Pelotas: V Mostra de Regiões Brasileiras ascende debates sobre o papel das mulheres na formação de territórios

Mostra foi realizada na noite de terça-feira (7) (Foto: Rodrigo Isquierdo)

Durante a noite de terça-feira (7), os corredores do ICH Campus II, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), receberam a V Mostra de Regiões Brasileiras. O evento, realizado pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PREC), pelo Instituto de Ciências Humanas (ICH), pelo Instituto de Filosofia, Sociologia e Política (IFISP) e pela Fundação Delfim Mendes Silveira, mobilizou cerca de 200 pessoas na organização de uma programação rica em brasilidades.

Em 2026, a Mostra aproximou universidade, comunidade escolar e agricultura familiar para um encontro com o tema “Mulheres: Existências e Resistências”, cuja programação envolveu apresentações culturais, gastronomia e exposições de produtores regionais. Mais do que isso, a V Mostra buscou evidenciar histórias daquelas deixadas à margem da narrativa oficial.

Segundo a cientista social, docente da UFPel e integrante da organização do evento, Maria Regina Costa, a escolha do tema surgiu da necessidade de dar visibilidade ao papel das mulheres na construção do território brasileiro. “[Na universidade] temos a disciplina de formação territorial e, a partir disso, sabemos que a participação da mulher na construção do território sempre foi invisibilizada”, explica.

A universidade sob novos olhares

Uma das marcas da Mostra é a participação da comunidade escolar da região que, durante as semanas que antecedem o evento, desenvolvem projetos a serem apresentados durante a exposição. A preparação acontece paralelamente à organização da universidade e aproxima estudantes da educação básica ao ambiente acadêmico.

Nessa edição, participaram as escolas Francisco Caruccio e Piratinino de Almeida, de Pelotas, Almirante Raphael Brusque, da Colônia Z3 e General Pedro Osório, de Pedro Osório. Cada instituição trabalhou o tema da Mostra por diferentes perspectivas, produzindo exposições, apresentações e materiais relacionados às mulheres e às identidades regionais.

A parceria pedagógica com a E.M.E.F Francisco Caruccio, por sua vez, aconteceu dentro da própria UFPel. A professora municipal e acadêmica do curso de Licenciatura em Geografia, Eliane Gasso, conheceu a proposta durante uma disciplina ministrada por Maria Regina. Desde então, passou a levar seus alunos para participar da Mostra.

Para ela, a experiência representa bem mais do que uma atividade complementar. “Minha intenção é que os alunos da periferia se apropriem desse espaço, compreendendo que a universidade pública também é deles e que eles têm o direito de ocupá-la”, afirma Eliane. “Busco semear uma esperança e incentivar cada estudante a acreditar que pode ingressar na universidade, dando continuidade aos seus estudos”.

Participaram da visitação feita pela escola alunos das turmas do 3º e 5º ano do Ensino Fundamental. O impacto pós Mostra, segundo Eliane, permanece depois do evento. “Inclusive, na edição realizada ontem (7), uma aluna comentou que passou a sonhar em estudar na universidade e se tornar professora. Ouvir esse tipo de relato é extremamente gratificante”.

Já a E.M.E.F Almirante Raphael Brusque, da Colônia Z3, marcou presença na Mostra pelo segundo ano consecutivo. Em 2025, os alunos produziram trabalhos que valorizaram a cultura pesqueira e demais características do território. Este ano, o foco esteve nas memórias afetivas transmitidas entre gerações de mulheres.

Os estudantes entrevistaram empreendedoras e proprietárias de restaurantes para registrar histórias e receitas familiares. O resultado, apresentado durante a Mostra, acompanhou a distribuição de 290 porções de ambrosia preparadas por estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) através da Prática Integrada — componente curricular ofertado pela escola.

A instituição participou, ainda, da Feira de Produtores do evento. Enquanto uma das estudantes comercializou salgados e bolinhos de peixe, a merendeira da escola também levou preparos feitos por ela. Projetos como o LabMaker e o Compostagem também foram representados com a venda de chaveiros e adubo orgânico. A arrecadação, segundo a escola, será destinada à manutenção de projetos e garante a renda extra de mulheres estudantes e trabalhadoras.

O território começa no rural

Pela primeira vez na Mostra, a Feira de Produtores reforçou a presença da agricultura familiar não apenas em Pelotas, mas nacionalmente. A iniciativa reuniu produtores e os aproximou do público universitário através de alimentos e outros produtos criados pelas próprias famílias. A proposta, como explica Maria Regina, conversa com o tema do evento e questiona quem de fato constrói os territórios brasileiros.

“A formação de um território começa a partir do rural. Nas nossas edições anteriores nós não tínhamos essa presença e, por isso, entendemos que trazer os movimentos sociais, os assentamentos e a agricultura familiar seria uma forma de trazer o rural brasileiro para o evento. É um combate, também, à questão do agronegócio, dos agrotóxicos”.

Um dos representantes desse espaço foi o Grupo Terra Nova, coletivo formado por famílias assentadas de Herval e Piratini que, há cerca de dois meses, participa de feiras organizadas em parceria com a Associação Bem da Terra. Na Mostra, os produtores do coletivo comercializaram uma variedade de alimentos como queijos, doces, conservas e frutas.

De acordo com a zootecnista Katiane de Souza, que integra a coordenação do Terra Nova, a visibilidade proporcionada pelo evento é fundamental para fortalecer um trabalho ainda em construção. “A receptividade e a aceitabilidade do público foram muito legais. Teve gente que veio de casa para comprar de nós. Com certeza nos abriu bastante portas e fortaleceu ainda mais o nosso trabalho”, relata.

Hoje, o núcleo de Herval é formado por sete mulheres, enquanto nos assentamentos de Piratini elas participam ativamente da produção das famílias envolvidas. “Hoje elas estão como protagonistas, graças a Deus. A gente puxa para isso, para grupos que tenham mulheres à frente”, destaca Katiane.

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