Entre os dias 10 de abril e 8 de maio, a Galeria Cultural do IFSul recebe a exposição “Abençoada Benedicta: o centenário de Benette Casaretto Motta”, no prédio da reitoria do instituto. Com curadoria de Antônio André, diretor da Pinacoteca de Pelotas, a mostra reúne obras da artista com o objetivo de colocá-la em evidência no cenário cultural da cidade. A abertura da mostra foi marcada por um coquetel na noite de quinta-feira (9).
A proposta da exposição surgiu ainda em 2025, ano do centenário de nascimento da artista, que acabou não sendo celebrado à época. “Acabou passando em branco. Desde então, comecei a montar esse projeto”, explica o curador. Segundo André, a Pinacoteca já possuía um acervo inicial de obras. “Com o apoio de colecionadores e do próprio IFSul, conseguimos montar esse projeto, que é o primeiro do ano. Já tenho outras duas exposições prontas para maio, que devem acontecer na prefeitura”, afirma.

Para a vice-reitora do IFSul, Lia Pachalski, a Galeria Cultural cumpre um papel importante ao dar visibilidade a grupos historicamente invisibilizados. “Durante o mês de março, realizamos muitas ações voltadas às mulheres. No entanto, é fundamental que essas iniciativas se estendam ao longo de todo o ano, para promovermos uma sociedade mais equânime”, destaca.
A mostra permanece aberta ao público até o dia 8 de maio, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, na Galeria Cultural do IFSul, localizada na Rua Gonçalves Chaves, nº 3218.
Arte clássica e tradicional
A exposição reúne dezenas de obras de Benette, incluindo retratos e suas conhecidas naturezas-mortas. A artista carregava em sua produção a dualidade entre a técnica refinada e a simplicidade do campo. “Eu a definiria como uma artista clássica. Sua formação foi baseada em um ensino bastante tradicional, com influências de mestres como Angelo Guido e Aldo Locatelli, dentro de uma linha mais academicista”, explica André.
Benedicta Casaretto Motta nasceu em 3 de junho de 1925, na localidade da Cascata, 5º distrito de Pelotas. Segunda filha de Elizabeth Bianchi e Paulino Valle Casaretto, encontrou em sua terra natal sua principal fonte de inspiração. “Sou uma mulher do campo. O meu lugar é lá fora, na Cascata. Lá eu me sinto livre”, declarava a artista.
Em 1949, passou a integrar a primeira turma da Escola de Belas Artes de Pelotas, hoje vinculada à Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Sob orientação de mestres como Aldo Locatelli, Angelo Guido e Leopoldo Gotuzzo, desenvolveu um estilo marcado pelo rigor técnico e pela sensibilidade romântica. Posteriormente, também se especializou na Escuela Zier, em Buenos Aires.
Sua primeira exposição individual ocorreu em 1956, no Clube Caixeiral. À época, seu nome já ganhava projeção em Pelotas e região. Benette tornou-se reconhecida especialmente por suas pinturas de flores – rosas, cravos e margaridas –, um dos temas mais recorrentes em seu estilo. “Algumas obras, inclusive, apresentam uma qualidade quase fotográfica”, ressalta o curador.
Ainda assim, sua produção não se limitou à flora, abrangendo também retratos, figuras femininas nuas e paisagens. “Além da técnica refinada, há um olhar bastante romântico na forma como ela compreende a arte – algo que permanece ao longo de toda a sua trajetória”, afirma André.

Trajetória e reconhecimento
Ao longo da carreira, Benette acumulou reconhecimentos importantes. Em 1982, foi laureada com a Figueira de Bronze (Mérito Zona Sul), concedida pela Rádio UCPel. No ano seguinte, integrou a exposição “Mulheres nas Artes Plásticas”, em Porto Alegre. Em 1999, presenteou a comunidade da Cascata com dois painéis monumentais na Igreja Nosso Senhor do Bom Fim.
Em 2005, celebrou 40 anos de carreira com uma exposição na Galeria Nelson Abott de Freitas e, em 2012, foi homenageada no Salão Nobre da Biblioteca Pública de Pelotas. “Se observarmos com atenção, é possível identificar características recorrentes em suas obras. É uma artista com uma identidade muito consistente dentro desse estilo clássico”, conclui André.
Benette Casaretto Motta faleceu em Porto Alegre, em 2018, aos 93 anos. Hoje, sua antiga residência, na Cascata, é estudada como um possível “jardim de artista” – um espaço de memória que reflete sua investigação estética e sua relação com o território.




