
Ardências, fisgadas, fadiga extrema e redução da mobilidade são alguns dos sintomas das doenças crônicas que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afetam mais de 30% da população. Classificada como uma dor que perdura por mais de três meses, o sofrimento persistente muitas vezes não tem cura e conta somente com o tratamento contínuo da morbidade, acarretando, também, impactos sociais e emocionais. Por isso, a lei 15.422/2026, publicada em junho, define diretrizes de cuidado aos pacientes e determina que o dia 5 de julho passe a ser o Dia Nacional de Conscientização e Enfrentamento da Dor Crônica.
Em Pelotas, entre as principais doenças crônicas registradas em atendimentos entre junho de 2025 e maio de 2026, conforme Etiene Alves, coordenadora das Equipes Multiprofissionais (eMulti), observou-se maior frequência de cefaleia, com 484 registros, seguida por sinais e sintomas na região da lombar, com 469 registros e dores musculares, com 423 registros. Também foram identificados sinais e sintomas na região dorsal, doenças ou síndromes da coluna cervical, tendinite e dores nas articulações. Ademais, segundo ela, quanto à distribuição por sexo, figura a predominância de registros entre mulheres em comparação aos homens.

A dor do diagnóstico
De acordo com a reumatologista Caroline Xavier, as principais doenças reumatológicas que levam à dor crônica são a fibromialgia, osteoartrite, artrite reumatóide e espondiloartrites. “O desafio central é que não existe relação direta entre a quantidade ou tipo de patologia orgânica e a intensidade da dor. A experiência de dor contínua é moldada por um somatório de fatores médicos, psicossociais e comportamentais, tornando a avaliação e diagnóstico não diretos”, explica. Conforme ela, nesse processo, é fundamental entender onde e em quais situações de vida a morbidade iniciou.
Na vida de Jéssica Pereira, de 35 anos, o diagnóstico de osteoporose veio há dois anos, em um momento considerado um dos mais bonitos na vida de uma mulher: a maternidade. Para ela, lidar com uma doença associada ao envelhecimento foi desafiador. “Foi um choque enorme. Eu tinha apenas 33 anos e nunca imaginei que pudesse ter osteoporose, muito menos sofrer múltiplas fraturas na coluna. Quando recebi o diagnóstico, senti medo e muita insegurança sobre o futuro. É difícil aceitar uma doença que a maioria das pessoas associa à terceira idade quando você acabou de se tornar mãe e deveria estar vivendo um dos momentos mais felizes da vida”, conta.
Ela relata que os primeiros sintomas apareceram cerca de dois meses após o nascimento de seu filho. “No início, achei que fosse consequência da gravidez, da cesárea, da amamentação ou de carregar um bebê o tempo todo. Mas a dor só piorava, até o ponto em que atividades simples, como levantar da cama, pegar meu filho no colo ou caminhar por alguns minutos se tornaram extremamente difíceis”. Após exames de imagem, foram identificadas várias fraturas vertebrais causadas pela osteoporose associadas à gestação e à lactação – uma condição rara.

A doença mudou completamente a sua rotina. Jéssica precisou se afastar do trabalho por um período e, até hoje, precisa planejar suas atividades para que não gerem uma sobrecarga. “Passei muito tempo sem conseguir dirigir longas distâncias, viajar ou simplesmente brincar com meu filho como eu gostaria. Atividades físicas também precisaram ser totalmente adaptadas”.
Para ela, o mais desafiador foi perceber que não poderia cuidar de seu bebê como gostaria. “Sentir dor constante enquanto ele precisava de mim foi devastador. Também foi muito duro descobrir que eu tinha sofrido várias fraturas na coluna e lidar com a incerteza sobre quanto tempo levaria para voltar a ter uma vida próxima do normal”. Mesmo contando com o apoio da maioria das pessoas da sua volta, a osteoporose trouxe sentimentos de isolamento e insegurança. “Conviver diariamente com dor crônica, limitações físicas e medo de novas fraturas gera ansiedade, frustração e momentos de tristeza”.
O caminho para o tratamento
A reumatologista explica que a dor é uma resposta muito valiosa do corpo, pois indica que algo está lesionado ou funcionando de maneira errada. “É um aviso que não deve ser negligenciado. Porém, deve ser elucidada a causa desta dor, isso é fundamental”, diz. Assim como cada paciente é único, seu tratamento também. “Ele é totalmente individualizado, buscando compreender as causas, fatores de piora, doenças associadas e impacto na vida prática do paciente. Geralmente são usadas medicações de ação central, mas o tratamento depende de medidas não farmacológicas, como exercícios e nutrição”, completa.

O fisioterapeuta Ícaro Islabão pontua que o exercício físico pode auxiliar em certas lesões e atrapalhar em outras. O equilíbrio se encontra no momento apropriado no tratamento e na avaliação e sugestão do profissional. “Patologias como a fibromialgia é indicada e necessária a intervenção junto ao exercício físico imediatamente. Já, algumas lesões traumato-ortopédicas que possuem fator mecânico como causador deve se avaliar bem em que momento indicar os exercícios”, completa.
Ele aponta que cada paciente e quadro é diferente um do outro, podendo variar o prazo de melhora na autonomia e alívio das dores. “A reabilitação traz de volta a autonomia, ou seja, devolve sua ‘vida normal’. Expõe o paciente aos exercícios, que depois, em retorno à sua rotina, serão necessários para a execução de seus movimentos”.
Quanto aos principais erros cometidos por quem sofre com esse tipo de dor, Islabão destaca a automedicação e a demora em procurar ajuda profissional. “90% dos profissionais de saúde são capacitados e almejam realmente curar seus pacientes, porém, escuto relatos de pacientes que não costumam fazer sua parte no tratamento, visto que, comumente, é a parte mais importante para que as condutas elegidas pelo profissional tenham sucesso”, avalia.
Para Caroline, algumas crenças podem atrasar um tratamento efetivo. “Existem alguns mitos que pacientes com dor crônica não devem fazer exercícios, que é aceitável sentir isso com o passar da idade, associar a alteração em um exame de imagem a dor e então acreditar que toda culpa da dor é daquela lesão, ou, se não aparecer nada nos exames, achar que não tem nenhuma doença e acreditar que vitaminas ou suplementos vão curar a sua dor”, elenca.

Rotina e limitações
Mesmo utilizando remédios contínuos, Vanuza Motta, de 53 anos, conta que precisa lidar com dores nos braços, formigamentos, sensação de choque e câimbras. Ela possui discopatia degenerativa com radiculopatia crônica, e seu diagnóstico foi gradual. “Em 2001 eu comecei a sentir dores no ombro e nos braços como se fosse uma torção. Acabei indo ao médico, e ele me falou que era cervicalgia, me receitando antinflamatórios e fisioterapia. Em 2005, fui diagnosticada com hérnia de disco na cervical e depois de vários tratamentos sem sucesso fui encaminhada para uma cirurgia, onde coloquei uma placa e 6 parafusos. Hoje tenho uma hérnia reincidente na cervical e outra na lombar”, conta.
Até mesmo as atividades físicas prejudicam as dores de Vanuza. Ela relata que gostava de dançar e fazer exercícios, mas sente que piora o quadro. Além disso, as doenças a impedem de ter uma vida social ativa. “Estou afastada do trabalho por tempo indeterminado desde setembro de 2025. Sem contar que estudo e, na maioria das vezes, entro de atestado, realizando trabalhos em casa”, afirma.
No entanto, para ela, a pior parte é como a dor afeta seu sono e bem-estar emocional. “Sofro às vezes calada para não preocupar meus filhos e família, pois sei que não tem cura, e não acho certo que deixem de seguir a vida em função da minha doença”, relata. Nos momentos de intensificação da condição, ela procura rezar, assistir um filme ou fazer qualquer outra coisa que a auxilie a esquecer da dor. “Os dias que não sinto nenhuma dor são raros, mas são ótimos, uma pena que não dura”, lamenta.
Acolhimento e apoio
Em Rio Grande, segundo Carliuza Luca, coordenadora do Núcleo de Educação em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (NEPICS) e da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), as principais patologias são justamente as doenças crônicas. “Grande parte dessas condições apresenta evolução clínica acompanhada por quadros de dor persistente. Muitas dessas doenças também estão associadas ao sofrimento emocional, ansiedade, depressão e redução da qualidade de vida”, pontua.

Uma das doenças que não tem cura é a fibromialgia. O diagnóstico dessa doença na vida de Nadiane Malta, de 50 anos, hoje presidente da Associação de Apoio às Famílias e Pessoas com Fibromialgia e Dores Crônicas em Rio Grande e Região-RS (AssFibro), demorou três anos para ser completamente fechado. “Os sintomas começaram de forma discreta. Com o passar do tempo, as dores se tornaram mais intensas e frequentes, e dormir realmente pareceu o pior desafio. Então iniciou a redução de força mesmo com objetos leves e a perda de memória”.
Ela ressalta que convive diariamente com a dor, e muitas vezes, acaba perdendo a vontade de estar com as pessoas. “Ela aumenta em períodos de estresse, noites mal dormidas ou quando faço esforço físico além do que meu corpo suporta”. Nadiane precisa frequentemente reorganizar seus compromissos, diminuir o ritmo e abrir mão de atividades sociais, já que seu corpo não responde como ela gostaria.
A presidente combina acompanhamento médico com fisioterapia e atividades físicas. Todavia, para ela, é fundamental cuidar da saúde emocional tanto quanto da dor física. “Existem dias mais difíceis do que outros, mas aprendi que é possível viver com mais qualidade quando recebo apoio sou compreendida e mantenho o tratamento. A maior dificuldade não é apenas a dor, mas também lidar com a falta de compreensão das pessoas, já que a fibromialgia é uma doença invisível. Por isso, informação, empatia e acolhimento fazem toda a diferença”, relata.
Reforçando o impacto emocional, a reumatologista enfatiza que as doenças contínuas podem ser determinantes na rotina de uma pessoa. Assim, a compreensão dos familiares e amigos é imprescindível para um maior sucesso no tratamento. “A dor persistente para muitas pessoas é a chefe de suas vidas, infelizmente. É ela que decide se você vai dormir hoje, se vai a uma festa, se vai conseguir levantar da cama, se vai limpar a casa, e isso não é uma escolha. Para quem vive com dor, ser ouvido com empatia e acolhimento, orientado e encorajado a assumir o protagonismo na sua existência transforma a história de sua vida”, finaliza.



