“O judô é uma filosofia de vida”, diz Celso Brod, professor de judô há 60 anos

Introduzido na cidade em 1959, o judô em Pelotas cresceu a partir da trajetória dos irmãos Brod e se transformou em referência esportiva e social. (Foto: Lylian Santos/JTR)

Pelotas não conhecia o judô quando, em 1959, um jovem de 22 anos decidiu trazer a arte marcial japonesa para o sul do Estado. Mais de seis décadas depois, o que começou como um treino entre dois irmãos se transformou em uma das trajetórias mais marcantes do esporte na região. Hoje, com 60 anos de atuação como professor, o sensei Celso Brod já lecionou para mais de 5 mil alunos na Zona Sul.

A trajetória iniciou ao lado do irmão mais velho, Paulo Brod, considerado o introdutor do judô na cidade. “Eu fui o primeiro aluno dele. Ele não tinha com quem treinar, então começou a aplicar as técnicas em mim”, relembra Celso. O início foi longe das academias estruturadas. As primeiras aulas aconteceram no então Instituto Agronômico do Sul, atual área da Embrapa, no Capão do Leão.

Paulo havia aprendido judô no Rio de Janeiro, durante sua passagem pelo Exército como paraquedista, e trouxe o conhecimento para Pelotas. Assim nascia o Judô Clube Pelotense, que mais tarde daria origem à tradicional Academia Paulo Brod. Ele atuou na escola da rede pública estadual como professor de educação física, seu trabalho permitiu que centenas de alunos das escolas pudessem praticar o judô em sua agremiação, popularizando a modalidade na cidade, com apoio da direçãoda Escola Estadual Nossa Senhora de Lourdes.

Foram também criadas turmas femininas na Escola Nossa Senhora de Lourdes em 1968, com participação de Celso, faixa verde na época. Em 1971, aos 33 anos, Paulo morreu vítima de um choque elétrico dentro da própria academia. “Foi um trauma, mas também um desafio. Eu precisava continuar o trabalho dele”, conta Celso.

Continuidade, superação e títulos históricos

Meses após a morte do irmão, a equipe conquistou, pela primeira vez, o título estadual. Era o início de uma sequência histórica. O grupo se tornaria decacampeão gaúcho dos Jogos Intermunicipais do Rio Grande do Sul (JIRGS), entre 1971 e 1980, que depois renderia um monumento em homenagem à conquista na Praça Coronel Pedro Osório.

Continuidade, superação e títulos históricos 

Mesmo enfrentando dificuldades, como longas viagens e a ausência de patrocínio, a equipe de Pelotas superava adversários de grandes clubes da capital. “Chegávamos cansados, depois de horas de estrada, para lutar contra equipes descansadas e, ainda assim, vencíamos”, lembra. Outro marco foi a conquista dos Jogos Abertos Sul-Brasileiros, um título inédito que projetou o judô pelotense no cenário regional. 

Ao longo da carreira, Celso Brod formou mais de cinco mil alunos nos municípios de Pelotas, Rio Grande, Jaguarão, Canguçu, Pedro Osório e São Lourenço do Sul. Entre eles, nomes que se destacaram em competições estaduais e nacionais, como Elbio Guimarães, Marco Antônio Brizolara, Osmarino Arnoni, Claudinei Soares Ferreira, Adão Barbosa dos Santos e Wanderlei Dull. “Às vezes me chamam na rua de professor e eu nem lembro, mas eles lembram de mim. Isso não tem preço”, afirma Brod. Apesar de ter competido, chegando a vice-campeão estadual, ele sempre teve um objetivo claro, a formação de atletas e cidadãos.

Judô como ferramenta social e referência 

A atuação de Brod ultrapassou as competições. A partir dos anos 2000, ele intensificou projetos sociais em bairros de Pelotas, atendendo gratuitamente crianças e adolescentes. Mais de mil alunos participaram dessas iniciativas em bairros como Fragata e Pestano. Atualmente, o sensei busca apoio para ampliar o projeto Amplo Movimento de Orientação e Reeducação (Amor), para usar o judô como ferramenta de transformação social. 

A academia também se tornou referência pelo impacto comunitário. Reconhecida como entidade de utilidade pública em 1982, foi responsável por difundir o judô e outras modalidades na cidade, como karatê, taekwondo, boxe, luta olímpica e até o sumô. A iniciativa transformou o espaço em um polo de artes marciais, ampliando o acesso ao esporte e criando um ambiente de formação para diferentes perfis de atletas. 

Além disso, a trajetória da família está ligada à própria formação acadêmica do esporte em Pelotas. Paulo foi um dos fundadores da Escola Superior de Educação Física (Esef), tendo seu nome eternizado in memoriam em espaços da instituição. Nos 50 anos de fundação da Esef, Celso também teve seu trabalho reconhecido. 

(Foto: Lylian Santos/JTR)

Reconhecimento e legado 

O trabalho construído ao longo de décadas ganhou reconhecimento institucional. Em 2023, a Câmara de Vereadores de Pelotas aprovou por unanimidade a lei que institui o Dia do Judô em Pelotas, celebrado em 28 de outubro, mesma data do Dia Mundial da modalidade. 

Faixa preta há 50 anos, Celso segue ativo e envolvido com o judô, colaborando com a 2ª Delegacia Regional da Federação Gaúcha de Judô e participando de eventos. A história do judô em Pelotas se confunde com a trajetória do sensei. Para ele, mais do que títulos, o maior legado está nas pessoas que formou ao longo de seis décadas, guiadas por valores como respeito mútuo, amizade, honestidade e solidariedade. O judô pelotense segue firme, sustentado por uma história construída com disciplina e persistência que um dia Paulo e Celso construíram.