Poderia ser uma derrota comum para o Clube Farroupilha, mas uma denúncia chamou mais atenção que o alarmante resultado do placar. Depois de levar uma goleada de 7 a 0 do Bagé, no domingo (31), na Terceirona Gaúcha, o jogador Iago Padilha fez uma publicação em suas redes sociais. O atacante acusou haver suposta manipulação nos resultados do jogo.
“Eu tava lá e posso falar, os caras vieram de fora para usar o clube para fazer aposta. É sacanagem isso. Não aceito e sou contra essas coisas de venda de jogo”, escreveu o atleta nas redes.
Padilha em todas as postagens se mostrou indignado e desapontado com a situação e, ainda, afirmou que estaria se desligando do clube. “Não respeitaram o clube. Pessoas sem caráter. Vieram pessoas de outra cidade para acabar com o clube. É lamentável o que fizeram”.
Mesmo com toda confusão, não hesitou em comentar que poderia retornar. “Quem sabe, em outra oportunidade, quando pessoas sérias assumirem o clube, não possamos trabalhar novamente na instituição. Obrigado, Farroupilha”.
Logo após a denúncia, Padilha aparece em live ao lado do presidente do clube, Fábio Costa, que nega todo o tipo de envolvimento do time em esquemas de venda de partida. Para o presidente, o atleta, que seria um dos principais jogadores do clube, se expressou de forma equívoca. “Iago foi um jogador principal do nosso grupo. Nós estávamos jogando um jogo de classificação. Como a gente conversou, ele me relatou que saiu realmente do jogo muito aborrecido. Saiu de cabeça quente, não mediu as palavras. E falou algumas coisas que não deveria ser falado. Se expressou muito mal”, relata o presidente.
Costa complementa que o departamento jurídico está trabalhando na melhor posição para o clube se retratar e que internamente vai gerar um espaço para o pronunciamento de Padilha. “O clube está tomando as medidas judiciais para realmente a gente levar pra outras esferas para serem apuradas” e enfatiza, “é um clube de tradição. O Farroupilha não compactua com isso. Nunca vai compactuar com isso. Isso nunca poderia chegar no clube e não vai chegar nunca no clube”.
Procurado pela redação do JTR, Padilha não quis se pronunciar. “No momento estou me privando de falar. Tenho filhos, tenho mulher, tenho uma família, então o que tinha pra dizer eu já disse. Agradeço a compreensão”, respondeu em nota.
Para Pedro Sabella, presidente do clube de Bagé, a acusação de Padilha é desconhecida. “A declaração desse atleta nós desconhecemos na integralidade dessa notícia. Então assim, em nenhum momento nós entramos em contato com A, B ou C. Então, se há fatos quem tem que provar é a polícia federal, é o Ministério Público, é a Federação de Futebol por meio do departamento jurídico. Como presidente, eu não vou me manifestar e vou deixar para a polícia, Ministério Público.”
Sabella, mesmo sendo presidente do Bagé, time também envolvido, parece ter uma preocupação maior com o outro time e se queixa que a história do Farroupilha está sendo manchada, se torna algo triste para um clube tradicional para a região.
O que dizem os times de mesma chave do Farroupilha
Para o Clube Riograndense e para o Sport Clube Rio Grande é difícil emitir algum posicionamento ou opinião sobre o fato por ainda não existir comprovações por parte da justiça. “Na verdade não tenho muito que achar, porque enquanto não houve a apuração dos fatos é difícil emitir opinião. Eu prefiro aguardar, no momento eu não acredito e nem “desacredito”, ideal é ter a apuração. Qualquer opinião que eu emitir posso estar fazendo um juízo de valor de algo que ainda não sei se é fato ou não”, exprimi Paulo Neves, presidente do Riograndense.
Para Claudio Santana, representante do Rio Grande, isso é um fato que deve ser trabalhado no judiciário. “Isso é algo que cabe a justiça e a Federação Gaúcha de Futebol, nós não concordamos com qualquer manipulação de resultados e não trabalhamos dessa forma. Pensamos que qualquer denúncia tem que ser investigada pelos órgãos competentes”, conclui.
Ainda não se sabe se existe veracidade nas falas do atleta Iago Padilha, mas de toda forma mexeu com todas as categorias do futebol gaúcho, deixando alguns bem preocupados. “Se for comprovado, a investigação tem que se expandir, pois é muito ruim para o esporte. Eu que acompanho o sonho de um monte de guris dia após dia, me dói muito. Tomara que não seja real a situação, pois o sonho dessa gurizada já é difícil, aí se deparar com algo assim… é triste demais, frustrante”, expõe Neves.
O que disse o ex-técnico em entrevista a Rádio Universidade
O ex-treinador do Farroupilha, Gregory Macedo, em entrevista exclusiva para a Rádio Universidade, relatou um pouco do que passou no seu antigo clube, SER Santo Ângelo.
“No sábado, dia 18, antes do nosso jogo, lá em Rio Grande, contra o Riograndense, eu recebi uma ligação de uma pessoa que eu já tinha trabalhado em outro clube, ele é atleta ainda, não vou citar nomes porque envolver nomes é complicado. Eu não consegui gravar a conversa. Mas, naquela ocasião, já no início, quando ele começou a falar comigo, ele falou em valores – 80 mil – para tomar dois gols no primeiro tempo e dois gols no segundo tempo e, obviamente, neguei, e o telefonema ficou por ali”, narrou o treinador.
Macedo ainda fala sobre um momento, no dia 24, em que recebeu outra ligação. “Agora, no sábado, 24, antes do Riograndense, aqui, me ligou um cidadão que ano passado, quando eu estava no Santo Ângelo, ele chegou lá e quando começaram a querer fazer esquema…desde a primeira rodada, teve propostas que receberam por parte da empresa que eu fui contratado e por parte da direção do clube em si, e eu sempre negando, sempre negando. Nós perdemos a primeira – 2 a 1 para o Glória – e empatamos em casa contra o Brasil de Farroupilha. Chegou o momento que esse cidadão chegou e levou alguns atletas, ele é empresário, o cidadão do áudio que vazou, e foi onde eu saí porque chegou o momento que a direção e a empresa falaram que iriam fazer porque era muito dinheiro envolvido, e que então não precisavam mais dos meus serviços. E esse cidadão ficou com meu contato e, agora, no dia 24 acabou me ligando, ele só fala na ligação ‘é muito dinheiro’ mas não fala quanto, porque eu já cortei ele quando ele falou essa situação. Dessa segunda ligação que eu consegui gravar pelo celular da minha esposa que tava do meu lado eu não sei valores, não sei porque eu não deixei nem falar valores. Então é uma situação que é muito difícil porque agora o Iago Padilha acabou externando uma situação que ele vivenciou também. E muita gente caiu em cima dele, só que poucos tem a coragem e a personalidade do Iago para abrir isso e falar publicamente o que aconteceu”.
Na mesma entrevista, o ex-técnico fala sobre a derrota que o clube Farroupilha sofreu contra o Bagé por 7 a 0. “Cara, o 7 a 0 é inadmissível. Um clube, tudo bem tinha três atletas suspensos – devido à briga que deu no jogo contra o Riograndense –, três atletas suspensos. Mas agora tu tomar sete… é o que eu disse pra eles: o Bagé é forte, candidato a subir, tudo bem tomar um, dois, ok. Isso é compreensível. Agora tu tomar sete é…alguma coisa estranha tem. Tem áudio de um ex atleta que jogou essa partida também e acabou se desligando também: que o pessoal que chegou novo, ele não cita nomes, chamou ele de canto e ofereceu dinheiro pra fazer jogo e obviamente ele não aceitou, segundo ele relata no áudio. Então, teve aliciamento para fazer jogo contra o Bagé”, afirmou. Macedo ainda disse acreditar que o presidente do Clube, Fábio Costa, e sua esposa não tem envolvimento com a situação atual, mesmo que a contratação do técnico provisório tenha sido um erro.
“Nós sozinhos não vamos conseguir acabar com isso. Mas pode ser que nós tendo essa coragem de acabar nos expondo dê coragem para outras pessoas se exporem e acabar relatando o que tem passado, o que tem vivenciado ou até mesmo propostas que tenham recebido. Essas pessoas virem a público também porque só assim nós vamos, não digo acabar, porque isso é mundial, mas vamos conseguir fortalecer os clubes do interior que hoje é onde nós trabalhamos”, disse.
Até o momento do fechamento desta reportagem, a Federação Gaúcha de Futebol tinha exigido que a denúncia teria que ser encaminhada ao Ministério Público e a Polícia Civil.




