Pelotas: os desafios de proteger idosos em uma cidade que envelhece

No dia 15 de junho é celebrado o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. (Foto: Reprodução)

Pelotas envelhece em ritmo acelerado. Ao mesmo tempo em que cresce o número de pessoas com mais de 60 anos, aumenta também um problema muitas vezes invisível, a violência contra a pessoa idosa. Dentro de casa, em instituições ou por meio de golpes financeiros, milhares de idosos têm seus direitos violados todos os anos. Em muitos casos, os agressores são justamente aqueles que deveriam protegê-los. Segundo o Mapa da Violência da Zona Sul 2025, divulgado pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), os crimes de maus-tratos contra idosos cresceram 56,25% na região em dois anos. Em Pelotas, o aumento é ainda mais alarmante, os delitos subiram 135% entre 2022 e 2024.

Segundo dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população idosa brasileira cresce rapidamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que, pela primeira vez na história, haverá mais idosos do que crianças no planeta.

Em Pelotas, a transformação também é evidente. Atualmente, 39.368 idosos estão cadastrados na Atenção Primária à Saúde, número que representa 58,34% da população idosa do município. Mas a prolongação da vida traz desafios além da saúde. Entre eles, a necessidade de enfrentar a violência praticada contra quem deveria viver essa etapa da vida com proteção e respeito.

O presidente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa de Pelotas (CMPI), Wili Wetzel Jr conta que o principal desafio que o município enfrenta para garantir a proteção e os direitos da pessoa idosa está na rede de cuidado, que abrange a família, a comunidade e o poder público através de políticas voltadas às necessidades dessa população. “A legislação contempla as mais diversas demandas do cuidado, mas os serviços não estão disponíveis por exemplo o Centro-Dia, Centro de Convivência, serviços especializados, entre outros”, diz.

A violência contra idosos vai além da agressão física. (Foto: divulgação)

A violência mora ao lado
A violência contra idosos vai além da agressão física, especialistas alertam que a violência assume diversas formas, como psicológica, financeira, patrimonial, institucional, além da negligência e do abandono. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) apontam que Pelotas registrou 56 notificações de violência contra idosos em 2021, 73 em 2022 e 75 em 2023. Entre os casos registrados, destacam-se violência física, psicológica, negligência e abandono.

De acordo com informações do Painel da Ouvidoria Nacional dos Direitos somente em 2025, Pelotas registrou 2.661 violações de direitos contra pessoas idosas, resultantes de 463 denúncias formais e 290 protocolos de atendimento. O município aparece entre os que mais registraram casos no Rio Grande do Sul.

Um problema maior do que os números mostram
Porém, os números estão longe de representar toda a realidade. A diretora da Divisão de Proteção ao Idoso da Polícia Civil, delegada Ana Luiza Caruso, afirma que a subnotificação ainda é um dos maiores obstáculos para o enfrentamento do problema. “Quando o idoso é agredido pelos seus familiares, ele não quer ver os netos ou os filhos presos, frequentemente ele aguenta aquela situação calada. Por razões de afeto e de amor, acaba tendo receio de fazer a denúncia. Em golpes, muitas vezes, eles têm receio de contar que foram enganados ou sofreram algum tipo de violência porque acreditam que a família pode entender isso como incapacidade para administrar a própria vida”, explica.

Um dos aspectos mais preocupantes da violência contra idosos é o perfil dos autores. De acordo com a Polícia Civil, nos casos de maus-tratos, apropriação de bens e violência patrimonial, os principais suspeitos costumam ser filhos, netos e até cuidadores. Segundo informações da Secretaria Municipal de Assistência Social, somente em 2022, 33 idosos foram atendidos por situações de violência intrafamiliar e outros 75 estavam em condição de abandono ou negligência.

Além da violência doméstica, os golpes financeiros tem chamado atenção das autoridades. Segundo a delegada, os estelionatos são atualmente os crimes mais frequentes registrados pela Delegacia de Proteção ao Idoso. A dificuldade no uso de tecnologias, a confiança em desconhecidos e a falta de informações sobre segurança digital tornam muitos idosos alvos preferenciais de criminosos. “Hoje existem novas modalidades e versões mais sofisticadas de golpes que exploram a vulnerabilidade de pessoas com menos familiaridade com o ambiente digital”, afirma.

A dificuldade no uso de tecnologias, a confiança em desconhecidos e a falta de informações sobre segurança digital tornam muitos idosos alvos preferenciais de criminosos. (Foto: reprodução)

A rede de proteção existe, mas enfrenta desafios
Para combater a violência contra idosos, Pelotas conta com uma rede formada por diferentes instituições. Entre elas estão os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), unidades de saúde, Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, Defensoria Pública, Ministério Público e forças de segurança.

Em 2022, o município instituiu oficialmente a Rede de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa (RENADI), responsável por articular ações entre diferentes órgãos e fortalecer o atendimento às vítimas. “A rede de proteção do município acolhe e protege, mas precisa avançar, e muito, pois a população envelhece e cada vez mais necessita de novos serviços para atender dignamente”, expressa Wetzel.

Entre as ações que o presidente do CMPI considera prioritárias para reduzir os casos de violência e promover um envelhecimento mais seguro na cidade estão políticas voltadas ao fortalecimento de vínculos; atendimento e instituições especializadas; debates sobre envelhecimento para tornar visível uma nova perspectiva do ‘envelhecimento sustentável’ e incluir os cuidadores familiares na rede de cuidados. Atualmente, a única instituição pública de longa permanência administrada pelo município dispõe de apenas 14 vagas para idosos em situação de vulnerabilidade social.

O que fazer em caso de violência contra a pessoa idosa?
O principal passo é denunciar aos canais de proteção. Se houver risco imediato, ligue para a Polícia Militar (190). Para orientações, registros e denúncias de violações, disque 100 (Disque Direitos Humanos) ou a Polícia Civil (197), que também opera por meio da Delegacia On-line.

Caso eu seja vítima de violência, como proceder?
Procure uma pessoa em que confie, fale sobre o que está acontecendo e peça ajuda a um profissional de saúde de uma unidade perto de sua casa, ou busque o Conselho do Idoso, Ministério Público ou a Delegacia do Idoso.

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