Nós por nós, um trabalho incansável para amenizar a fome de pessoas em situação de rua em Pelotas

Projeto ocorre religiosamente aos sábados, na sede do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Pelotas (Sticap), na produção de pelo menos 130 refeições destinadas principalmente a pessoas em situação de rua. (Foto: Divulgação)

Sem a ocorrência de catástrofes climáticas regionais de grandes proporções, 2025 foi um ano de pouca visibilidade para as cozinhas solidárias que, no entanto, não pararam de trabalhar para amenizar a fome de pessoas em vulnerabilidade, principalmente aquelas em situação de rua. Apesar do elenco reduzido, o projeto “Nós por nós” ocorre religiosamente aos sábados, na sede do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Pelotas (Sticap), na produção de, pelo menos, 130 refeições destinadas. São marmitas com arroz, feijão, carne, legumes, suco e sobremesa. Uma refeição saudável e balanceada que, para muitos, é a primeira e única do dia.

A coordenadora do grupo, a servidora Rosangela Mendes, diz que não pode se queixar das doações, que continuaram a chegar em 2025. “Foi um ano produtivo em que conseguimos manter nossas ações todos os sábados, com a distribuição de 120 a 130 refeições, nas três rotas a que nos propusemos: Centro-Porto, Centro-Fragata e Centro- Três Vendas”, afirma. Segundo ela, o grupo tem uma peculiaridade: todos os seus integrantes têm uma atividade de carteira assinada ou como profissional liberal, o que lhes limita a disponibilidade de tempo e resulta na baixa oferta de mão de obra para ajudar no projeto.

Os poucos que ficaram se dividem entre o preparo e a distribuição das refeições. “Por ser voluntariado, muitas vezes temos baixa movimentação de mão de obra para ajudar no projeto”, diz. Os interessados em ajudar, o trabalho da equipe é realizado todos os sábados, a partir das 15h, no Sindicato da Alimentação.

Desde o ano passado, o projeto está cadastrado junto ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do governo federal, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e recebe quinzenalmente hortaliças, como couve, brócolis, cebola, tomate, milho verde, frutas, e outros alimentos, como farinha de milho, feijão, biscoito e leite. “De frutas, às vezes, vem laranja, maçã e no final do ano passado veio melancia, que os beneficiados se apaixonaram”, afirma Rosangela. A coordenadora ressalta que os produtos garantem uma alimentação nutritiva a quem recebe as refeições.

Mesmo que foco do projeto esteja na população em situação de rua, Rosangela ressalta que as pessoas que têm casa e pedem a refeição também são beneficiadas. Alimentos excedentes e brinquedos recebidos em doação são entregues em comunidades carentes do bairro Dunas.

Para arrecadar recursos à aquisição de utensílios e eletrodomésticos para o preparo das refeições, o grupo realiza eventos como bingos, o que possibilitou no último ano, a compra de um freezer e mesa de inox. Os voluntários também contam com doações. “O pessoal da Receita Estadual nos doou um forno elétrico para fazer assados, como carne e bolos”, lembra a coordenadora.

A aquisição de proteína, marmitas, garfinhos, suco em pó, temperos, óleo e outros ingredientes necessários ao preparo vieram por meio de ajuda da comunidade. “Nossa corrente de amigos que contribuem por meio do Pix disponível no Instagram é que ajuda financeiramente o projeto a continuar”, salienta. Cada ação semanal, mesmo com as doações custa de R$ 400 a R$ 600, dependendo do cardápio. O custo também depende das promoções, pois o grupo está sempre atento às ofertas no varejo local, especialmente para a aquisição da proteína, que na maioria das vezes é guisado ou frango. As ações do grupo ocorrem até o final de dezembro, com recesso em janeiro e retorno em fevereiro.

Voluntários

A técnica de Enfermagem Laíse Centeno Xavier, de 37 anos, auxilia na cozinha do projeto há um ano e considera a iniciativa de extrema importância. “É satisfatório poder preparar e entregar uma comida de qualidade para quem não tem e que muitas vezes é a sua primeira e única refeição do dia”, afirma. A gratidão dessas pessoas e a certeza de que não irão dormir com fome é a sua maior recompensa, afirma Laíse, que às vezes também acompanha as entregas.

A aposentada Teresa Fanka, de 71, integra o projeto desde o início, há cinco anos, quando cozinhava em casa e levava as refeições até o sindicato, auxiliada pela filha Cátia. Depois de um tempo, passaram a ir até o Sindicato para o preparo no local. “Faço de coração e é muito gratificante ajudar essas pessoas que vivem na rua e passam frio e fome”, diz. Conforme a aposentada, estender a mão ao próximo é uma forma de agradar a Deus, e pede saúde para continuar a ajudar ainda por muitos anos.

Charles dos Santos Valadão, de 40, é voluntário no projeto desde 2024. Adepto ao voluntariado, ele ajuda na cozinha ao lado da esposa Luciana, de 44, e depois na entrega das refeições junto com o filho Benício, de 11 anos. “A gente sai renovado porque é uma troca, quando entregamos o alimento, procuramos conversar e resgatar um pouco a dignidade destas pessoas e inspirar lucidez para que aceitem tratamento para vencer a droga. No final, acabamos recebendo mais do que doando”, salienta. A rota inclui também aquelas pessoas que estão no Pronto Socorro, à espera de atendimento, pacientes e familiares vindos de cidades vizinhas.

A servidora municipal Carolina Lopes, de 36, se juntou ao projeto há menos de dois meses. “Eu admiro muito o trabalho do Nós por nós, que eu conheci pelas redes sociais, mas quem me motivou a vir foi meu enteado, que entrou em contato e participa”, garante. Segundo Carolina, nas conversas em casa, a preocupação com o próximo está sempre presente e toda a família auxilia como pode. “Eu me senti super acolhida e fico impressionada com o impacto do trabalho deles, pois a gente se depara com situações de extrema vulnerabilidade, pessoas que vivem à margem da sociedade e não recebem uma troca de olhar e, ao mesmo tempo, é uma injeção de ânimo, pois esse gesto simples faz uma diferença enorme na vida deles”, reforça.

Mais informações estão disponíveis no Instagram @projeto.nospor.nos. As doações em dinheiro podem ser realizadas pela chave Pix (53) 984281876, em nome de Vilma Vieira, responsável pelo financeiro do projeto. Novos voluntários também são bem-vindos.