Mais de 700 pessoas estão em abrigos municipais em Pelotas

Reportagem do JTR visitou um dos abrigos municipais montados no ginásio da antiga AABB, na rua Coronel Alberto Rosa, nº 580, no Centro, onde estão atualmente 38 famílias, totalizando 105 pessoas (Foto: Daniela Alves/JTR)

Por: Daniela Alves, Julia Barcelos e Samantha Bedhun

A elevação do nível da Lagoa dos Patos e do canal São Gonçalo motivou a evacuação de diversas famílias de casas nas áreas de risco. Os cidadãos que moram em locais com risco de enchente precisaram procurar hospedagem em residências de parentes ou amigos, mas aqueles que não tiveram essa opção puderam contar com abrigos de gestão municipal. Em Pelotas, até a tarde de quinta-feira (16), 705 pessoas estavam em sete abrigos públicos.

Situação dos abrigos:

Salão Paroquial João Paulo II – Colônia Z3 – 47 famílias, 150 pessoas;
Escola Estadual Edmar Fetter – rua Cinco, nº 100 – Laranjal – 38 famílias, 153 pessoas;
Ginásio da antiga AABB, agora da UFPel – 41 famílias, 104 pessoas;
Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia (ESEF), rua Luís de Camões, 625 – Três Vendas – 46 famílias, 119 pessoas;
Santa Teresinha Futebol Clube – 5 famílias, 21 pessoas;
Cenáculo – avenida Dom Joaquim, 1.618 – Três Vendas – 11 famílias, 40 pessoas;
IFSul Campus Visconde da Graça (CAVG), avenida Ildefonso Simões Lopes, nº 2.791 – 49 famílias, 118 pessoas.

Como ir para um abrigo

Segundo o secretário municipal da assistência social, Tiago Bündchen, a orientação é que as pessoas que estão em zonas consideradas de risco procurem primeiramente a Defesa Civil. Isso porque a Defesa Civil poderá auxiliar desde a saída de casa, e se for preciso no resgate, até na análise sobre qual seria o abrigo ideal para cada família. Encontrar o melhor local de acolhimento é importante para que a estadia seja o mais confortável possível. Por exemplo, existem abrigos que acolhem os animais junto com as famílias, outros são específicos para pessoas neuro divergentes, e assim por diante. O número de contato da Defesa Civil é pelo WhatsApp (53) 99176-379. Em caso de emergência, a população pode ligar para o 153 ou (53) 99113-8478 da Guarda Municipal, 190 da Brigada Militar ou 193 do Corpo de Bombeiros.

Funcionamento dos abrigos

Nos abrigos, as famílias ganham alimentação e todos os cuidados necessários durante as 24 horas. Estão trabalhando nesses lares provisórios funcionários da Secretaria Municipal de Saúde, como psicólogos, e da Secretaria Municipal de Educação para auxiliar durante a estadia. De acordo com Bündchen, os abrigos contam com voluntários das universidades de Pelotas proporcionando atividades para as crianças e aqueles adultos que não precisam sair para trabalhar. Estas ações contribuem para a qualidade da saúde mental das pessoas durante o período.

Desde o último domingo (12), a Prefeitura colocou em prática nos abrigos as atividades dos programas Vida Ativa, Quem Luta Não Briga (QLNB), Projeto de Atletismo Pelotas (PAP) e grupo da ginástica. As pessoas que estão em abrigos municipais podem participar de alongamento, ritmos, recreação, taekwondo, atletismo, ginástica e ginástica artística. Os projetos foram divididos entres os abrigos CAVG, Escola Superior de Educação Física e Fisioterapia (ESEF), antiga AAAB e Escola Estadual de Ensino Médio Doutor Edmar Fetter, no Laranjal.

Como ajudar

A Defesa Civil regional emitiu um alerta de temperaturas baixas para os próximos dias. Por conta disso, os abrigos estão precisando de roupas de frio, principalmente masculinas. As doações de roupas, calçados e cobertores podem ser feitas na sede da Secretaria Municipal de Assistência Social, na rua Marechal Deodoro, nº404, centro, das 8h às 17h. Para quem for doar comida, Bündchen explica que os abrigos possuem um cronograma para a alimentação e pede que entrem em contato com a coordenação de cada abrigo para que as marmitas possam ser incluídas nos horários de refeição.

Para ser um voluntário, o interessado pode ir direto no abrigo desejado ou procurar a Secretaria para receber instruções de como ajudar. Histórias como a do voluntário Carlos Eduardo Segatto mostram como a empatia é a maior ajuda nesse momento. Ele mora com a família na zona da Balsa, área que foi considerada de risco durante as enchentes, e precisou se abrigar na casa de parentes, além de dar uma pausa no trabalho de motorista de aplicativo para poupar gasolina para os veículos de resgate. Estar nessa situação foi um incentivo para Segatto se voluntariar no abrigo da AABB.

“Além de poder ver essa gratidão no gosto do pessoal, também estou me descobrindo porque realmente nunca tinha me imaginado, por exemplo, cuidando de uma pessoa. Tem um senhorzinho aqui que é um pouco mais debilitado. Ele não consegue andar direito, ele precisa de ajuda pra tomar banho, coisas simples. Ele exige um pouco mais de atenção e eu nunca imaginei que eu poderia ajudar uma pessoa [nessas condições].” relata o voluntário sobre o crescimento pessoal que ganhou com essa experiência.

Nos abrigos, as famílias ganham alimentação e todos os cuidados necessários durante as 24 horas. (Foto: Daniela Alves/JTR)

Quando mãos voluntárias buscam formar um lar

Entre doações, resgates e voluntários, comum é o sentimento de que ninguém passará pelo pior dos momentos sozinho. E onde a política socioambiental apresenta falhas, a sociedade como um todo mostra-se solidária em uma dor comum: a perda.

Simone Afonso Duarte, de 46 anos, é moradora da rua Mário Meneghetti, um dos pontos que tem como marca de localização a presença do canal São Gonçalo e que no mapa de risco de inundação, liberado pela Prefeitura de Pelotas, era manchado de vermelho, indicando o perigo ao qual estavam expostos os moradores daquela região.

Conforme relato da moradora, mãe de três filhos, dois adolescentes que vivem sob o mesmo teto e uma adulta que reside em moradia próxima, a casa é “colada” ao São Gonçalo, tendo, além de um banhado ao fundo, a passagem do canal acontecendo na frente e na lateral da casa.

“Sempre entra, mas água assim, na altura da cadeira que a gente está sentada. Só que dessa proporção nunca aconteceu, por isso que eu saí de casa”, disse Simone ao JTR diretamente de um dos abrigos disponibilizados pelo município. Ela concedeu entrevista enquanto estava sentada em uma cadeira escolar, cuja altura é de aproximadamente 0,80cm. Vale lembrar que até a conclusão desta matéria, o nível do canal São Gonçalo já havia superado o alcançado pela enchente de 1941, chegando a 3,02m.

Protegendo pessoas de momentos piores como aqueles acompanhados através dos jornais e da internet, os abrigos com sua disposição de colchões em lugares de espaço livre, preenchem estes ambientes com histórias, que cada qual, a sua maneira, ensinam a todos os envolvidos no ideal de proporcionar o mínimo possível de conforto às famílias que tiveram de deixar seus lares.

“Aqui, a gente é muito bem tratada. As moças são muito boas com a gente, tanto os voluntários como as assistentes sociais. A alimentação é muito boa, elas servem toda hora um lanche e as coisas certinhas que a gente tem que comer”, diz.

Onde o esforço em comum trabalha o cuidado em momentos que beiram o luto por todas as coisas que obrigatoriamente são deixadas para trás, permanece a preocupação pelo construído ao longo de anos. E mais ainda: o acolhimento se faz uma necessidade, que é recebido com gratidão por aqueles que precisam dele.

“É tudo muito bem limpo. A gente também ajuda a limpar quando não tem faxineira e organiza o lado que a gente está. Tem bastante cobertor e travesseiros. É tudo bem arrumadinho. Não é como a casa da gente, mas a gente tenta deixar mais próximo da casa da gente”, declara Simone.

Entre a angústia e as preocupações comuns àqueles que precisaram sair de suas moradias, como o temor relacionado a invasões devido a suscetibilidade da deixa, a moradora reconhece os esforços da administração municipal em diminuir ao máximo os danos que podem ser causados à população pelo que aconteceu.

“Tiveram (sic) pessoas que morreram, crianças e adultos. Não sei que proporção vai chegar isso, se vai realmente estourar, se vai entrar por baixo, se vai ser por cima. Se Deus quiser não vai entrar, porque vou ficar sem casa se entrar, mas a prefeita está de parabéns”, afirma Simone, que fala ainda sobre a chegada do marido ao abrigo, algo que aconteceu apenas durante o último fim de semana, pelo fato de o homem estar cuidando a casa da família, mesmo invadida pela água, com receio da invasão de pessoas mal intencionadas.
“Só que ele estava num estado já que não dava mais, e aí a polícia foi lá e tirou todo mundo”, relata, uma vez que, nas palavras da própria moradora: “Bem material a gente consegue de novo, a gente tem que estar vivo. Sair vivo, sair bem psicologicamente eu acho que é o mais importante porque o resto a gente consegue”, conclui.

Abrigos em Rio Grande

Em Rio Grande, de acordo com o boletim da Prefeitura de quinta-feira (16), o município conta com 615 pessoas distribuídas pelos sete abrigos em funcionamento, sendo que um deles é exclusivo para pessoas e famílias atípicas e outro apenas para mulheres e crianças. Além disso, há outros 12 abrigos que estão preparados, mas não estão abertos.

Para manter os abrigos funcionando, os organizadores necessitam de mantimentos para as alocações. Neste momento, há alguns itens de maior necessidade nos locais, entre eles: açúcar, farinha, sal, óleo, desodorante, shampoo, água mineral, alimentos não-perecíveis, roupas de banho, produtos de higiene, gás de cozinha e proteína animal.

As doações podem ser entregues no Partage Shopping (Sala do Bem) e no Praça Shopping (Espaço Solidário), das 10h às 22h; ou ainda na Secretaria do Cassino, das 7h às 19h. Os moradores podem se inscrever para receber as doações através do cadastro nos Centros de Referência de Assistência Social ou na Defesa Civil de Rio Grande.

Abrigos em São Lourenço do Sul

Em São Lourenço do Sul, o total de desabrigados é de 171 pessoas, as quais estão distribuídas por quatro abrigos municipais. Além disso, o município possui uma central para arrecadação de doações no Esporte Clube São Lourenço, na rua Senador Pinheiro Machado, 643, Centro. O contato pode ser feito também através do telefone (53) 99167-0183.
Entre os itens solicitados pelos organizadores dos abrigos de São Lourenço do Sul, estão frango, carne moída, carne de porco, margarina, schmier/doce, água mineral, fraldas, frutas, toalhas e roupas de cama. A Prefeitura ainda frisa: “Recebemos muitas doações de roupas, no momento, não é mais necessário. Obrigado a todos!”.

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