
*Com informações da Assessoria de Imprensa
Pelotas foi oficialmente definida como a principal base de operações da Petrobras para a futura exploração da Bacia de Pelotas, uma extensa área petrolífera localizada no oceano Atlântico e que se estende ao longo da costa do Rio Grande do Sul até o sul de Santa Catarina. A decisão consolida o município como peça estratégica em um dos projetos mais ambiciosos da indústria de energia.
O anúncio ocorreu na manhã de quarta-feira (8), durante reunião realizada na Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA), com a presença de representantes da estatal responsáveis pelo licenciamento ambiental das atividades, Gisele Alcântara e Daniel Mattos.
De acordo com o cronograma apresentado, a Petrobras deverá iniciar a fase de perfuração exploratória em abril de 2028. Até lá, seguem em andamento estudos técnicos, incluindo levantamentos sísmicos e análises geológicas, que irão determinar com maior precisão o tamanho e a viabilidade econômica da reserva.
O prefeito Fernando Marroni (PT) destaca o impacto da decisão para o município e a região. “Essa é uma grande notícia para Pelotas, seremos a sede de todas as operações de prospecção de petróleo de uma bacia estimada em nada menos que 15 bilhões de barris — reserva considerada como uma nova fronteira exploratória de petróleo e gás no Brasil”, afirma.
Segundo ele, a confirmação do potencial da área pode representar uma transformação estrutural. “É uma grande oportunidade econômica, com capacidade de impulsionar investimentos em infraestrutura e tornar Pelotas um centro significativo em logística para sustentar as operações”, completa.
Futuro econômico
Para o economista e pós-graduado em Economia Financeira, Vinicius de Armas Alonso, a escolha do município já tende a produzir efeitos antes mesmo do início da exploração. “A chegada de operadoras e empresas terceirizadas gera um estímulo contínuo na demanda por serviços, hotelaria e mercado imobiliário antes mesmo do início das perfurações”, afirma. Segundo ele, o movimento “aquece a atividade comercial e amplia de forma natural a base de arrecadação municipal”, com reflexos positivos em tributos como o ISS e o ITBI.
A Bacia de Pelotas é classificada por especialistas como uma formação geológica sedimentar submarina, onde há possibilidade de acúmulo de petróleo e gás natural. Embora estimativas iniciais apontem para até 15 bilhões de barris, ainda não há produção ativa na região, o que torna a fase de prospecção decisiva para confirmar o potencial real.
Durante a reunião, também foi definido que Pelotas não apenas servirá como base logística, mas concentrará toda a gestão administrativa das operações. Isso inclui a coordenação de equipes, planejamento técnico e possível centralização de recursos financeiros relacionados à atividade, como os royalties, caso a exploração comercial seja viabilizada.
Nesse ponto, Alonso destaca que os recursos podem ser decisivos para o desenvolvimento local, desde que bem administrados. “Os royalties configuram uma fonte capaz de financiar transformações estruturais na cidade, mas precisam ser utilizados de forma estratégica, priorizando infraestrutura, saneamento e educação”, diz.
Outro ponto estratégico definido foi a utilização do aeroporto de Pelotas como principal estrutura de apoio. O local deverá funcionar como eixo de transporte para profissionais, equipamentos e insumos.
O secretário de Qualidade Ambiental, Márcio Souza, informou que a Petrobras pretende ampliar o diálogo com a comunidade local. “A Petrobras sinalizou que uma audiência pública será marcada para detalhar toda a operação”, explica. Segundo ele, também foi debatida a necessidade de estudos aprofundados sobre as características socioeconômicas da região.
Esses levantamentos devem considerar atividades já consolidadas, como a pesca artesanal, o turismo, o extrativismo e a aquicultura, além das comunidades tradicionais que dependem diretamente desses setores. A preocupação é garantir que o avanço da indústria petrolífera ocorra de forma planejada, equilibrando desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
Sobre esse equilíbrio, Alonso alerta para riscos conhecidos. “O setor de óleo e gás pode elevar significativamente o PIB per capita, mas existe o risco da chamada ‘doença holandesa’, quando a alta rentabilidade do petróleo acaba sufocando outros setores”, afirma. Segundo ele, a saída está na diversificação econômica. “Pelotas já conta com um agronegócio consolidado e um ecossistema de inovação relevante. O crescimento será sustentável se a nova riqueza fortalecer essas bases”, explana.
Impactos na região
O projeto também pode trazer reflexos importantes para o polo naval de Rio Grande, que já possui histórico de atuação no suporte à indústria de óleo e gás. A retomada e ampliação dessas atividades, impulsionadas por políticas federais, podem fortalecer ainda mais a cadeia produtiva regional.
Na avaliação do economista, setores como serviços especializados, construção civil e logística devem ser os mais beneficiados. “A área de tecnologia também tem oportunidade clara de se integrar à cadeia produtiva”, afirma. Por outro lado, ele aponta desafios para atividades tradicionais. “A indústria de energia eleva a média salarial e gera competição por mão de obra, exigindo mais eficiência do agronegócio para se manter competitivo.”
Para Alonso, esse planejamento passa por investimentos estruturais. “O próximo passo demanda atenção à malha rodoviária, especialmente a BR-392, além de mobilidade urbana, habitação e saneamento, para evitar sobrecarga dos serviços públicos”, adianta.
Ele também chama atenção para fatores externos que podem influenciar o projeto. “O mercado de petróleo é cíclico e sensível a tensões geopolíticas. Quedas no preço podem afetar o ritmo dos investimentos”, relembra. Ainda assim, avalia que a diversificação econômica da cidade funciona como proteção.
Mesmo em um cenário de transição energética, o economista considera a exploração estratégica. “A demanda global por combustíveis fósseis seguirá relevante nas próximas décadas, e a eficiência da Petrobras em águas profundas pode gerar recursos importantes para financiar a transição para fontes mais limpas”, pontua.



