Em relação ao futebol sempre fui um mero torcedor. Colorado de berço, vindo para Pelotas com 10 anos, converti-me também em torcedor xavante, vivo essa dualidade sem dramas. E como não poderia deixar de ser, também sou apaixonado pela seleção brasileira, ou, pela idealização coletiva do que seria a seleção brasileira. Mas nunca fui um especialista no tema, no entanto, ao acompanhar essa Copa do Mundo de 2026, me arrisquei a algumas reflexões, iniciadas da lembrança do prefácio de Mauro Beting no livro Sócrates de Tom Cardoso: “Aqui tá ruço, Doutor. Não tô falando do Ruço, o volante cabeludo que fez um gol na invasão do Maracanã dois anos antes de você virar maloqueiro e sofredor, graças a Zeus! Tá difícil porque falta inteligência. Coragem. Técnica. Futebol. Falta você nesse mundo.”
Há uma melancolia profunda na frase de Mauro Beting. Ela não é apenas uma homenagem a Sócrates, mas um diagnóstico de uma época. Quando afirma que “falta inteligência, coragem, técnica, futebol”, o jornalista lamenta o desaparecimento de uma forma de compreender o jogo que transcendia o resultado e o mercado. Falta, sobretudo, uma visão do futebol como expressão cultural e humana. E essa ausência não pode ser compreendida sem analisar a transformação do futebol em uma das mais lucrativas mercadorias do capitalismo contemporâneo.
O capitalismo possui uma característica fundamental: sua capacidade de transformar praticamente tudo em mercadoria. O trabalho humano, a natureza, a cultura, a arte e até os afetos passam a ser organizados segundo a lógica da compra, da venda, da acumulação e da rentabilidade. O futebol, que nasceu como prática social e foi reinventado pelo povo brasileiro como manifestação artística, não escapou dessa dinâmica.
A genialidade do futebol brasileiro, me parece, jamais foi resultado de métodos científicos ou de grandes investimentos empresariais. Ela nasceu nas ruas, nas várzeas, nos campinhos de terra, nas praias, nos terrenos baldios e nos quintais das periferias. Era produto de uma cultura popular construída coletivamente, onde crianças passavam horas improvisando partidas, aprendendo a driblar pedras, buracos e adversários muito antes de aprenderem esquemas táticos. O drible, a ginga, a irreverência e a criatividade eram patrimônios culturais produzidos por milhares de brasileiros anônimos.
Foi justamente essa riqueza cultural que o capitalismo apropriou. Quando percebeu que o futebol movimentava paixões e enormes fluxos financeiros, o capital reorganizou toda sua estrutura. Clubes passaram a ser empresas, atletas tornaram-se ativos financeiros, torcedores foram redefinidos como consumidores, estádios transformaram-se em arenas de entretenimento e crianças passaram a ser vistas como investimentos de alto retorno econômico. O futebol deixou de existir prioritariamente para jogar bola; passou a existir para produzir valor econômico.
Essa transformação produziu uma inversão silenciosa. Antes, o mercado girava em torno do futebol. Hoje, o futebol gira em torno do mercado.
As categorias de base ilustram bem esse processo. Em vez de formar jogadores capazes de compreender o jogo, desenvolver criatividade e personalidade, muitos centros de formação passaram a produzir atletas padronizados, fisicamente preparados para atender às exigências do mercado europeu o mais cedo possível. A pergunta central deixou de ser “como formar um grande jogador?” para tornar-se “como vender rapidamente um ativo valioso?”.
O resultado é um processo de industrialização do talento. O menino que antes aprendia a improvisar tornou-se objeto de protocolos, métricas, estatísticas, avaliações biométricas e planejamento financeiro. O capitalismo, nesse sentido, não destrói necessariamente a técnica; ele a subordina à eficiência econômica. No lugar da invenção, privilegia-se a previsibilidade. No lugar da ousadia, a segurança. No lugar da arte, a produtividade.
Essa lógica ajuda a compreender parte da sensação de que o futebol brasileiro perdeu algo essencial. Não se trata apenas de resultados esportivos ou da conquista de títulos. Trata-se da perda de identidade. Durante décadas, o Brasil foi reconhecido internacionalmente por um modo singular de jogar futebol, profundamente vinculado à cultura popular, à mestiçagem, ao improviso e à criatividade coletiva. Era uma linguagem própria. Hoje, observa-se um processo de homogeneização mundial. As grandes escolas táticas se aproximam. Os jogadores circulam cada vez mais cedo pelos mesmos centros de treinamento. Os clubes seguem metodologias semelhantes. O mercado global reduz diferenças culturais em nome da padronização produtiva. O futebol brasileiro, que antes exportava uma forma de jogar, passou muitas vezes a importar modelos concebidos segundo outras realidades.
Essa reflexão ganha ainda mais força no contexto da atual Copa do Mundo de Futebol. Direitos de transmissão movimentam bilhões, contratos publicitários conectam marcas globais a seleções nacionais, jogadores tornam-se plataformas internacionais de marketing e o evento é cuidadosamente organizado como produto de entretenimento para consumo mundial.
Nada disso impede que o futebol continue emocionando milhões de pessoas. Mas revela uma contradição importante: enquanto a paixão permanece profundamente popular, a apropriação econômica dessa paixão concentra-se em grandes conglomerados empresariais, fundos de investimento, patrocinadores e grupos econômicos que transformam o espetáculo esportivo em extraordinária fonte de acumulação de capital.
Quando Mauro Beting escreve que “falta você nesse mundo”, a frase adquire um significado ainda maior. Não se refere apenas à ausência de um craque. Refere-se à falta de um futebol capaz de preservar sua dimensão artística diante da expansão permanente da lógica mercantil.



