A essência da Agricultura Familiar: o papel dos produtores de tabaco em Canguçu

Produtor Marcio Bastos Quintana e sua esposa Magda Retzlaff Quintana. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Com mais de 4.900 famílias dedicadas à produção de tabaco em Canguçu, o cultivo da planta se consolida como um dos principais pilares da economia local, gerando na safra 2023/2024 um faturamento bruto de R$467 milhões. Em meio a desafios climáticos e econômicos, os fumicultores mantêm viva uma tradição que sustenta a Agricultura Familiar, responsável por mais de 50% da movimentação econômica do município. Mesmo diante de incertezas e críticas ao setor, o tabaco continua sendo a principal cultura de Canguçu, movido pela força do trabalho de agricultores que passam seu conhecimento de geração em geração.

História de Marcio Bastos Quintana: a decisão de voltar ao campo e plantar fumo

Marcio Bastos Quintana, de 43 anos, é natural de Canguçu e representa a primeira geração de sua família a plantar fumo. O caminho dele até a agricultura foi inesperado. Após anos trabalhando como caminhoneiro e vivendo na zona urbana, voltou para o interior, mais especificamente ao 3º Distrito do município, no Faxinal, para cuidar do pai, que estava doente. Com o falecimento do pai e a necessidade de sustentar sua esposa e suas duas filhas, Quintana tomou uma decisão que mudaria sua vida: começou a plantar fumo.

“Observando quem mora no interior, quem está no cultivo aqui, o pequeno produtor é o fumo. Nós, pequenos produtores, temos que plantar fumo, não tem outra coisa. Você não consegue manter uma família hoje plantando feijão, milho”, explica o produtor ao comentar um dos motivos de ter escolhido o cultivo do tabaco.

Mesmo com a distância que o separa da vida da cidade e com os desafios do campo, Quintana segue firme na produção de tabaco, motivado pelo desejo de proporcionar uma vida melhor para sua família. Uma de suas filhas está na faculdade e a outra está prestes a concluir o Ensino Médio.

O sacrifício é grande, mas a determinação é maior. Durante a época de secagem do fumo, o agricultor enfrenta noites mal dormidas. “A gente fica preocupado, tem que se levantar de madrugada, faça frio ou chuva, para ver a temperatura da estufa”, relata ele, descrevendo as dificuldades dessa fase crucial da produção.

O tempo, no entanto, é o maior inimigo. Quintana conta que a chuva, ou a falta dela, é um fator decisivo da safra. “Nosso maior problema é a chuva e o tempo.

A gente planta, faz um grande investimento, mas não sabe. Tem que olhar para o céu e pedir a Deus que mande água. O solo é rico, nossa propriedade tem um solo muito bom, mas dependemos da água. Se fosse com irrigação, o custo seria muito alto”, explica.

A questão econômica também traz incertezas. O produtor não tem controle sobre o preço final do tabaco que cultiva. “A gente planta sem saber quanto vai valer. A firma decide o preço conforme estão os insumos, como o adubo. Uma hora o preço está em alta, outra hora está em baixa”, desabafa o agricultor.

Com uma produção intensa, que inclui o cultivo de fumo normal e de inverno, Quintana conta com a ajuda de sua família e de dois diaristas, a quem oferece equipamentos de proteção individual (EPIs), refeições diárias e uma área de descanso. Ele acredita que o bem-estar dos trabalhadores é essencial para o sucesso da colheita.

O plantio de tabaco de Quintana iniciou em 2021 com duas estufas, hoje ele possui três em funcionamento. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Olhar para o futuro: a possibilidade do tabaco orgânico

Apesar dos desafios, o produtor já pensa em novas possibilidades. Ele se interessa pela produção de tabaco orgânico, uma alternativa que pode trazer maior lucro. “O tabaco orgânico é bom, eles pagam um valor a mais para quem produz. Eu tenho a ideia de plantar o tabaco orgânico também. Acho que seria bom”, reflete. Quintana também acredita que o futuro do tabaco não se limita ao consumo como cigarro. “O fumo não é só para fumar. Hoje em dia, ele tem várias utilidades. Eu acho que, com mais incentivo e apoio das firmas, muitos produtores podem se interessar mais pelo cultivo”, conclui.

O produtor representa não apenas a força de vontade dos pequenos produtores, mas também a resiliência de quem, em meio a dificuldades, encontrou no fumo uma forma de sustentar a família e continuar uma tradição que, em Canguçu, movimenta a economia e mantém viva a Agricultura Familiar.

Mudas prontas para plantio na propriedade de Quintana, que possui 15 hectares (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Impacto econômico do tabaco em Canguçu

A produção de tabaco em Canguçu tem um impacto significativo na economia local. Segundo dados da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), na safra 2023/2024, mais de 4.964 famílias se dedicaram ao cultivo de tabaco, com uma área plantada de 8.997 hectares – um aumento de 6,18% em relação ao ano anterior.

O tabaco gerou um faturamento bruto de R$ 467 milhões nesta safra, representando um incremento de 22% em comparação à safra anterior, que rendeu R$ 382 milhões. O aumento de preço de 42% entre as duas safras impulsionou o crescimento, apesar da quebra de safra que limitou resultados ainda maiores.

Segundo a Secretaria de Agricultura de Canguçu, o tabaco é responsável por mais de 50% da movimentação econômica da agricultura e pecuária do município. “A cultura do fumo é essencial para a subsistência de muitas famílias, movendo a economia e mantendo viva a Agricultura Familiar”, afirma Michel Aldrighi, diretor do Departamento de Agricultura.

Sustentabilidade e desafios do setor

Para apoiar os pequenos produtores, Canguçu implementou o Programa Municipal de Apoio à Cultura do Tabaco, que busca garantir a infraestrutura necessária para a continuidade da produção. Além disso, iniciativas como o Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) têm sido importantes para que novos agricultores tenham acesso à terra.

Em termos de sustentabilidade, o município promove parcerias com entidades como Emater/RS e Embrapa para incentivar práticas agrícolas mais ecológicas. Empresas do setor fumageiro também têm adotado iniciativas para reduzir o uso de agrotóxicos e conservar o solo. A produção de tabaco orgânico surge como uma alternativa promissora, com incentivos financeiros para os produtores que optarem por essa modalidade – o que pode garantir um futuro mais sustentável para o setor.