Doação de órgãos: a chance de vida em meio ao luto

Número de doadores teve queda durante a pandemia. (Foto: Ingimage)

O Brasil é referência mundial no transplante de órgãos. Em 2019, cerca de 96% dos procedimentos realizados em todo o país eram financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, ainda hoje os pacientes recebem assistência integral e gratuita, desde os exames preparatórios, procedimento cirúrgico, acompanhamento e medicamentos pós-transplante.

De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde a chegada da pandemia de Covid19, fez com que houvesse uma queda de transplantes bastante significativa no país. Há dois meses, mais de 53 mil pessoas esperavam na fila por órgãos ou tecidos. Ainda segundo esses dados, até setembro, haviam sido registradas 5.857 mortes encefálicas, mas apenas 1.451 tornaram-se doadores efetivos.

O Rio Grande do Sul, que em 2019 havia registrado 243 doações, contabilizou 182 em 2020, e até agosto de 2021, apenas 96. O médico Luciano Teixeira, da Comissão Intra Hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante do Hospital Universitário São Francisco de Paula (CIHDOTT/HUSFP), explica que a queda nas doações se deu pois os óbitos de pacientes confirmados com coronavírus ou com sequelas graves da doença, são contra indicações absolutas para doação.

“Durante vários meses tivemos 18 dos 30 leitos de UTI adulto disponíveis no HUSFP ocupados por pacientes com quadros de Covid grave. Também percebemos um aumento importante de contra indicações a doação, quando da morte encefálica confirmada, por ‘risco de contato com Covid’”, explica Teixeira.

Por lei, existem dois tipos de potenciais doadores de órgãos no Brasil. O primeiro é o doador vivo, ou seja, qualquer pessoa que concorda com a doação, desde que não prejudique a sua própria saúde e que sejam parentes até o quarto grau ou cônjuges do receptor. Não parentes só são autorizados a doar mediante permissão judicial.

Os doadores vivos podem doar rins, parte do fígado, da medula óssea ou do pulmão. O segundo tipo é o doador falecido, como pacientes com morte encefálica, geralmente vítimas de traumatismo craniano ou acidente cardiovascular (AVC). Para ser um doador em vida, além de concordar com a doação, a pessoa deve ser maior de idade e saudável. Já no caso de doação após a morte é necessária a autorização da família.

Teixeira explica que os hospitais da região precisam considerar o fator tempo entre a retirada e o posterior implante do órgão, que é variável, e a logística deve ser feita levando em consideração o fato de a Central de Transplantes ser localizada em Porto Alegre. Geralmente a ação é realizada por via aérea, com equipes também de fora de Pelotas.

A angústia da espera
Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), antes da pandemia, a projeção para 2020 era de 20 doadores por milhão de pessoas. Porém, a taxa diminuiu para 15 doadores na mesma quantidade, voltando ao patamar de 2017. Só no Rio Grande do Sul, de acordo com dados divulgados pela Secretaria de Saúde (SES) em outubro, mais de duas mil pessoas aguardam por transplante, entre eles Edelbert Lorsch, de 66 anos.

Lourenciano Edelbert Lorsch, conhecido como Professor Krüger, passou boa parte da vida em Pelotas, mas agora vive na capital gaúcha
à espera de um pulmão. (Foto: Arquivo Pessoal)

O lourenciano, conhecido como Professor Krüger, passou boa parte da vida em Pelotas, mas agora vive na capital gaúcha à espera de um pulmão. Lorsch levava uma vida saudável, que incluía academia e caminhadas diárias ao ar livre, mas em 2016 foi surpreendido com o diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática.

A doença, que não tem cura, foi tratada com medicamentos e acompanhamento clínico até dezembro de 2020, quando o seu quadro clínico se agravou e os médicos decidiram que ele precisava entrar na fila de transplante para receber um pulmão.

O processo até o registro oficial da necessidade de transplante exige muitos exames e comprovações, e isso se dá porque é preciso que o paciente atenda às normas estabelecidas pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Por isso, apenas em junho de 2021 o agora professor aposentado entrou na lista e, cumprindo uma das exigências, mudou-se para iniciar o tratamento na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

A partir daí uma nova rotina se instalou na vida de Lorsch, fazer parte da lista de espera exige que durante este período os pacientes façam a chamada “reabilitação”, ou seja, uma preparação do corpo para receber o transplante que pode chegar em dias, meses ou anos. O programa consiste em atividades aeróbicas periódicas e consultas multidisciplinares com médicos, nutricionistas e psiquiatras, na Santa Casa.

Segundo ele, um dos principais sintomas da doença é a sensação de estar sendo sufocado.
Atividades básicas como tomar banho, subir escadas e até mesmo se alimentar,
passaram a ser difíceis e causam exaustão. (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo ele, um dos principais sintomas da doença é a sensação de estar sendo sufocado. Atividades básicas como tomar banho, subir escadas e até mesmo se alimentar, passaram a ser difíceis e causam exaustão. “Aquela pessoa que caminhava os 8 quilômetros diários na Dom Joaquim, morreu. Hoje eu caminho me rastejando”, conta.

Desde que chegou à Porto Alegre, a necessidade de estar permanentemente ligado ao oxigênio surgiu e com ela as limitações de locomoção. Assim, o aposentado passou a enxergar a possibilidade de levar uma vida normal sem o transplante cada vez mais distante. “Quando eu saio de casa eu coloco ele [o cilindro de oxigênio] na mochila, nas costas e ele me dá ar por até três horas. Então tudo tem que ser muito planejado, corrido, que permita eu ir e voltar, porque se faltar ar fica muito complicado”, disse.

Viver o novo
Um doador falecido, pela chamada morte encefálica, pode ajudar até dez pacientes. O rio-grandino João Campello, de 42 anos, diagnosticado em 2010 com Bronquiectasias, foi uma dessas pessoas. Depois de quatro anos na pré-lista e 14 meses de fila espera, em 2015 ele recebeu o pulmão que lhe permitiu voltar a realizar atividades rotineiras que a doença impossibilitava. “Eu precisava de uma cadeira pra tomar banho, de auxílio para escovar os dentes. Eu fui brincar com o meu filho quando ele ia fazer seis anos.” conta.

O rio-grandino João Campello, de 42 anos, foi diagnosticado com Bronquiectasias em 2010. (Foto: Arquivo Pessoal)

Depois do transplante, quando voltou à cidade natal, inspirado em um dos profissionais responsáveis pela sua recuperação, resolveu estudar Fisioterapia. Voltou a correr, frequentar a academia e, além disso, criou um projeto denominado “Quando você doa, é a vida que segue”, que desde 2016 visita escolas e Unidades de Saúde do município de Rio Grande, visando conscientizar a importância da doação de órgãos. Ele também é fundador da Associação Rio-grandina de Pré e Pós-Transplantados.

Agora, passado seis anos do transplante, ele atua como fisioterapeuta esportivo no Sport Clube Rio Grande e conta que receber o pulmão deu a ele a chance de experimentar novas atividades. “Me deu a possibilidade de viver e realizar os meus sonhos. E, também, ajudar tantas outras pessoas que aguardam por um transplante”, concluiu.

Já Lorsch, professor que deixou as salas de aula antes do planejado, usa o tempo de espera para levar conhecimento e conscientizar, através das redes sociais, o máximo de pessoas possíveis sobre a importância de manifestar em vida o desejo de ser doador e, principalmente, sobre a necessidade de respeitar a decisão do familiar falecido. Para ele, a vida pode sim continuar em outra pessoa, mas para isso “o doador tem que convencer a família em vida”.

Após o transplante, em 2015,
Campello voltou a correr, frequentar a academia e, além disso, criou um projeto denominado “Quando você doa, é a vida que segue”. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2021, a taxa de rejeição à doação por parte das famílias foi de 37,8% no Brasil. Tanto Campello quanto Lorsch acreditam que uma das principais razões para a recusa dos parentes em doar órgãos é a falta de informação sobre o tema. Por isso, aqueles que têm o desejo de ser doador, devem conversar com os familiares sobre a decisão.

A doação de órgãos após a morte não viola o corpo do doador, a aparência física é preservada e a pessoa é respeitada nos devidos termos clínicos e humanos. O corpo é reconstituído após a cirurgia de retirada dos órgãos, deixando-o o mais próximo da aparência natural possível. Para o professor, é essencial que a população reconheça a generosidade e as chances que são dadas a várias outras famílias com a aceitação. “Entender que a vida vai continuar no corpo de outra pessoa”, declarou.

O médico do HUSFP acredita que a discussão e entendimento prévio, por parte do núcleo familiar, é essencial se já existe o desejo de doar. Para ele, a dor da perda não é extinta ou “trocada” quando se diz sim à doação, mas saber que o paciente efetivamente ajudou muitas outras pessoas a deixarem as listas de espera, a terem uma possibilidade de prosseguir com suas vidas, seus projetos, suas aspirações, faz com que a caminhada dos que permanecem seja um pouco mais leve.