
Há décadas, rodovias brasileiras conectam pessoas, compromissos, vivências e grandes histórias. No sul do Rio Grande do Sul, não é diferente: ainda que os aplicativos de carona representem forte concorrência, empresas tradicionais apostam na credibilidade e confiança construídas ao longo dos anos, buscando manter viva a cultura das excursões do transporte rodoviário.
Cabe destacar que essa permanência não é exclusividade gaúcha. Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) constatam que o transporte rodoviário, seja ele interestadual ou internacional, movimenta, em média, mais de 100 milhões de passageiros por ano no Brasil. Mais do que isso, segundo o levantamento, são realizadas mais de 3,2 milhões de viagens anualmente.
A Zona Sul, por sua vez, é lar de empresas que nasceram da vocação gaúcha para o transporte, e que há anos acompanham as transformações desse mercado. Esse é o caso da Perlatur, cuja história teve início em 1982, em São Lourenço do Sul. O nome da empresa faz referência ao apelido do município, “Pérola da Lagoa”, e nasceu da demanda criada pela Expresso Pérola da Lagoa, empresa da família de Alfredo Zielke.
Filha do fundador Herman Zielke, a proprietária Roberta Zielke explica que o negócio iniciou com o turismo rodoviário e, dois anos depois, inaugurou uma unidade em Pelotas. Em 2026, a agência passou a atender em um novo endereço na cidade, ampliando sua estrutura para oferecer viagens rodoviárias, áreas e marítimas, além de roteiros personalizados e grupos organizados. “O perfil [dos clientes] mudou um pouco. Aumentou o leque de pessoas mais novas buscando viagens como experiências, entendendo o valor que tem a viagem, o aprendizado, o convívio (…) Hoje, viajar é um bem”, afirma a empreendedora.
Segundo Roberta, embora o público da chamada “melhor idade” (após os 60 anos) continue representando uma parcela importante dos clientes, cresce a procura por mulheres entre 30 e 60 anos interessadas em viagens voltadas à experiência e ao bem-estar. Entre os destinos mais procurados estão Buenos Aires, Nordeste brasileiro, Serra Gaúcha e roteiros pela Colônia de Pelotas.
Sobre a modernidade que acompanha o setor, Roberta acredita que o papel da empresa ganhou ainda mais relevância: “Hoje, acho que o principal desafio são as plataformas digitais. É muito fácil comprar nas redes, mas não tem segurança, não tem expertise. Procuramos fornecedores seguros, os melhores horários, a melhor forma para que a viagem seja perfeita”, destaca.
Equilíbrio entre qualidade e rigor é desafio
Com sede em Pelotas, a empresa de ônibus Expresso Embaixador é uma das protagonistas do transporte rodoviário da região. Sua história teve início na década de 1950, quando o empresário Manuel Marques da Fonseca Júnior iniciou suas atividades no transporte de cargas. Em 1960, foi fundada uma empresa de passageiros que, anos depois, adotaria o nome Expresso Embaixador.
A trajetória da empresa, assim como sua sobrevivência ao decorrer dos anos, foi marcada por uma filosofia tida como referência. O pensamento do seu fundador resume como o setor passou a compreender o transporte de passageiros: “todo aquele que se estabelecer no ramo de transporte, pensando unicamente em ficar rico, por mais riqueza que consiga acumular, será sempre um pobre transportador”.
Hoje administrada pela terceira geração da família Fonseca, a empresa mantém operações em diversas cidades gaúchas, como Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre, Chuí, Santa Vitória do Palmar, Canguçu, Piratini e Morro Redondo, atuando tanto nas linhas regulares quanto nos segmentos de fretamento, turismo e transporte especializado.
Assim como constatado por Roberta Zielke, o perfil dos passageiros também mudou. Conforme a empresa, grande parte da demanda atual está concentrada em trabalhadores que se deslocam diariamente entre Pelotas e Rio Grande, além de estudantes da UFPel, da FURG e do IFSul.
Simultaneamente, viagens exclusivamente voltadas ao lazer perderam espaço diante da concorrência dos aplicativos de carona. Ainda assim, algumas rotas permanecem entre as mais movimentadas da empresa, especialmente os trechos Pelotas-Porto Alegre, Porto Alegre-Pelotas, Pelotas-Rio Grande e Rio Grande-Pelotas. Segundo a empresa, segmentos de fretamento e turismo também têm registrado crescimento.
Para Vagner Mendonça, instrutor na Expresso Embaixador, um dos maiores desafios do setor está em equilibrar qualidade e competitividade. “Os principais desafios do setor de transporte rodoviário de passageiros estão relacionados ao aumento dos custos operacionais, à dificuldade na contratação e retenção de profissionais qualificados, à necessidade de constante atualização tecnológica e ao atendimento das exigências legais e regulatórias. Soma-se a isso a responsabilidade de manter elevados padrões de segurança, pontualidade, conforto e qualidade no atendimento”, explica.
Mesmo diante dessas transformações, um aspecto permanece comum entre empresas locais: mais do que transportar passageiros, elas aproximam pessoas de oportunidades, encontros e novas experiências. Na Zona Sul, onde as rodovias historicamente ajudam a conectar municípios e comunidades, o transporte rodoviário segue cumprindo um papel que vai além do deslocamento, representando um elo entre diferentes destinos e gerações.



