Entre águas, memória e futuro

Iniciativa reúne sete municípios da Zona Sul e aposta na preservação ambiental, educação e turismo sustentável para impulsionar o desenvolvimento regional. (Foto: Divulgação/Projeto Geoparque Paisagem das Águas)

O sul do Rio Grande do Sul guarda um dos sistemas hídricos mais singulares do planeta. A Lagoa dos Patos e seu estuário reúnem rios, canais, dunas e áreas úmidas que formam uma paisagem rica — e uma iniciativa da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) quer transformar esse território em geoparque reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O Projeto Geoparque Paisagem das Águas é uma iniciativa que abrange sete municípios da Zona Sul, são eles: Pelotas, Rio Grande, São Lourenço do Sul, São José do Norte, Capão do Leão, Turuçu e Arroio do Padre. Juntos, eles formam uma área de cerca de 6,7 mil quilômetros quadrados em torno do estuário da Lagoa dos Patos. O objetivo é promover o desenvolvimento sustentável da região por meio da preservação da geodiversidade e do incentivo ao geoturismo. A proposta também ganhou urgência após as enchentes de maio de 2024, que evidenciaram a vulnerabilidade dos sistemas naturais da região.

Além da pesquisa científica, o projeto prevê quinze ações de extensão junto à comunidade. Entre elas estão o “Geoparque na Rua”, que leva educação ambiental aos bairros de Pelotas, e o “Geoparque na Escola”, voltado à formação de professores da rede municipal. Em um momento em que as mudanças climáticas reforçam a necessidade de cuidar dos recursos naturais, o Geoparque Paisagem das Águas propõe um novo jeito de pensar o futuro da região, valorizando a paisagem, a memória e as comunidades que vivem ao redor dela.

Além da pesquisa científica, o projeto prevê quinze ações de extensão junto à comunidade. (Foto: Divulgação/Projeto Geoparque Paisagem das Águas)

Um patrimônio além dos monumentos
Quando se fala em patrimônio, é comum pensar em prédios históricos, museus ou tradições culturais. O conceito de geoparque, no entanto, amplia esse olhar para incluir elementos naturais que ajudam a contar a história do planeta e da ocupação humana.

Segundo o coordenador do projeto e professor do Departamento de Geografia da UFPel, Adriano Luís Simon, além das paisagens naturais, o território é formado pelas relações que as comunidades estabelecem com elas ao longo do tempo. “Quando a gente entende que o estuário da Lagoa dos Patos tem como elemento singular os corpos lagunares conectados à água, entende também que diversas populações têm sua vida intimamente vinculada à pesca, à agricultura, à formação das cidades e às atividades econômicas relacionadas a esse ambiente”, explica.

Para Simon, o geoparque busca reconhecer e proteger esse patrimônio natural ao mesmo tempo em que cria oportunidades de desenvolvimento sustentável. “O Geoparque pretende entender o território dessa forma, fazendo com que esses registros da Terra, além de fazerem parte dos modos de vida da população, também possam ser interpretados para que seja garantida a sua salvaguarda e para que sejam criadas estratégias de desenvolvimento territorial dessas comunidades dentro de uma perspectiva sustentável”, afirma.

Diferente de uma unidade de conservação, um geoparque não cria novas restrições legais de uso do território. A proposta da Unesco é baseada na articulação entre comunidades, instituições, setor público e iniciativa privada para valorizar o patrimônio natural e cultural e transformá-lo em vetor de desenvolvimento local.

Um sistema único no mundo
A singularidade do território é um dos principais argumentos para a candidatura à chancela internacional. O estuário da Lagoa dos Patos está inserido no maior sistema lagunar do Brasil e da América do Sul, formado pelas lagoas dos Patos e Mirim, conectadas pelo Canal São Gonçalo. Juntas, elas recebem o escoamento de uma bacia hidrográfica superior a 200 mil quilômetros quadrados. “Por si só já estamos falando de um megassistema em escala mundial. Toda essa água precisa circular pelo Canal e pelo estuário da Lagoa para chegar ao mar. Isso torna essa região única, exclusiva e singular no planeta”, destaca Simon.

Além da dimensão hídrica, a região reúne características geológicas, geomorfológicas e ecológicas raras. Canais lagunares, ilhas, áreas úmidas e formações sedimentares registram uma história natural construída ao longo de aproximadamente 1,4 milhão de anos. Esses elementos constituem o chamado geopatrimônio, um conjunto de formações naturais que possuem valor científico, educativo, cultural e ambiental. A proposta do projeto é identificar, estudar e divulgar esses locais de interesse geopatrimonial para fortalecer a preservação e ampliar o conhecimento da população sobre o território onde vive.

Canais lagunares, ilhas, áreas úmidas e formações sedimentares registram uma história natural construída ao longo de aproximadamente 1,4 milhão de anos. (Foto: Divulgação/Projeto Geoparque Paisagem das Águas)

O alerta deixado pelas enchentes
Os eventos climáticos extremos que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 reforçaram a importância do olhar para questões hidrográficas no Estado. Com chuvas intensas em diferentes pontos da bacia hidrográfica, o estuário tornou-se o destino final de enormes volumes de água vindos do norte e centro do RS. Segundo Simon, a tragédia evidenciou o papel fundamental desempenhado pelos ambientes naturais da região. “Áreas úmidas amplas, marginais ao Canal São Gonçalo, tiveram uma função ecológica e hidrológica extremamente relevante para segurar esse excesso de precipitação e de escoamento”, diz.

Para os pesquisadores, preservar esses ecossistemas também é uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas e de proteção das populações que vivem na região.

Turismo para conservar
Um dos pilares dos geoparques reconhecidos pela Unesco é o geoturismo, que alia visitação, educação ambiental e valorização do patrimônio natural. A professora Laura Rudzewicz, do curso de Turismo da UFPel e integrante da coordenação do projeto, explica que a proposta não busca transformar a natureza em produto, mas estimular formas sustentáveis de interação com o território. “Para o Projeto Geoparque Paisagem das Águas, as águas e os ecossistemas associados não são apenas um recurso econômico da região. Eles são patrimônio, identidade e memória coletiva”, reitera.

Segundo ela, o geoturismo permite gerar desenvolvimento econômico sem comprometer a conservação ambiental. “O geoturismo reúne as questões socioeconômicas do turismo às questões educativas e da conservação ambiental. Ele propõe experiências imersivas no território e procura se comprometer com práticas de sustentabilidade ambiental, social e econômica”, aponta. A expectativa é que o reconhecimento do território estimule novos negócios ligados à gastronomia, ao artesanato, à hospedagem e aos chamados geoprodutos, itens inspirados nas características naturais e culturais da região.

O geoturismo permite gerar desenvolvimento econômico sem comprometer a conservação ambiental. (Foto: Divulgação/Projeto Geoparque Paisagem das Águas)

Comunidades no centro da proposta
A participação da população é considerada essencial para que o geoparque se torne realidade. De acordo com Laura, a iniciativa só faz sentido quando construída de forma coletiva, envolvendo moradores, universidades, gestores públicos e setor privado. O projeto prevê reuniões comunitárias, audiências públicas, atividades com pescadores, agricultores, artesãos e comunidades tradicionais, além de ações educativas permanentes.

A intenção é criar uma governança compartilhada e fortalecer o sentimento de pertencimento ao território. “O mais importante é estimular que as comunidades compreendam a importância de viver em um ecossistema único no mundo, que é o estuário da Lagoa dos Patos”, conta.

A aproximação entre universidade e comunidade é outro aspecto central da iniciativa. (Foto: Divulgação/Projeto Geoparque Paisagem das Águas)

A aproximação entre universidade e comunidade é outro aspecto central da iniciativa. Estudantes de graduação e pós-graduação participam diretamente das ações de extensão. É o caso da estudante de Geografia da UFPel Alice Rodrigues, que atua nas ações de divulgação do projeto e em pesquisas voltadas ao mapeamento geomorfológico da região.

Segundo ela, participar do Geoparque Paisagem das Águas transformou a forma como enxerga o lugar onde vive. “É importante que a população obtenha esse conhecimento científico através de uma linguagem de fácil entendimento, reconhecendo a riqueza que nos cerca e se tornando embaixadora do seu próprio patrimônio natural”, afirma.

Segundo os pesquisadores, a candidatura a geoparque da Unesco é um processo de longo prazo. Antes disso, será necessário consolidar pesquisas, fortalecer parcerias e ampliar o envolvimento das comunidades locais. Mas os idealizadores acreditam que o maior legado do projeto será a construção de uma nova relação entre sociedade e natureza.

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