Rede de saúde mental da Zona Sul é referência em atendimento público e gratuito

Evento gratuito reunirá especialistas e autoridades para debater saúde mental, prevenção ao suicídio e fortalecimento das redes de apoio. (Foto: Divulgação)

A Zona Sul do estado tem se destacado por uma rede abrangente de serviços públicos e gratuitos de saúde mental. A região conta com serviços municipais, universitários e programas especializados, oferecendo cuidado integral e acessível para quem precisa de apoio psicológico e psiquiátrico.

Pelotas, principal cidade da região, consolida-se como referência em saúde mental com uma estrutura robusta. O município conta com seis Centros de Atenção Psicossocial (CAPS II), um CAPS Álcool e Drogas (AD) 24 horas, um CAPS Infanto Juvenil, além do Ambulatório de Saúde Mental de Adulto e projetos de geração de trabalho e renda. O grande diferencial é o sistema de porta aberta, com funcionamento das 8h às 18h. Neste período, qualquer pessoa pode procurar o serviço espontaneamente. “A pessoa pode chegar e dizer ‘eu não estou bem, eu preciso ser atendida’. Ela vai ser acolhida imediatamente e já é feito um plano terapêutico inicial”, explica a secretária de Saúde, Ângela Moreira Vitória.

Os números são consideráveis: os seis CAPS II atendem entre 400 e 450 pessoas cada um mensalmente. Somados ao CAPS AD e CAPS Infanto Juvenil, que atendem cerca de 700 pessoas cada um, o sistema municipal alcança aproximadamente 4,5 mil pessoas por mês. Uma característica ressaltada pela secretária é a ausência de filas de espera – o acolhimento é imediato e os usuários já começam a participar de atendimentos em grupo, oficinas e consultas médicas conforme suas necessidades.

CAPS Porto é um dos pontos de atendimento em Pelotas. (Foto: Volmer Perez)

A parceria com a Universidade Católica de Pelotas (UCPel) amplia significativamente a oferta de serviços gratuitos. Por meio do curso de Psicologia, a universidade oferece acolhimento psicológico em quatro Unidades Básicas de Saúde: Py Crespo, Fátima, Sanga Funda e CAIC Pestano, além da clínica psicológica da universidade, todos vinculados ao SUS. “A procura é muito alta e vem crescendo desde a pandemia”, destaca Ana Laura Alves, psicóloga da UCPel, explicando que os principais casos incluem ansiedade, depressão, transtornos de humor, conflitos familiares e uma crescente demanda infantojuvenil com dificuldades escolares e diagnósticos relacionados a TEA e TDAH.

Já o Senac RS desenvolve uma iniciativa pioneira por meio do Programa LeveMente, voltado para jovens aprendizes. Com equipe multiprofissional, atende aproximadamente 700 jovens em Pelotas, além de 350 em Rio Grande, 250 em Bagé e 250 em Camaquã. “Cuidar da saúde mental é tudo, porque quando estamos bem por dentro, tudo flui melhor: o estudo, o trabalho, as relações e até a forma como sonhamos com o futuro”, explica a psicóloga Jennifer Mendes Soares. O programa desenvolve ações através de rodas de conversa, oficinas, palestras e atendimentos individuais, sempre em ambiente acolhedor.

Serviços em Rio Grande, Canguçu e Jaguarão
Na Noiva do Mar, a saúde mental do município é composta pelo Núcleo de Saúde Mental e três CAPS: CAPS AD (Álcool e Drogas), CAPS Conviver e CAPS Infantojuvenil. Os serviços atendem por demanda espontânea ou encaminhamento da Unidade de Saúde de referência. O município também conta com Ambulatório de Saúde Mental, residencial terapêutico, Equipe de Redução de Danos e o Centro de Estimulação Precoce, onde o acesso é via regulação estadual.

Em Canguçu, a história da saúde mental remonta a 1995, consolidando-se como exemplo de pioneirismo regional. O município possui o CAPS I Casa de Saúde Mental, que começou como “Casinha do Prado” em 1996, e o CAPS AD Despertar, implantado em 2009 como referência microrregional para Canguçu, Morro Redondo, Piratini e Santana da Boa Vista. Uma inovação importante foi a criação, em 2015, do Serviço de Atenção à Saúde Mental (SASME) para crianças e adolescentes, estruturado com recursos municipais próprios quando ficaram sem referência externa. O CAPS I acompanha cerca de 300 pessoas mensalmente, o CAPS AD atende 150, e o SASME alcança 350 crianças e adolescentes com suas famílias.

Jaguarão representa um marco histórico ao celebrar 30 anos de funcionamento do seu CAPS em 2024, demonstrando três décadas de dedicação ao cuidado na fronteira. O serviço oferece alimentação, medicação e transporte aos usuários, contando com 10 leitos psiquiátricos na Santa Casa. A equipe multiprofissional inclui coordenador, dois psiquiatras, enfermeiro, assistente social, psicólogo, arte terapeuta, educador físico e demais profissionais de apoio. Durante a semana, são oferecidas atividades diversificadas como grupos, atendimentos individuais, academia, passeios, oficinas de pintura, trabalhos em argila e o coral “Asas da Liberdade”. Apenas em agosto, último mês de registro, o serviço realizou 582 atendimentos.

Mental Tchê é destaque em São Lourenço do Sul
Já São Lourenço do Sul é referência regional no cuidado a pessoas em sofrimento psíquico, com uma rede ampla de assistência à saúde mental. O município possui três CAPS: o CAPS I, que oferece tratamento a pessoas com transtornos mentais; o CAPS infantil; e o CAPS AD III, destinado a usuários de álcool e drogas com atendimento 24 horas. Tanto o CAPS AD quanto o CAPS infantil são referência para municípios da região de saúde. A rede também conta com equipe multiprofissional de atenção especializada em saúde mental, oficinas terapêuticas na Atenção Básica, equipe de redução de danos e o Centro Regional de Referência em Transtorno do Espectro Autista – Teacolhe. Há ainda a Unidade de Acolhimento Adulto para gestantes usuárias de substâncias psicoativas, Mãe-me-quer, além de residência médica em Psiquiatria e residência multiprofissional em Saúde Mental Coletiva.

Em São Lourenço do Sul, o Mental Tchê se consolidou como um espaço em defesa
de uma saúde mental mais humana e coletiva. (Foto: divulgação)

O município possui 38 leitos psiquiátricos no hospital geral, onde o Pronto-Atendimento atua na assistência em situações de urgências psiquiátricas. “São Lourenço do Sul é pioneira na rede de saúde mental do Rio Grande do Sul, com o primeiro CAPS do estado, o CAPS Nossa Casa, implantado há mais de 30 anos”, destaca Josiane Amaral, da Secretaria de Saúde. A cidade também é sede do Mental Tchê, evento que em 2025 completou 20 anos de existência e 18 edições, consolidando-se como espaço de afeto, trocas, reflexões e lutas em defesa de uma saúde mental mais humana e coletiva.

A força da rede regional reside na articulação entre diferentes atores e instituições. As universidades são grandes parceiras, oferecendo campo de estágio e projetos integrados. “As universidades têm que caminhar junto com os serviços, fortalecendo umas às outras”, explica a secretária de saúde de Pelotas. Os CAPS servem como campo de estágio para universidades e cursos técnicos, criando aproximação importante entre formação acadêmica e realidade dos serviços.

Como acessar os serviços
O acesso aos serviços varia conforme o município e tipo de atendimento. Em Pelotas, os CAPS funcionam com porta aberta das 8h às 18h, enquanto o Ambulatório de Saúde Mental requer encaminhamento da UBS para casos leves e moderados. Na UCPel, moradores dos territórios das UBS parceiras são atendidos diretamente nessas unidades, enquanto outros devem procurar o Campus da Saúde. O Programa LeveMente pode ser acessado via WhatsApp das unidades do Senac.

Para além das campanhas
Em Canguçu, há três pontos de atenção específicos conforme a demanda, e Jaguarão oferece atendimento diário com matriciamento semanal nas UBS.

A coordenadora do CAPS de Jaguarão, Angélica Caetano, considera esses serviços “um marco concreto da Reforma Psiquiátrica brasileira, ao deslocar o cuidado em saúde mental do modelo hospitalocêntrico e excludente para um paradigma territorial, comunitário e centrado na cidadania”.

Para os profissionais da área, a conscientização sobre saúde mental representa um momento crucial que impacta diretamente a procura pelos serviços. “A questão da divulgação, de abrir uma conversa cada vez maior sobre suicídio é muito importante nas ações de prevenção”, destaca Ângela. No entanto, ela ressalta que “a prevenção do suicídio é uma tarefa para o ano inteiro”.

A psicóloga do Senac reforça essa perspectiva. “Não sentimos, sofremos ou nos alegramos só no Setembro Amarelo, por exemplo. A vida acontece o tempo todo, e o cuidado com a saúde mental também precisa ser constante. O mês serve como um chamado, mas o ideal é que a escuta, o apoio e o acolhimento façam parte do nosso dia a dia”.