
Entre doces finos, compotas e memórias que não cabem em livros, vive a doçaria pelotense, uma arte silenciosa, feita com açúcar, tempo e mãos habilidosas. Muito antes de se tornar Capital Nacional do Doce, Pelotas já se destacava por receitas que atravessaram gerações e foram transformadas em patrimônio imaterial.
Hoje, a cidade é conhecida pelos doces finos, como quindim, fio de ovos, bem-casado e camafeu. Porém, essa tradição vai muito além das vitrines. Nas cozinhas das doceiras e doceiros da Princesa do Sul também ganhavam forma os doces de fruta, compotas, geleias e bolos. Esses sabores atualmente desafiam a lógica do mercado, mas seguem vivos nos saberes passados de geração em geração, muitas vezes de forma oral e prática.
Doces memórias entre páginas e palavras
Buscando por registros desta tradição, recorremos ao Museu do Doce de Pelotas, onde são expostos diversos artigos e registros desta doce história. A diretora do Museu, Dóris Leal, nos apresentou cadernos de receita datados desde 1924, com anotações que revelam não apenas os ingredientes, mas os vínculos afetivos e sociais da época.
Nóris conta que era comum que esses cadernos fossem montados para mulheres prestes a se casar e circulavam entre vizinhas, parentes e amigas, com títulos como “Biscoito da tia Zefa” ou “Bolo da tia Florência”. Ainda assim, parte dessa tradição não passou pelo papel, tendo sido preservada oralmente, principalmente entre mulheres da periferia e do meio rural que ensinavam suas filhas e netas pelo exemplo, tato e olfato.
Só em 1959 esse saber começou a ser organizado em formato comercial, com o livro “Doces de Pelotas”, publicado pela editora Globo sob coordenação de Amélia Vallandro e com prefácio por Athos Damasceno. A obra conta com 264 páginas que reúnem receitas de doze doceiras locais, sem detalhamento de tempo ou medidas. Esse era um livro feito por e para profissionais, ou seja, pessoas que sabiam reconhecer o ponto da calda e a textura certa.
A primeira edição do livro “Doces de Pelotas”, lançado em 1959, trazia na capa uma ilustração inspirada numa foto de um jantar à fantasia na casa de Regina Chaves. Já a reedição de 1970, mais minimalista, retirou o nome da cidade da capa – o que muitos consideram um apagamento simbólico da tradição local.

Uma história coletiva de preservação
Em 1981, o fechamento da histórica Confeitaria Nogueira acendeu um alerta de que a cidade poderia perder sua tradição doceira. Como resposta, foi criada a Cooperativa das Doceiras de Pelotas, a partir de cerca de 50 ex-alunas dos cursos da doceira dona Rosinha. Com apoio da Prefeitura, o grupo ocupou a estrutura da antiga Nogueira, aproveitando tachos, formas e fornos. Além de produzir, as cooperadas trocavam receitas, formavam novas doceiras e mantinham viva a tradição.
Em 1986, foram responsáveis por fornecer 8 mil doces para a primeira edição da Fenadoce — um número tímido se comparado aos milhões vendidos hoje, mas que marcou a profissionalização coletiva da doçaria pelotense. Além da produção, a Cooperativa teve – e ainda tem – um papel formador. Ao longo dos anos, ofereceu cursos de capacitação para novas doceiras, democratizando o saber e incentivando a autonomia financeira de mulheres. O grupo também viajava pelo país, participando de feiras e eventos, levando os doces de Pelotas para além da Região Sul do RS.
Anos depois, a cooperativa se fixaria na Rua do Doce, agora no Centro de Pelotas, onde segue ativa até hoje. Muitas das integrantes são mulheres idosas que permanecem produzindo, ainda que em escala menor. Entre os doces oferecidos está a pasta de pêssego, ícone da doçaria pelotense do século 19, hoje em risco de desaparecer. “Só temos um produtor que ainda faz esse doce, e está na cooperativa”, alerta Nóris.




