As mulheres que fazem a arte acontecer em Canguçu

Além de desenvolverem suas próprias trajetórias, elas também incentivam novas gerações a acreditar na arte como forma de expressão e participação na comunidade (Foto: Divulgação)

Em Canguçu, o trabalho de mulheres artistas têm contribuído para fortalecer os movimentos culturais do município. Além de desenvolverem suas próprias trajetórias, elas também incentivam novas gerações a acreditar na arte como forma de expressão e participação na comunidade. Três exemplos disso são a musicista Letícia Leal, a atriz Dhiule Volz e a cartomante Amanda Beatrice Pereira.

Letícia Leal

A promotora cultural, Letícia de Mello Cardoso Leal, idealizou a criação do documentário “A Arte de Ser Mulher”, produção totalmente local que estreou em um evento público no Cine Teatro, em março deste ano. O projeto viabilizado por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) apresentou reflexões sobre arte, identidade, resistência e pertencimento, a partir das histórias de artistas canguçuenses que atuam ou atuaram em diferentes linguagens, como música, dança, pintura e teatro.

Lets Ollem, como artisticamente é conhecida, também atua como musicista e fotógrafa. Mas, além das apresentações, ela busca provocar reflexão e incentivar novas gerações de artistas. “A arte transforma pessoas, fortalece, cria pertencimento e abre os caminhos. Hoje, grande parte do meu trabalho é pensado para toda a comunidade, mas com um olhar especial para mulheres e meninas. Isso porque eu sei o quanto é difícil crescer acreditando que a arte pode ser uma profissão, um espaço de fala e uma forma legítima de ocupar o mundo”, define.

A musicista busca oferecer referências ao público feminino, que por muito tempo não se via representado nem encontrava modelos no meio artístico. “Quando comecei, não tive muitas referências próximas, nem o incentivo que tantas vezes faz diferença para que uma menina continue acreditando nos seus sonhos. Por isso, considero tão importante que as mulheres artistas estejam visíveis, ocupando espaços, aparecendo na mídia, realizando projetos e mostrando seus trabalhos”, destaca.

“Cada mulher artista que conquista seu espaço ajuda a dizer para outras meninas que elas também podem estar ali”, defende a artista que também vê os desafios de atuar com cultura em uma cidade pequena. Segundo Letícia, as dificuldades estão principalmente relacionadas à falta de apoio e investimento.

Apesar disso, ela destaca o trabalho de uma geração de artistas que vem se organizando, desenvolvendo projetos e fortalecendo a cultura local por meio da atuação coletiva. “Quero contribuir para que a arte seja cada vez mais valorizada e compreendida como um trabalho sério e necessário. Assim como qualquer outra profissão, a cultura movimenta pessoas, gera oportunidades e ajuda a construir uma sociedade mais sensível e mais humana”, propõe

Para a produtora cultural, seguir trabalhando com arte é uma escolha motivada pela crença de que ela pode transformar realidades. “Se, através do meu trabalho, eu conseguir inspirar ao menos uma menina a acreditar no seu talento e seguir seu caminho artístico com mais coragem do que eu tive no início, então todo esse esforço já terá valido a pena”, comenta.

Dhiule Völz

A atriz e professora de teatro Dhiule Völz que também participou do documentário “A arte de ser mulher” traz uma perspectiva relacionada aos desafios de atuar no setor artístico de Canguçu. “Ser artista em Canguçu é quase como uma missão impossível. Todos os dias tentamos mudar um pouquinho a realidade da nossa cidade, que historicamente enfrenta desafios emocionais e sociais profundos (já fomos uma cidade citada em pesquisa nacional pra elevada taxa de suicídio, por exemplo).”

Segundo a atriz, fazer arte no município exige persistência diante da falta de incentivo, escuta e reconhecimento. Para ela, os artistas ainda precisam provar diariamente seu espaço. “Ainda assim, continuamos. Eu precisei da arte em momentos importantes da minha vida, e sei que não fui a única”, define.

Para ela, o acesso à arte vai além do entretenimento e desempenha um papel importante na vida das pessoas. “É uma ferramenta de pertencimento, de encontro e de esperança. Por isso sigo trabalhando, porque, assim como a arte me ajudou a encontrar um caminho, acredito que existem muitas pessoas em Canguçu que precisam que esse trabalho continue existindo”, relata.

Amanda Beatrice

Cartomante desde 2020, Amanda Beatrice Guerra Dias Pereira da Cunha afirma que sua atuação ligada à arte surgiu a partir da preservação de uma herança cultural familiar e, mais recentemente, pelo envolvimento com o ativismo cultural, incorporado à sua forma de atuar e se posicionar na comunidade. Ela vem atuando na representação da cultura cigana, que possui iniciativas diversas marcadas por expressões artísticas como música, dança, artesanato e tradições orais, e laços familiares e comunitários fortes.

Ela também atua na criação da Associação Romani Canguçuense Santa Sara Kali, iniciativa que surge da necessidade de enfrentar o apagamento histórico da cultura romani, muitas vezes reduzida a estereótipos, folclorizada ou invisibilizada.

“Foi através de cerimônias com medicinas ancestrais que acessei uma compreensão muito profunda: minha mãe faleceu quando eu tinha apenas 11 meses e, por isso, não pôde me transmitir os saberes da cultura cigana que somente ela poderia compartilhar comigo. Foi então que iniciou esse processo de resgate ancestral. Passei a pesquisar minhas raízes e a incorporar essas referências nas minhas criações, transformando essa busca em parte da minha identidade artística e cultural”, relembra.

Sobre a participação das mulheres nos movimentos culturais de Canguçu, ela relembra desafios como o machismo e a misoginia. “Mesmo que em menor intensidade do que em outros ambientes, ainda é raro ver uma mulher assumir a linha de frente de um projeto em que acredita sem ser diminuída ou tratada como alguém que não sabe do que está falando. É preciso muita resiliência para não desistir no meio do caminho”, lamenta.

A cartomante comenta que as mulheres têm papel fundamental no fortalecimento da cultura, em uma estrutura social que, até pouco tempo, e ainda presente em muitas famílias, ensinava que elas não podiam sonhar, apenas cuidar da casa, dos filhos e dos maridos. “Se são justamente as mulheres que sustentam essa estrutura familiar, também são elas que transmitem os valores às próximas gerações. E só conseguimos oferecer aquilo que recebemos (…). Cada vez mais mulheres despertam para a ideia de que podem realizar grandes feitos e ocupar outros espaços”.

Amanda conta que o documentário “A arte de ser mulher” foi um projeto importante em sua trajetória artística. Ela relata que ter acesso ao conteúdo lhe trouxe inspiração ao perceber que, por ser mulher, já se reconhecia como artista. Ao mesmo tempo, entendeu que outras manifestações artísticas também fazem parte de si e precisavam ganhar espaço. “Entendi que, se eu quisesse quebrar o ciclo do não reconhecimento e ensinar à minha filha que qualquer pessoa pode ser artista, eu precisava ser o exemplo”, relata.

Sobre os desafios para quem atua com cultura no município, Amanda falou da faltam oportunidades para quem está começando. “Não existem projetos consistentes que incentivem artistas iniciantes, aqueles que ainda estão aprendendo e construindo sua trajetória. Há pouco incentivo pra aulas e oficinas de teatro, canto, violão, dança e tantas outras formas de expressão artística. Como consequência, também faltam oportunidades de contratação, dificultando que artistas construam currículo, portfólio e experiência profissional” define.

Além disso, deixou uma mensagem para outras mulheres que desejam atuar como agentes de cultura. “Não desistam de sonhar nem de imaginar um mundo diferente, mas sem tentar apagar de onde vocês vieram. Conhecer nossas origens é o que nos dá direção. É olhando para trás que encontramos muitas das respostas necessárias para seguir em frente com consciência e propósito”, comenta.

Ela ainda destaca a importância de inspirar as próximas gerações “Precisamos ser exemplos para as próximas gerações de que é possível cuidar, amar, criar e, ao mesmo tempo, realizar sonhos. Mostrar que mulheres também podem ser grandes construtoras de cultura e verdadeiras máquinas realizadoras de sonhos”, define.

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