaro, Maria Inês Pepe, destaca que a solidariedade também marca a atitude dos moradores de rua. (Foto: Divulgação)

Pediu e levou. Kika conseguiu o papelão solicitado. Não conseguiu foi tirar aquela situação da cabeça. “Não parava de pensar: ‘Como vou me deitar sabendo que o Beiço [que para ela já não era nenhum estranho] só vai ter papelão pra se proteger desse frio’”, se perguntava.
Por volta das 23h, quando seu pai, Cláudio, chegara em casa naquela noite, pediu para levar um cobertor ao morador de rua. Topou, sugerindo que levasse também uma comida. Afinal, em uma situação como aquela, se tinha frio, provavelmente teria fome.

E foi assim que quase à meia-noite pai e filha deixavam o conforto da casa da família no bairro Fragata em direção ao centro de Pelotas. Não encontraram Beiço. Mas a tentativa não foi em vão. Encontraram Sidnei, outra figura fácil da área central na época – especialmente pela rua Sete de Setembro, entre Osório e Calçadão. Sidnei não quis a coberta (tinha a sua). O que não tinha era comida. Não recusou.

A experiência foi marcante. Dias depois, ao sair da escola onde estudava, no fim da manhã, “teve um estalo”. Do orelhão em frente ao quartel do Corpo de Bombeiros ligou para o pai propondo um sopão para servir à população de rua que orbitava as noites do centro de Pelotas. “’Pode fazer que eu vou contigo’, meu pai respondeu”, relembra ela, ainda com alegria. Pronto. Começava ali um projeto que já dura um quarto de século e não dá nenhum sinal de que um dia deixará de servir alimento e empatia às camadas mais vulneráveis da população pelotense.

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