Os municípios de Cerrito e Pedro Osório se destacam com uma estratégia tecnológica para a gestão de desastres climáticos. Em um esforço conjunto, a região fortalece a capacidade de resposta a eventos extremos. Os levantamentos de campo começaram na última semana em ambos os municípios, marcando um novo capítulo na busca por resiliência climática após as enchentes de maio do ano passado.
Desde setembro de 2023, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) já vinha trabalhando em um sistema de previsão de inundações. Inicialmente focado no rio Piratini, o escopo foi gradualmente expandido para outros mananciais da região. Esse trabalho, mesmo com sistemas simplificados, mostrou-se crucial durante a crise climática de 2024, quando a atuação voluntária da equipe junto à Sala de Situação de Pelotas e à 4ª Coordenadoria Regional de Proteção e Defesa Civil forneceu previsões hidrológicas de alta precisão.
Essas informações auxiliaram na orientação para evacuações e proteção de infraestruturas, evidenciando a urgência de sistemas de previsão confiáveis para salvar vidas e mitigar prejuízos.
Em paralelo, foi aprovado o projeto de pesquisa “Sistema Integrado de Previsão Hidrológica em Tempo Real e Alerta Antecipado como Ferramenta na Busca de Resiliência Climática: uma abordagem tecnológica e social para a região sul do Rio Grande do Sul”. Coordenado pelo professor Samuel Beskow e contemplado no edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS) — Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Voltado a Desastres Climáticos —, a proposta recebeu um financiamento de cerca de R$ 1,5 milhão. Essa iniciativa reúne uma equipe multidisciplinar, composta por especialistas em meteorologia, hidrologia, oceanografia, geotecnologias e modelagem matemática, com a colaboração de instituições de renome como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal do Rio Grande (Furg), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e a Sala de Situação do Estado.
O objetivo do projeto é desenvolver um sistema moderno, permanente e automatizado para prever o comportamento dos rios Piratini, Jaguarão e Camaquã. Essa ferramenta será uma aliada fundamental para gabinetes de crise de prefeituras e órgãos de gestão de emergências nas regiões com histórico de inundações. Os recursos foram planejados para a aquisição de equipamentos de ponta, essenciais para a implantação do sistema. Desde o final de março deste ano, quando a verba foi disponibilizada, a equipe efetivou a compra de um conjunto de GNSS RTK de alta precisão, um drone embarcado com sensor lidar para mapeamento detalhado das planícies de inundação nas áreas urbanas dos municípios contemplados e um medidor acústico de vazão e ecobatímetro para levantamento contínuo do fundo dos rios nos trechos que cortam os perímetros urbanos.
A combinação estratégica dessa tecnologia de ponta — incluindo levantamento batimétrico de rios, levantamento topográfico de áreas de inundação, previsão meteorológica, modelagem hidrológica e hidrodinâmica — permitirá a simulação de inundações com alta precisão. Além disso, a integração de dados de diversas redes de monitoramento em tempo real garantirá que o grupo possa constituir um sistema de antecipação de riscos com maior precisão, apoiando decisões cruciais de gestão de crises e protegendo as populações ribeirinhas.
“Com a chegada desses equipamentos, nos próximos meses, nós vamos conseguir ter um levantamento detalhado a partir do drone embarcado com o lidar, das planícies de inundação dos rios, que foram contemplados no projeto, nas cidades mencionadas”, diz a professora Tamara Beskow, umas das coordenadoras do projeto.
Segundo Samuel, a expectativa para os próximos meses é iniciar o monitoramento contínuo do leito dos rios às margens das áreas urbanas desses municípios.
O projeto irá expandir o monitoramento para Cristal na próxima semana, além de promover conversas com gestores e especialistas em Jaguarão em breve.




