
O curso de Licenciatura em Educação do Campo (Ledoc) da FURG São Lourenço do Sul (FURG-SLS) promoveu uma viagem de estudos a Canguçu. Além da comunidade acadêmica da Ledoc, participaram da excursão professores e estudantes dos demais cursos ofertados pelo campus São Lourenço do Sul (Agroecologia, Gestão Ambiental, Gestão de Cooperativas e Letras). O grupo visitou a Escola Família Agrícola da Região Sul (Efasul), escola rural em atuação no município desde 2016; e a propriedade Vida na Terra, que há mais de 30 anos produz alimentos agroecológicos em um sistema agroflorestal.
Segundo a coordenadora da Ledoc e professora da FURG-SLS Patrícia Lovatto, o objetivo da saída foi fortalecer o vínculo com as organizações do território que vêm trabalhando com pedagogias educacionais que levem em consideração o contexto rural e a produção agroecológica, que, segundo ela, é o tipo de produção que se mostra cada vez mais como um caminho para o futuro.
Visita à Efasul
Pela manhã, o grupo conheceu as dependências e as dinâmicas de ensino propostas pela Efasul, uma escola comunitária voltada para filhos e filhas de agricultores familiares, assentados da reforma agrária e quilombolas; e que trabalha a partir dos princípios da pedagogia da alternância, da agroecologia e da educação do campo.
O curso oferecido no local tem duração de três anos e meio e, promove, concomitantemente, a formação dos alunos no ensino médio e em nível técnico em Agroecologia. Na metodologia adotada, por viverem em um contexto rural, os alunos passam uma semana na escola tendo aulas em três turnos diários, e na semana seguinte ficam em casa desenvolvendo atividades trabalhadas em sala de aula junto às suas famílias e às suas comunidades. O formato busca estimular os estudantes a entenderem suas origens e valorizarem o lugar de onde vêm.
Acadêmica da Ledoc, Ana Tereza Santana afirma que percebeu, a partir da Efasul e da pedagogia da alternância – prática igualmente adotada no curso de Educação do Campo da FURG-SLS – que o conhecimento se dá em circularidade. “Os estudantes saem das suas casas com o conhecimento de seus pais, mães, avós e avôs. Esse conhecimento eles levam para a escola, trocam com os professores e adquirem conhecimento técnico. Logo após, voltam para os seus territórios e aplicam o que foi aprendido, juntamente com o conhecimento que obtiveram de seus ancestrais”, pontua.
Uma das coordenadoras da Efasul desde o início das atividades, Gisela Lang do Amaral, também professora do Instituto Federal Sul Rio-Grandense de Pelotas (IFSul), explica que a escola se constituiu a partir de uma demanda surgida no Fórum da Agricultura Familiar em 2013. Desde 2016 já foram formados 36 jovens, e atualmente a instituição conta com 42 estudantes, divididos em duas turmas de primeiro e segundo ano do curso técnico em Agroecologia.
“Por ser uma escola comunitária, ela precisa muito do apoio da comunidade e daqueles que entendem a necessidade de se ter uma escola que respeite e valorize o contexto, a realidade, as necessidades que são muito específicas dos jovens rurais. Por isso, foi um enorme prazer nós termos recebido a visita de estudantes e professores do campus São Lourenço da FURG numa manhã de ricas trocas tão necessárias para que se fortaleçam as redes que nos mantém sustentados e em movimento nessa tarefa que não é fácil de oferecer e promover a Educação do Campo”, afirma Gisela.
Segundo ela, há muitas confluências entre o trabalho desenvolvido pela Efasul e os cursos do campus da FURG-SLS e, em sua concepção, a partir da visita, vão ser constituídas muitas oportunidades de aproximação e de construção coletiva envolvendo as duas instituições, tanto entre estudantes, como entre docentes. “Nós temos certeza que as parcerias, as partilhas e o reconhecimento entre nós que seguimos esse mesmo caminho fortalece a todos e a todas. Isso facilita nossa caminhada e permite que a gente avance cada vez mais. Por isso a Efasul está de portas abertas pra que se tenham outros momentos ricos como foi esse nosso encontro e para que se possa desenvolver projetos conjuntos que eu tenho certeza que têm tudo para dar certo, especialmente a partir do entusiasmo e do brilho no olho que a gente sentiu vindo de todos e de todas nós que estivemos juntos”, destaca.
Visita à propriedade Vida na Terra
Depois de almoçarem na Efasul, os estudantes e professores da FURG-SLS se dirigiram à propriedade Vida na Terra, localizada também em Canguçu e integrante da rota turística dos Olivais da Serra dos Tapes.
Em 15 hectares, o produtor rural Cléo de Aquino Ferreira produz frutas de maneira sustentável há mais de 30 anos, junto dos filhos e da esposa. Ao todo, são 24 espécies de frutíferas nativas e exóticas cultivadas no local. Além disso, a propriedade realiza a preservação de árvores com madeira de interesse comercial e risco de extinção, em um sistema agroflorestal. Assim, Cleo explica que o espaço é dividido entre a mata nativa e a agrofloresta.
A família também tem uma agroindústria própria para beneficiamento da produção, no qual o produto principal são os sucos orgânicos, mas onde também são produzidos doces e geleias; e trabalha com turismo rural e técnico/pedagógico. “Em cada interação a gente sempre aprende muito e nos ajuda a nos manter com ânimo para tocar isso tudo”, afirma Cleo.
A oportunidade de vivência junto à família Ferreira foi bastante significativa para a estudante de Agroecologia Laura Becker. “Foi muito especial, especialmente o trabalho com as frutas nativas, mas também as falas do Cleo e as motivações que levaram ele a chegar nesse estágio. Isso me emocionou bastante, porque é muito bom quando a gente encontra pessoas que sonham como a gente, mas que além de sonhar como a gente, realizam esses sonhos. Voltei muito motivada, com a esperança muito ativa e tenho certeza que vou seguir assim por um bom tempo”, conta.



