Tradição mais cara: Doces de Pelotas refletem alta de insumos e sobem 13%

Reajuste impulsionado pela alta de insumos eleva preço dos doces tradicionais, mas vendas seguem estáveis, até mesmo no período de Páscoa. (Foto: Rafael Takaki)

Símbolo da tradição e da identidade cultural de Pelotas, os doces tradicionais ficaram mais caros neste ano. A Associação dos Produtores de Pelotas reajustou, na última semana, o valor da unidade, que passou a custar R$ 8,50. Impulsionado pelo aumento no preço de insumos, o novo valor foi anunciado um pouco mais de um ano após o último reajuste, já que março é, tradicionalmente, o mês em que ocorre a mudança no preço. Os produtos clássicos de Páscoa também sentiram a alta dos ingredientes, mas as vendas se mantiveram estáveis.

De acordo com Simone Bica, presidente da Associação, o aumento de 13,33% no valor ocorreu pela alta de insumos diretos e indiretos na produção. “O novo valor é em função do preço de insumos como ovos, chocolate em pó e leite condensado, além dos indiretos, como luz e gasolina. Este ano como a economia está muito instável, tentamos manter o valor e, agora em abril, tivemos que subir”, explica.

O economista e professor de Macroeconomia no curso de Economia e de Organizações e Mercados no Mestrado e Doutorado da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Marcelo Passos, afirma que o reajuste no valor dos doces supera a atual inflação de alimentos em decorrência do aumento da demanda por esses itens no período pascal, tanto para consumo próprio quanto para presentear, assim, a Páscoa intensifica a alta dos ingredientes básicos das receitas. “Se aumenta a demanda por doces, sobe o preço de tudo que entra na composição desses alimentos”, salienta. De acordo com ele, a tendência, porém, é as vendas caírem depois da Páscoa, já que muitas pessoas reduzem o consumo por questões de saúde.

Passos ainda detalha que, além da demanda pascal, a alta acontece em função de questões pontuais e sazonais. Segundo o economista, os meses depois do verão tradicionalmente elevam os preços de produtos alimentícios, por ser um período de entressafra. “É comum em meados de março, abril e maio subir o preço dos alimentos, é um período de transição”, confirma.

Qualidade é pilar das receitas

A tradição doceira de Pelotas foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2018. O título valoriza o modo de fazer transmitido por gerações, a história e as receitas dos doces finos e coloniais, como quindim, camafeu e bem-casado. Diferentemente de doces industrializados, os produtos pelotenses mantêm receitas tradicionais, o que dificulta a substituição de ingredientes.

Dessa forma, segundo Simone, o reajuste é uma maneira de manter a qualidade dos produtos dos mais de 20 associados da entidade: “Não abrimos mão do padrão dos nossos doces, que faz da nossa cidade a Capital Nacional do Doce e nos concede o selo de indicação de procedência”, ressalta. A presidente diz que havia dificuldades na produção antes de subirem o valor, embora, após a decisão do reajuste, haja insegurança em relação às vendas daqui pra frente.

Espaço tradicional de Pelotas concentra produtores locais e atrai turistas
em busca dos doces típicos reconhecidos nacionalmente. (Foto: Clarissa Ribeiro/JTR)

Lojas se mantêm otimistas

Aline da Rosa, funcionária da Banca 2 da Rua do Doce da cidade, que reúne produtos das lojas Imperatriz Doces Finos, Fran’s e Monalu, conta que o aumento trouxe preocupação após o anúncio, mas os clientes reagiram bem. “Eu achei que ia ter muita reclamação, mas não aconteceu. No outro dia as minhas vendas até subiram”, relata.

Conforme Aline, a produção buscou manter alto padrão e credibilidade no produto: “Subiu para não perder a qualidade. Trabalhamos com os doces tradicionais que possuem selo, precisamos seguir a receita à risca”. Ela ainda afirma que não há preocupação com as vendas na Feira Nacional do Doce (Fenadoce) em julho, pois “é de praxe todo ano subir o doce, quem tem costume de ir no evento não vai deixar de ir por subir R$ 1,00”.

A funcionária da Nina Doces, Cláudia Dias, destaca que sua clientela também recebeu bem o aumento. “Estão comprando bastante, eles receberam bem o valor. Não comentaram nada, chegam, perguntam o valor do docinho e pagam tranquilamente”, diz. Para ela, devido ao reconhecimento da tradicional feira da cidade e a grande quantidade de turistas que visitam o evento anualmente, o valor não deve impactar no movimento e nas vendas da loja na próxima edição.

Andréia Costa, doceira da Cooperativa dos Doces de Pelotas há mais de 25 anos, observa que a Páscoa foi um fator importante para as vendas da última semana, mesmo com o anúncio. “No período pascal os doces tradicionais são bastante vendidos, pois o município recebe mais turistas, que consomem bastante”, enfatiza. Segundo ela, o preço aumentar foi inevitável: “Não tem jeito, os ingredientes estão subindo e é uma avalanche”.

Consumidores repensam decisões

Para Marcela Carvalho, o aumento no valor torna o doce menos acessível aos pelotenses. “Eu não sei qual é o custo da produção do doce, mas eu acredito que poderia ser mais barato”, comenta. Ela ainda afirmou que o de ir à Fenadoce e deve repensar a visita ao evento.

O consumidor Marcelo Oliveira também não tem certeza se visitará a feira. Além disso, segundo ele, a frequência de suas compras também tende a diminuir. “Até por a gente morar em Pelotas, o produto poderia ser mais em conta. Eu vinha mais vezes nas lojas comprar doces, agora virei menos”, conta Oliveira.

Período impulsiona o comércio de chocolates e doces, elevando a demanda e movimentando a economia local. (Foto: Clarissa Ribeiro/JTR)

Comercialização de Páscoa preocupou, mas foi positiva

O aumento dos insumos também preocupou o comércio de Páscoa na cidade, segundo Renzo Antonioli, presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio (Sindilojas) Pelotas. Mesmo assim, as vendas ficaram dentro das expectativas. “O movimento estava abaixo do desejado, mas na semana da Páscoa houve uma recuperação. Acreditamos que as promoções que foram feitas na última semana ajudaram a reverter o quadro de queda”, afirma.

De acordo com ele, houve crescimento de 2,85% em relação à Páscoa do ano passado, assim, o desempenho do comércio foi classificado como “bom”, em virtude da atual situação do varejo. Antonioli explica também que, durante as compras, o consumidor optou por produtos mais baratos e pelas promoções feitas para reduzir o número desses alimentos em estoque dos estabelecimentos.

As marcas líderes do mercado nacional de chocolate sentiram uma procura maior por produtos clássicos em Pelotas. A vendedora da Cacau Show, Mariana Martins, afirma que cestas que continham esses itens lideraram as vendas. “As pessoas sempre procuram opções de promoção, mas saíram mais os produtos tradicionais, além de kits e cestas, nos dias de maior movimento que foram quinta e sábado”, salienta.

Na Cacau Brasil, conforme Tatieli Oliveira, gerente do estabelecimento, a tendência também foi observada: “A preferência foi por ovos clássicos, por conta da embalagem, chamamos isso de ‘cara de ovo de Páscoa’, mas ainda temos 50 ovos para vender agora, que entraram em promoção”.

Tatieli destacou também que houve crescimento no comércio de Páscoa do estabelecimento em relação ao ano passado. “Sentimos bastante diferença do ano anterior pra cá, porque nosso movimento costumava ser na véspera de feriado, mas dessa vez ele foi bom na quarta, na quinta e no sábado. Foi durante mais tempo”, conta a gerente.

A Imperatriz Doces Finos, produtora de doces desde 1997, trabalha com produtos de Páscoa neste período e também obteve boa comercialização, segundo Maria Helena Jeske, fundadora e proprietária da empresa. Ela conta que os clientes possuem o hábito de levar os doces tradicionais junto com os ovos de chocolate ao visitar a loja, impulsionando seu faturamento.

Produzidos com receitas tradicionais, doces mantêm padrão de qualidade e reforçam o título de Capital Nacional do Doce. (Foto: Clarissa Ribeiro/JTR)

Maria Helena ressalta que a marca não sentiu o impacto do reajuste do doce em um primeiro momento. “Não sentimos esse impacto de queda nas vendas, como estamos em um período de Páscoa. Além disso, a gente acredita que, como o consumidor já está acostumado, ele acompanha a economia e sabe que está tudo subindo, o preço é aceitável – o nosso público tem aceitado isso”, diz. Ela comenta que está otimista para a próxima Fenadoce, devido ao número expressivo de turistas que comparecem no evento.

Economia atual acende alerta

O economista ressalta que pequenos produtores costumam ser mais afetados por aumentos nos custos, devido ao fenômeno da economia de escala. “Quem produz mais doces tem o ganho de escala, ou seja, quanto mais você produz, mais barato fica produzir um único doce. E o pequeno produtor fabrica pouco, doceiras artesanais preparam menos doces”, explica.

Ademais, o poder de compra dos pelotenses está baixo, conforme Passos. Mesmo assim, muitas pessoas investem em produtos em períodos comemorativos. “Pelotas é uma cidade de renda média baixa. O município tem uma renda per capita menor do que Rio Grande, por exemplo, e menor do que outras cidades com populações parecidas, como Caxias do Sul, Bento Gonçalves e outras. Além disso, as pessoas estão muito endividadas, os juros e as taxas estão altos. Porém, nas comemorações, as pessoas acabam gastando um pouco além do que podem pois não querem deixar de presentear familiares e amigos”, finaliza.