Existe um futebol que não aparece nas capas dos famosos. Sem holofote, sem mercado financeiro, sem estúdio de televisão. Mas com algo que o outro, o grande e reluzente, perdeu no caminho: a alma intacta. É nesse futebol que o GE Brasil vive. E é nesse futebol que o GE Brasil vence.
O Santa Cruz resistiu como resistem os times que têm honra. Na Baixada, o Galo transformou o campo numa guerra de trincheiras, e a classificação do rubro-negro pelotense só veio quando o relógio já havia dito tudo — aos 45 do segundo tempo, naquele minuto em que o futebol revela quem tem fé e quem tem apenas planos. O gol foi uma confissão: este Brasil não recua, não negocia com o desespero, não faz acordo nem mesmo com o empate. Classificado. De novo. Como quem já viu este filme porque é autor do roteiro.
Agora vem o Gramadense. O Trem da Serra desce com a altivez de quem conquistou o inédito: uma vaga na Série D, um salto que reescreve a história de um clube e de uma região. Adversário que merece respeito — bem armado, disciplinado, chegado até aqui por mérito. Mas o Brasil também chegou por mérito. E com algo a mais: a fome do bi-campeonato, do primeiro título da era SAF. Não é apenas uma taça. É uma afirmação.
Que competição esta Copa da Federação nos presenteou! Enquanto o mundo parava para a Copa do Mundo FIFA — seus estádios imensos, suas emoções enlatadas —, aqui no sul do sul o interior gaúcho jogava seu próprio mundial. Sem câmeras internacionais, sem patrocínio global. Mas com uma beleza que Galeano reconheceria imediatamente: o futebol guerreiro, o futebol que ainda transpira verdade. Pelotas contra Gramado. Zona Sul contra Serra.
A finalíssima será no Caldeirão do Bento Freitas. Em casa. Diante da torcida que pulsa na batida da Garra Xavante. O bi está próximo, o título da nova era está próximo, e este time está no limiar de uma conquista que pertencerá para sempre àqueles que acreditaram quando era mais fácil duvidar.
Enquanto isso, lá no grande circo global, a Seleção caiu. Eliminada pela Noruega — gente de fiordes e invernos intermináveis, que não tem samba, mas tem sangue frio — numa tarde em que o pênalti virou filosofia existencial. Porque um pênalti no zero a zero não é só um chute: é o momento do cobrador carrasco, do goleiro reduzido a adivinho, e do jogo inteiro ficar dependurado num instante. Perder esse instante é entregar ao adversário a convicção de que ele pode vencer. Fim de uma era? Começo de outra? Talvez as duas coisas, como costuma ser quando um ciclo se encerra sem avisar.
Bem, por aqui também perdemos um pênalti. Mas soubemos superar, na raça, a resistência alheia. E, então, o Brasil que não amarela tem mais uma final pela frente.
Rogério Peres
Publicitário, cineasta e cientista político (interino).



