Clubes do livro feitos por mulheres transformam a leitura em espaço de acolhimento

Mulheres são 62% daqueles que compraram mais de dez livros nos últimos 12 meses no Brasil. (Foto: Divulgação)

Pelotas é conhecida nacionalmente pelos doces e pela tradição cultural, mas também vive um capítulo ligado à literatura. Em cafés, livrarias, bibliotecas e espaços culturais da cidade, clubes de leitura voltaram a ganhar força e têm transformado o hábito solitário de ler em encontros coletivos marcados por debates, acolhimento e troca de experiências. Nesse movimento, as mulheres aparecem como protagonistas, elas são maioria entre leitoras, consumidoras de livros e participantes desses grupos.

Mesmo em meio à rotina acelerada e ao consumo rápido das redes sociais, mulheres são 62% daqueles que compraram mais de dez livros nos últimos 12 meses, de acordo com o Panorama do Consumo de Livro divulgado em 2025, da Nielsen BookData. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, do Instituto Pró-Livro, 49% das mulheres se consideram leitoras, contra 44% dos homens.

Em Pelotas, esse crescimento aparece na multiplicação de clubes criados principalmente por mulheres e voltados para diferentes públicos. De universitárias em busca de lazer fora da rotina acadêmica a leitoras que encontram nesses espaços uma forma de pertencimento. Os encontros têm funcionado como ambientes de escuta, socialização e conexão.

Leitura como espaço de escuta

Para Echylen Fernandes, integrante do clube Fofocas Literárias (@clubefofocasliterarias) e estudante de jornalismo, o interesse pelos encontros nasceu ainda na infância. Ela conta que sempre gostou de ler, mas sentia 2026falta de pessoas com quem pudesse compartilhar as impressões sobre as obras. O clube frequentado pela universitária é formado apenas por mulheres, característica que, segundo ela, fortalece o sentimento de acolhimento. “Acho que é uma forma de ser ouvida. Existe uma grande proporção de mulheres que querem dialogar com quem tem uma escuta e troca”, afirma.

Os encontros têm funcionado como ambientes de escuta e socialização. (Foto: Divulgação)

Ela destaca que os encontros se tornaram mais do que discussões literárias. “O clube é um lar onde acolhe mulheres que sentem vontade de expressar suas ideias. É um momento onde todas podem falar, ouvir e pontuar sobre o livro, com respeito uma pela outra, zelando cada opinião e contribuindo com outros olhares. Há momentos de descontração, e você fala sobre você, sobre seus gostos, e sentimentos”, diz. Entre o gênero mais recorrente no grupo está o suspense.

Além da convivência, Echylen percebe mudanças na própria rotina desde que passou a frequentar o grupo. Segundo ela, o hábito da leitura se intensificou e passou a ocupar mais espaço no cotidiano. “Chego ler um a dois livros no mês, entrar no clube fez eu ter mais paixão pela leitura, e também aprender novas palavras. Depois de entrar, comecei a ver pessoas que também participam de outros clubes nas redes sociais. Eu gosto muito de mostrar o livro que estou lendo e conhecer novos títulos através de vídeos, então coloco muitos na lista através de divulgações”, conta.

O boom dos clubes de leitura

Os clubes também surgem como alternativa para aliviar a pressão acadêmica e criar conexões fora das salas de aula. Foi assim que recentemente nasceu o clube independente criado por estudantes de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o EntreLinhas UFPel (@entre.linhas_clubedeleitura). O clube será aberto para estudantes de qualquer universidade, trazendo livros de vários gêneros como romance, fantasia, suspense, livro hypado, livro comfort e mais, para poder englobar todos os amantes de livros, menos acadêmicos.

A estudante Manoella Collares explica que a ideia surgiu da vontade de transformar a leitura em um momento leve e prazeroso. “Nós temos que ler muito diariamente na faculdade. Criar um espaço em que a gente pudesse compartilhar leituras não acadêmicas e instigar esse hábito em outras pessoas é o foco. A nossa ideia é que isso se torne um legado para a própria universidade e algo marcante para as pessoas que participarem”, afirma.

Segundo ela, os clubes de leitura ganharam força porque oferecem algo cada vez mais raro: conexão humana. “É empolgante poder compartilhar partes dos livros que nos chamaram a atenção. A leitura também muitas vezes traz temas delicados, e fazer com que os participantes tenham esse acolhimento e troca é importante também para que elas se sintam vistas”, diz.

“Um abraço literário”

Criado em 2022 como projeto de extensão do Centro de Letras e Comunicação da UFPel, o Ler Mulheres (@clubedeleituraclcufpel) se consolidou como um dos principais clubes de leitura da cidade. Coordenado pela professora Vanessa Damasceno, o projeto promove encontros gratuitos dedicados exclusivamente a obras escritas por mulheres. Segundo Vanessa, a iniciativa nasceu de um desejo pessoal enquanto leitora e professora. O objetivo era democratizar o acesso à literatura feminina dentro da universidade pública.

Ela explica que a escolha por trabalhar apenas com autoras também tem motivação histórica. “Primeiro porque a gente vive em um mundo com uma cultura feita e pensada pelos homens, valorizar e proliferar esses espaços é também combater a invisibilidade, o apagamento da produção feita pelas mulheres. O crescimento expressivo de clube de leituras do público feminino como frequentador desses espaços está atrelado porque temos mais escritoras nos espaços editoriais e nos debates literário”, destaca.

Nos encontros do Ler Mulheres, a literatura frequentemente ultrapassa as páginas dos livros e se mistura às experiências pessoais dos participantes. Temas como maternidade, violência, trabalho e relações familiares aparecem constantemente nas discussões. “A leitura compartilhada em grupo é um abraço literário”, define Vanessa. “Através do olhar das outras pessoas, a gente percebe coisas que talvez não tivesse percebido sozinho”, diz.

Embora não tenha objetivo terapêutico, Vanessa acredita que os clubes acabam se tornando espaços de acolhimento e escuta. “As pessoas às vezes nem conseguiram ler a obra, mas vão ao encontro porque querem estar com outras pessoas. Os clubes de leitura são espaços vivos de abraços e acolhimento”, afirma. Para ela, nenhuma tecnologia substitui a experiência coletiva da literatura. O clube é aberto a todas idades e gêneros, os encontros mensais são realizados no Otroporto e não é necessário inscrição ou obrigação de ter lido o livro, é possível só participar como ouvinte.