Pelotas: As­sociação Comunitária do Laranjal (Asclar) reivindica maior atenção da Prefeitura às necessidades do bairro

A geógrafa Mariana Passos, o advogado Claudio Amaral e a vice-presidente da Associação Comunitária do Laranjal (Asclar), Meri Padilha, estiveram no JTR apontando as reivindicações do bairro e a falta de assistência da Prefeitura durante as enchentes. (Foto: Julia Barcelos/JTR)

Lembrado como um dos principais pon­tos turísticos da Princesa do Sul, mas, confor­me moradores, esquecido como região que carece de infraestrutura e mais assistência do poder público. O Laranjal, hoje, concentra em suas redondezas aproximadamente 45 mil ha­bitantes em um cenário que é afetado fre­quentemente pelo excesso de chuvas e níveis das águas, clamando por amparo e responsa­bilidade comunicacional da gestão municipal.

Remontando um cenário que data de 2015, quando alagamentos atingiram a re­gião em decorrência da falta de escoamento da água da Lagoa dos Patos para o oceano, fazendo com que mais de 1 mil residências fossem afetadas e um decreto de emergên­cia vigorasse no município, a região voltou a enfrentar grande impacto em setembro de 2023, outra ocasião em que o excesso de chuvas causou inundação, resultando nova­mente em pessoas desabrigadas e na assina­tura de um decreto emergencial.

Repetindo-se as fitas, o resultado após as tragédias é sempre o mesmo. E em regiões que mesclam estabilidade financeira e vul­nerabilidade social, atenuados são os pon­tos em comum que lamentam por uma vida construída em anos e que, de repente, é le­vada pelas águas.

Meri Padilha, vice-presidente da As­sociação Comunitária do Laranjal (Asclar), relatou ao JTR o frequente desamparo so­frido pelos moradores da comunidade por parte da Prefeitura, contando que os danos poderiam ter sido menores se a população tivesse sido escutada em outras ocasiões.

“A gente sentiu falta do empenho da Prefeitura com relação aos nossos anseios, aos nossos pedidos como Associação. Nós pedimos revitalização do dique, nós pe­dimos que fosse feito o dique pela frente da (rua) Nova Prata porque a gente sabia que o bairro iria alagar por ali”, conta a vice-presidente, que também é moradora do Balneário Santo Antônio, área marcada em vermelho no Mapa de Risco de inundação disponibilizado pelo governo municipal.

Entre as demandas solicitadas pelos moradores estão a falta de contenção pre­ventiva em relação às enchentes na re­gião, levando em conta os ocorridos em 2015, 2023 e atualmente; a falta de estrutu­ra no dique que dá acesso ao bairro – mes­mo sendo um dos principais atingidos – , quando outras áreas receberam reforços ao longo dos anos; a ausência de esforços para melhor contato da Administração com os moradores que integram a Associação; e a transparência sobre o cadastramento das áreas alagadas ao Auxílio Reconstru­ção, disponibilizado pelo governo Federal. “Pelotas é a cidade do faz de conta, da mí­dia. Uma coisa é uma cidade projetada na visão deles e outra coisa é a cidade real, que o morador está vivenciando”, destaca Meri, que identifica conflitos no atual ce­nário, contrapondo o que vêm sendo dito em pronunciamentos realizados pela pre­feita Paula Mascarenhas (PSDB) nas redes sociais durante esse período de enchen­tes. Conforme a moradora, forças do Ser­viço Autônomo de Saneamento de Pelo­tas (Sanep) e da Defesa Civil dificilmente são vistos pelas redondezas. “A sensação do morador é que eles dizem ‘pague’ e nós metemos a mão no bolso”, salienta a vice-presidente, destacando os altos valores do IPTU pagos pelos moradores da região, incluindo a taxa de esgoto.

Claudio Amaral, advogado e morador do Balneário Valverde, teve um prejuízo es­timado em cerca de R$ 100 mil, somando danos causados à área externa e interna da casa em que vive há 30 anos. Ele completa afirmando ter sido uma estrutura construí­da para que passasse a sua vida. A residên­cia do advogado, como tantas outras, era confortável, um ambiente que carregava luxos pelos quais se trabalha uma vida intei­ra para ter, mas que em alagamentos ante­riores também teve prejuízos com os impac­tos da água – embora em menor severidade.

A geógrafa Mariana Passos, por sua vez, é moradora do Novo Valverde desde 2020, tendo construído a casa do zero ao lado do marido. Ela contou que o ambiente era dividido entre chalé e alvenaria, tendo a maior parte dos móveis, eletrodomésticos e da construção da casa em geral compro­metida pelo contato com a água.

A região do bairro Laranjal é uma das mais afetadas do município pela cheia da Lagoa dos Patos. (Foto: Gustavo Vara)

O que diz a Prefeitura

O JTR entrou em contato com a Prefei­tura para buscar um contraponto para as reivindicações levantadas pelos morado­res e membros da Asclar.

Confira abaixo os esclarecimentos dados pela gestão municipal:

A região fica à beira da Lagoa dos Patos e do canal São Gonçalo, mais vulnerável às chuvas e alagamentos provocados por esses dois mananciais. Em 2015, houve uma gran­de enchente que atingiu o Valverde com a elevação das águas do canal. A partir daí, o governo municipal providenciou a constru­ção de um dique de contenção. Esse dique, de lá pra cá, vinha funcionando muito bem, inclusive na grande enchente de setembro de 2023, que destruiu a estrada do Pontal da Barra e alagou a localidade – o Valverde não foi atingido. Agora, em 2024, a cidade vive uma enchente sem precedentes na história, a maior do Rio Grande do Sul, uma catástro­fe de projeções muito maiores. Apenas nesta enchente as águas superaram o dique. A par­tir disso, o município trabalha na confecção de um projeto de reforço e fortalecimento dessa estrutura, buscando alternativas para contenção da Lagoa, o que é bem mais di­fícil por conta de questões ambientais. Os técnicos da Prefeitura e do Sanep já estão debruçados sobre isso.

Sobre o cadastramento das famílias atingidas para acesso ao Auxílio Reconstrução, do governo Federal

A Prefeitura não repassou essa informa­ção ao governo Federal porque não foi de­mandada ao poder público municipal, não é um procedimento para acessar o bene­fício. O que o governo Federal exige do governo Municipal é o cadastramento das famílias que tiveram suas casas atingidas pelas águas. A Prefeitura vai disponibili­zar um link para as pessoas que quiserem se autocadastrar. As que preferirem fazer presencialmente, terão essa disponibilida­de de segunda a quarta-feira da semana que vem (27 a 29 deste mês), no auditório externo do Colégio Municipal Pelotense.

Sobre a falta de contato com os moradores

A Prefeitura procura manter uma rela­ção de informação direta com a popula­ção, com total transparência. A população sabe onde funciona a Sala de Situação, a prefeita faz lives diárias desde o início do processo e a imprensa tem total acesso às reuniões na Sala de Situação. Caso a Asso­ciação tenha interesse em conversar dire­tamente com a chefe do Executivo, basta fazer contato e será prontamente atendi­da, como sempre aconteceu.

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