
As adversidades climáticas geradas pelo fenômeno “El Niño” trouxeram consequências negativas aos produtores rurais, que na Região Sul sofreram perdas significativas principalmente no setor primário. Cerrito possui a economia voltada ao setor agropecuário, tendo como maior expressão a produção leiteira, com criação de gado da raça Jersey e reconhecimento por sua categoria genética, produzindo em torno de 9 milhões de litros de leite ao ano. Nos últimos 12 meses, o município foi fortemente afetado pelas intempéries, que prejudicaram diretamente os produtores.

Em setembro de 2023, a cidade enfrentou situação de emergência em razão dos altos volumes de chuva. Já em março deste ano, também o excesso de chuvas fez com que o município decretasse novamente situação de emergência. E nos meses de junho e julho, o frio rigoroso está prejudicando a safra de gramíneas com o aumento significativo do preço das sementes de aveia, visto que a condição climática também já impactou cerca de 50% dos criadores de gado leiteiro no Estado, incluindo os produtores do município.
O Centro de Inteligência do Leite da Embrapa divulgou no boletim de preços para o mês de junho que o mercado nacional de lácteos está passando por uma “mudança de cenário” após a elevação dos preços nos últimos dois meses. Em julho, o valor de referência do preço pago ao produtor pelo leite captado em junho calculado pelos Conselhos Paritários de Produtores e Indústrias de Leite (Conseleite) apontou alta em todos os Estados. No Rio Grande do Sul, o aumento foi de 3,3%.
Segundo o Sindicato da Indústria de Laticínios (Sindilat), a captação de leite no RS já caiu 30% por causa das chuvas. Em Cerrito, o cenário se agrava ainda mais, isso porque, conforme os produtores, a falta de valorização e políticas públicas acabam por prejudicar ainda mais a classe. “Hoje, a produção de leite está cada vez pior por falta de alimentação e os insumos cada vez mais caros, sem pastagem devido ao excesso de chuva e, agora, muito frio. O produtor de leite segue na atividade de teimoso porque é o único produto agrícola que nunca sabe o preço antes de produzir, só 30 dias depois” pontua Oscar Luiz Weber da Silveira, produtor da localidade do Alto Alegre, no interior do município.
Em Passo do Santana, considerado um celeiro da produção de leite no município e também onde acontece a tradicional Festa do Leite Jersey, as condições de produção se encontram precárias de acordo com os relatos de alguns produtores. Para Carmem Roll, produtora de 450 litros de leite por dia junto ao marido, Aldo, e o filho, Ricardo, o ano tem sido desafiador por conta do clima. “O tempo interferiu e muito. Tivemos menos silagem e, depois, veio as chuvas e não se conseguiu fazer as pastagens”. A produtora complementa: “Vai demorar pra voltar ao normal. Tá faltando comida para os animais”. A família atualmente entrega leite para a empresa Languiru pelo valor de R$ 2,60 o litro.
Na localidade de Alto Alegre, Mateus Torres faz parte da segunda geração de produtores de leite da família. Aos 38 anos, ele relata que nasceu e se criou na atividade, na qual seus pais iniciaram no ano de 1970.

Torres ressalta que os últimos 12 meses foram péssimos para a alimentação dos animais, principalmente pelos efeitos do El Niño, que atrasaram os plantios. Posteriormente, o vendaval de março colocou mais da metade das lavoras no chão, dados que vão de acordo com o que foi divulgado em laudo técnico emitido pela Emater/ RS-Ascar, em maio deste ano, com a estimativa de perdas na produção rural e setor agropecuário de Cerrito. A cultura do milho, que é a base para produção leiteira, atingiu uma perda de aproximadamente 70% para as silagens e de 60% no milho em grão em seu produto final.
Torres destaca ainda que a falta de alimento para os animais vai afetar ainda mais a produção leiteira. “Vamos pagar esse preço, vai ser caro, porque vai faltar alimento, consequentemente vai atingir a produção. O reflexo vai chegar, infelizmente, porque ainda tem um resquício, ainda sobrou alguma coisa de algumas lavouras que foram feitas”, ressalta o produtor.
A valorização do mercado também é um problema antigo. Ele salienta que a situação se agrava ainda mais devido ao governo federal estar importando leite, aumentado a desvalorização do produto local. Tradicionalmente o Brasil importa de 1 a 3% de leite, entretanto, esse volume chegou a 12% atualmente. As importações de lácteos atingiram US$ 520 milhões em 2023, valor recorde para o período desde o início da série histórica em 2012. Apesar do preço pago ao produtor do leite ter sido de 5,1% a mais em maio, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP), o valor ainda não atinge um patamar justo para o produtor primário.
Em síntese, as chuvas e inundações dos últimos meses afetaram gravemente o setor leiteiro. Dados da Associação dos Criadores de Gado Holandês (Gadolando) estimam que a calamidade tenha impactado 50% dos produtores de leite do Estado. Segundo o Sindicato da Indústria de Laticínios (Sindilat), a captação de leite no RS já caiu 30% por causa das chuvas em todo RS. O setor leiteiro em Cerrito estima um cenário de atenção após o período de prejuízos com desafios logísticos de coleta de leite nas propriedades, outro agravante foi a falta de energia elétrica no município onde em algumas localidades do interior totalizou 20 dias sem abastecimento de luz que foram danosos ao segmento leiteiro porque sem energia os produtores dependem de geradores para resfriar o leite, e quando não se tem esse equipamento e o combustível ou quando o combustível dos geradores chega ao fim não há outra solução senão colocar o leite fora. Também há outras perdas irreversíveis no município que é de quem perdeu galpões, ordenhadeiras, ou até tanques danificados. Um quadro que já agrava a difícil situação da atividade na região, que depois destes episódios deve perder mais produtores de leite que deixam o alerta diante das mudanças no mercado de lácteos no município.



