
Em meio à crise econômica e às baixas temperaturas, brechós e feiras de moda circular crescem em Pelotas, movimentando o consumo consciente, ampliando o acesso a roupas de qualidade e impulsionando a renda de pequenos empreendedores.
A falta de dados oficiais faz com que as estimativas de negócios do setor na cidade tenham que ser feitas com base nas contas dos próprios empreendedores, que calculam haver entre 70 e cem empreendimentos do tipo em atividade atualmente. Além disso, feiras semanais como a da praça Coronel Pedro Osório chegam a reunir até 70 estandes. De acordo com a organizadora da Feira das Estações, Silvia Carvalho, o aumento no número de expositores e consumidores está diretamente ligado à busca por alternativas diante da necessidade de economizar com vestuário, principalmente durante o inverno.
“Tem muito essa moda de moda circular, de ser sustentável. E ajuda tanto o público quanto os expositores, que têm uma renda extra”, afirmou Silvia, que também é proprietária de brechó. Em sua avaliação, o ‘desapego’ cresceu, motivado tanto por questões financeiras quanto pela mudança no olhar sobre a roupa usada.
Consumo consciente em evidência
Nos brechós, consumidores encontram peças de inverno em ótimo estado, como casacos de lã e jaquetas, a preços acessíveis. Frantieska Schneid, professora do curso de Design de Moda do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) e representante do movimento Fashion Revolution em Pelotas, destaca que esse tipo de consumo amplia o ciclo de vida útil das roupas e contribui para um menor impacto ambiental. “A roupa mais sustentável que existe é aquela que já está disponível. Comprar uma peça de brechó é uma forma de consumo consciente”, explicou.
O conceito de moda circular vai além da revenda. Inclui também feiras de troca, a transformação de peças antigas em novas (upcycling) e ações comunitárias de reaproveitamento. Diferente da chamada economia circular, em que a peça retorna ao fabricante, a moda circular se constrói de forma descentralizada, nas mãos dos consumidores e pequenos negócios.
Guilherme Santos, responsável pelo brechó Furfle Clothing, aposta na curadoria de roupas vintage e de grife masculina. Com foco no streetwear, ele enxerga a moda circular como ferramenta de acesso e identidade. “É possível se vestir com estilo, com peças de qualidade e ainda pagar menos. Além disso, cada peça traz uma história”, afirmou.

Quem também pensa dessa maneira é a estudante de design gráfico Eduarda Borges, de 17 anos, consumidora frequente de brechós, especialmente das feiras de rua. “São roupas únicas, que não se encontram mais nas lojas de departamento”, disse. Em busca de um estilo próprio de vestir, a estudante mensalmente percorre os brechós garimpando novas peças. “Roupas que carregam originalidade e histórias são as minhas preferidas”, contou.
Desapegos como forma de renda
O brechó infantil Cresci e Perdi, com unidade em Pelotas, atua como uma alternativa prática e econômica para famílias que desejam passar adiante roupas, calçados e acessórios infantis pouco usados e, muitas vezes, praticamente novos. A loja compra diretamente dos clientes, avalia as peças com base em critérios como estado de conservação e marca, e revende a preços acessíveis.

Segundo o gerente Jasiel Oliveira, o foco está em atender o público de recém-nascidos até adolescentes de 16 anos, oferecendo itens de qualidade por valores até 50% mais baixos que os de produtos novos. “Às vezes, a roupa foi usada duas, três vezes. Vendê-la é uma forma de garantir conforto, economia e ainda gerar retorno financeiro”, disse.
Feiras levam brechós às ruas
Neste sábado (21), a Secretaria de Cultura (Secult) de Pelotas promove uma série de feiras culturais em dois dos principais espaços públicos de Pelotas: o Largo do Mercado e a Praça Coronel Pedro Osório. Entre as atividades estão o Mercado das Pulgas, das 9h às 17h, no Largo do Mercado, o Artesanato de Rua e o Doce Garimpo, das 9h às 17h, na Praça Coronel Pedro Osório.

Com essa dinâmica, os brechós de Pelotas não apenas movimentam a economia, mas também ajudam a transformar a relação da cidade com a moda. Entre os estandes das feiras ou nos perfis de redes sociais, roupas ganham novas histórias, e consumidores descobrem que é possível se vestir bem, aquecer-se no inverno e ainda causar menos impacto no planeta.



