
Em um município no qual a agricultura é a base da economia, transforma realidades e impulsiona o desenvolvimento, é possível encontrar diferentes perfis de produtores e uma grande diversidade de cultivos. Canguçu, reconhecido a nível federal como a Capital Nacional da Agricultura Familiar, carrega esse título com orgulho, evidenciando a fertilidade de suas terras e a vocação agrícola dos seus produtores.
Mais do que uma atividade econômica, a agricultura em Canguçu é também um legado cultural e familiar. Desde cedo, as crianças são incentivadas a ter contato com o campo, aprendendo sobre o cultivo. Para muitos, essa vivência molda o futuro, perpetuando o ciclo da Agricultura Familiar de geração em geração.
Com relação à fumicultura especificamente, Canguçu é um dos maiores produtores do país. Nas últimas safras, foi o município que mais produziu, superando as 18 mil toneladas do produto. É a produção que leva o sustento para milhares de famílias canguçuenses, sendo uma cultura passada de geração em geração na maioria dos casos.
Leonardo Borchardt, morador do interior do município, planta tabaco, mas a atividade não é sua única fonte de renda. Apesar disso, conta que sua família começou a trabalhar com a produção de tabaco nos anos 2000 e ele, enquanto jovem, estudava em um turno e ajudava nos serviços da lavoura no outro.
História semelhante com a de Silvio Neutzling, agricultor do 3º Distrito do município. O fumicultor revela que trabalhar na agricultura é uma tradição que ultrapassa gerações entre os Neutzling e que a produção mudou a vida da família. “O fumo plantado em uma pequena propriedade rural é onde a gente consegue agregar valor. Então, a partir do momento que plantamos fumo, a gente conseguiu melhorar de vida”, contou.

Quando questionado sobre os desafios de viver da fumicultura, o produtor ressaltou: “eu não vejo desafios no dia a dia, eu vejo o entusiasmo do trabalho pensando no retorno no final da safra”. Já Borchardt acredita que um dos grandes desafios seja a falta de mão de obra. “E a inconsistência nas negociações do tabaco”, contou o agricultor.
Além disso, quando questionados sobre a importância da produção, é notória a força que a fumicultura representa para o desenvolvimento do município. Neutzling reforça que a fumicultura é praticamente a base da economia local, já que a cidade não teria o desenvolvimento atual se não houvesse essa cultura. “Acho que nossa cidade estaria deserta, porque hoje uma situação que temos, se for depender de milho, batata, cebola, os produtores não teriam conquistas que conseguem com o plantio de fumo”. Ainda sobre a importância do plantio, Borchardt acredita que o tabaco tem sustentado vários outros setores da economia. “A soja se tornou parte relevante. Mas nos últimos dois anos, quebrou o produtor. Enquanto que o tabaco teve um aumento bem considerável”, garante.
A popularidade e a força da produção em Canguçu não é por acaso. São milhares de canguçuenses que investem e vivem da fumicultura. Apesar disso, os agricultores apontam a falta de incentivo por parte do governo, embora haja investimento por meio das empresas fumageiras.

Borchardt acredita ser importante nunca depender de apenas uma só cultura, mas sim diversificar a produção. Já Neutzling enxerga o futuro do tabaco como preocupante devido à falta de incentivos do atual governo e que é necessário que os produtores também tenham mais tranquilidade para que possam trabalhar da melhor forma possível.
Por ser uma cultura que atravessa gerações, muito se discute acerca do futuro da produção em relação ao interesse de investirem na área e a própria mão de obra. Por isso, muitos produtores buscam incentivar os jovens para que se mantenham no campo produzindo e colhendo. “O jovem, onde a família está modernizando estruturas, com certeza atrai o interesse. Já onde o trabalho todo é braçal e com pouco retorno financeiro, logo surgem outros caminhos”, pontuou Borchardt. Por sua vez, Neutzling acredita que se torna uma tarefa cada vez mais difícil ficar na lavoura e isso envolve, principalmente, o aumento dos custos e falta de incentivo. “Tem essa sucessão rural, que fica na propriedade rural, para quem começa está muito pouco o incentivo”, afirmou.

Atualmente Canguçu está sob decreto de situação de emergência por conta da forte estiagem que assola o município e tem causado prejuízos para produtores de diversas culturas. Diante dos desafios, como a estiagem e a falta de incentivos governamentais, produtores seguem buscando alternativas para fortalecer a agricultura local. A fumicultura continua sendo um dos pilares econômicos de Canguçu, mas a necessidade de diversificação e de incentivos para a permanência dos jovens no campo são aspectos cruciais para garantir um futuro sustentável para a produção agrícola do município.



