Caminhão, uma paixão que passa de pai para filho

Pai e filho exercem a profissão de caminhoneiro. (Foto: Arquivo pessoal)

Em mais de 16 meses de pandemia, além dos profissionais de saúde, outras categorias estão na linha de frente e foram para a rua trabalhar a fim de evitar que a população ficasse desabastecida de alimentos e outros bens de consumo, entre elas, os motoristas de caminhão. Os caminhoneiros não pararam um instante sequer, arriscaram suas vidas se expondo ao vírus, para garantir o alimento na mesa dos consumidores. Além disso, é uma profissão que exige sacrifícios. São muitos dias na estrada, longe da família, correndo riscos e muitas vezes passando por privações. Ao mesmo tempo, é uma profissão que exige paixão, a liberdade de sair por aí dirigindo e ganhar o mundo. Uma paixão que muitas vezes passa de pai para filho.

É o caso do motorista Rômulo de Ávila Machado, de 39 anos, que há 17 ganha a vida como caminhoneiro, profissão que não apenas herdou do pai, Cleo Gonçalves Machado, de 69 anos, há 40 como motorista, como a exercem lado a lado, no município de Jaguarão, na fronteira Sul com o Uruguai. Rômulo, que trabalhou desde os 22 anos como empregado, há seis anos conseguiu comprar seus próprios caminhões, um no qual ele trabalha e outro em que o pai também exerce a função.

As viagens na maioria são internacionais, do Brasil para o Uruguai, o pai fica com o lado brasileiro enquanto o filho se aventura Uruguai a dentro. “Toda vez que se atravessa a fronteira é obrigatório o exame de PCR para Covid e eu resolvi evitar que meu pai precisasse se submeter a isso”, diz.

No Uruguai, todo o cuidado no trânsito é pouco devido à severidade das leis de trânsito, onde acidente com morte é considerado homicídio culposo. Ele conta que em uma viagem, enquanto descarregava o caminhão, uma moça bateu contra a roda do seu veículo. No momento em que ela recebia atendimento médico, ele passou por mais de quatro horas de explicações e averiguações até ser liberado.

Natural de Jaguarão, o motorista conta que encontrou resistência da família, principalmente da mãe, que o aconselhou a buscar outro modo de sustento. Após tentar alguns concursos, mesmo aprovado, viu que não tinha jeito, o que gostava mesmo de fazer era dirigir caminhão. Uma das desvantagens é ter que ficar longe da família, às vezes por uma semana, mas em alguns casos por meses. Segundo ele, o máximo de tempo que ficou longe de casa foi um mês e a viagem mais longa que fez foi para Minas Gerais.

Casado e pai de uma menina de 11 anos, ele se ressente por ter perdido algumas datas importantes tais como aniversários e apresentações escolares da filha. “Antes, quando era menor, ela reclamava, mas agora já entende que é o trabalho do pai”, diz. A esposa disse que sente falta, mas teve que se acostumar, pois já o conheceu caminhoneiro.

Entre os principais perrengues que passou, ele lembra de um assalto que quase sofreu, em Guarulhos, na grande São Paulo, em que foi socorrido pelo guarda da empresa para onde estava levando a carga, que acionou a polícia. “Eu estava transportando vinho, uma carga muito visada pelos ladrões porque pode ser vendida em qualquer buteco”, conta. Alertado pelo chapa (pessoa que serve de guia aos motoristas em grandes cidades), ele conseguiu se afastar do caminhão antes da abordagem e ligou para a empresa.

Como todo motorista que se preze, seu santo de devoção é São Cristóvão, o padroeiro dos motoristas, e participa junto com colegas ativamente das comemorações anualmente, em 25 de julho. No ano passado, por conta da pandemia não houve festa, que foi compensada pela arrecadação de alimentos e distribuição às famílias mais carentes da cidade, afirmou.

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