Princesa do Sul

Tens a brejeirice de quem sabe ver o tempo passar e consegue manter o mesmo ar de nobreza, mesmo com marcas e cicatrizes. Ali­ás, como bem escreveu Artur da Távola: “Um rosto sem rugas é um rosto sem biografia”.

E a tua biografia é rica de detalhes, entalhes cinzelados por mãos criativas e invisíveis que foram esculpindo uma trajetó­ria plena de cultura, de sabedoria para proveito de todos os que te conhecem.

Como fértil que és, geraste filhos e filhas que são teu verda­deiro cartão postal. Embaixadores que te representam há 214 anos por todas as paragens do mundo.

E é de teus filhos que desejo falar. Dessa gente especial que descende do teu solo e no teu colo se abriga. Ilustres ou desconhe­cidos são eles semelhantes a ti na fisionomia da suavidade que só os fortes possuem e sabem usar.

Por essas artes da vida, nasci num porto alegre um pou­co distante de ti. Porém, enraizada no teu ventre através dos meus ancestrais. Do convívio com as mulheres pelotenses, das quais sou descendente por laços de sangue, absorvi sábios ensinamentos que foram transmitidos através das conversas que mantivemos no de­correr das horas, dias, anos, décadas. Sempre havia algo de profun­do a comentar a respeito de assuntos, aparentemente, superficiais. Aliás, com elas, era impossível viver na futilidade do corriqueiro. Tudo tinha fundamento, fortes alicerces, consistentes observações, colocações sempre muito oportunas que encaixavam as peças do quebra-cabeça da vida. E isso tudo por decorrência direta, por serem elas herdeiras do teu acervo de cultura. Cultura que fomentas desde o berço em cada um dos teus filhos, que se nutrem da tua energia e seguem propagando o teu nome em todos os hemisférios.

Quanto a mim, escolhi, na idade da razão, na tenra idade do aconchego, viver em tuas retilíneas formas como se nelas eu en­contrasse o acalanto de sonhos e a realização de ideais. E encontro abrigo em tua generosidade hospitaleira e pródiga que faz com que eu me sinta filha querida e bem vinda.

Tuas calçadas têm o rastro dos meus passos, tuas esquinas têm o som da minha voz ao vento, tuas árvores têm meu nome gra­vado em amores que nunca se perderam.

E, afora qualquer mera coincidência, me sinto em casa na tua casa.

Aliás, tuas antigas casas abrigam segredos inesgotáveis que também me pertencem por essas razões que a própria razão desco­nhece. Silenciosa, vagueio pela casa das palavras nos corredores da tua biblioteca valiosa. Deslizo pelas margens do arroio que beira as charqueadas e vez ou outra me hospedo num dos quartos da casa da Baronesa.

Estive na plateia assistindo e, no palco atuando, nos teus teatros, vivenciando as artes, que tanto cultuas. E, agora, me sinto como tu, presenteada cm a reabertura do centenário Theatro Sete de Abril.

Parabéns, Princesa do Sul, pela celebração de mais um aniversário!

patrocinadores maria alice estrella

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