Pelotas, uma cidade conectada ao mundo

Estudantes do projeto de extensão cidades-irmãs da UFPel pesquisam sobre os acordos internacionais que ligam Pelotas a três cidades em diferentes continentes. (Foto: Esmeralda Faria)

Poucos pelotenses sabem, mas o município mantém relações oficiais com cidades da Europa, Ásia e América do Sul. As cidades-irmãs de Pelotas – Aveiro, Suzu e Colonia del Sacramento – representam laços construídas ao longo de décadas por meio da imigração, da cultura, da história, da educação e da diplomacia. Embora essas parcerias continuem formalmente ativas, grande parte de sua história permanece desconhecida pela população. Os acordos revelam semelhanças entre cidades separadas por milhares de quilômetros e ajudam a explicar como Pelotas construiu uma identidade que ainda pode ser percebida em sua arquitetura, em suas tradições e em suas relações culturais.

Cada acordo surgiu por razões diferentes. A relação com Suzu, no Japão, foi formalizada em 1963 e se tornou a primeira irmandade entre um município brasileiro e um japonês. O vínculo nasceu a partir da atuação do músico e diplomata pelotense Luiz Carlos Lessa Vinholes, que trabalhava na Embaixada do Brasil em Tóquio. Já a geminação com Aveiro de Portugal foi oficializada em 1996, motivada pela forte presença de imigrantes portugueses vindos daquela região na formação de Pelotas. Em 2005, foi a vez de Colonia del Sacramento localizada no Uruguai, cuja aproximação ocorreu em função das raízes açorianas e portuguesas compartilhadas pelas duas cidades.

Segundo a diretora de Relações Internacionais da Prefeitura de Pelotas, Esmeralda Faria, as semelhanças vão além da história. “A gestão atual reconhece que o tema ainda não atingiu todo o seu potencial de visibilidade e tem trabalhado para que as relações internacionais do município sejam cada vez mais transparentes e presentes no cotidiano da cidade. O Programa Pelotas Global representa, nesse sentido, um passo importante. É, em suma, uma forma de assegurar que o que foi construído ao longo dos anos não se perca, e que sirva de base sólida para o que ainda está por vir”, explica.

Esmeralda afirma que as relações de irmandade de Pelotas carregam um potencial que vai além do que já foi realizado. “No campo do turismo e da promoção cultural, Aveiro e Colônia do Sacramento são destinos com forte identidade histórica. Há espaço para desenvolver, de forma estruturada, iniciativas de divulgação recíproca e roteiros culturais que valorizem essas conexões, tanto para atrair visitantes quanto para fortalecer o sentimento de pertencimento da população às suas próprias origens”, diz.

Correspondências enviadas por estudantes de Suzu compõem parte do acervo do museu do Colégio Municipal Pelotense. (Foto: Manuela Santos/Secom)

Uma história que quase se perdeu
Apesar de pouco conhecidas, algumas dessas parcerias produziram resultados concretos. A relação com Suzu é considerada a mais documentada. Ao longo dos anos ocorreram intercâmbios estudantis, visitas de delegações japonesas e trocas de correspondências entre estudantes dos dois países. Em 1992, um grupo de alunos e professores japoneses esteve em Pelotas para atividades culturais e educacionais. Pelotas também possui a Praça Jardim de Suzu, localizada na Avenida República do Líbano, como símbolo dessa amizade.

Embora os acordos continuem formalmente ativos, a memória dessas relações enfrenta períodos de esquecimento. Ao iniciar pesquisas sobre o tema em 2019, integrantes do Projeto Cidades-Irmãs da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), encontraram dificuldades para localizar documentos e registros sobre as parcerias. Segundo a coordenadora do projeto e pesquisadora, Silvana Schimanski, muitas informações estavam dispersas e não havia um histórico organizado que permitisse compreender como os acordos surgiram ou quais atividades haviam sido realizadas.

Para a pesquisadora, os arranjos de cidades irmãs possuem como sua principal característica a aproximação cidadão. “Qualquer projeto só faz sentido se envolver as populações locais. É preciso desenvolver algo que permitam a convivência e as trocas. Por exemplo, na área de negócios, criar ‘vitrines’ para fornecedores e compradores se conectarem, reservar espaços e permitir que empresas das cidades irmãs enviem material para participarem como expositores – mesmo de forma virtual – nas feiras e eventos da cidade. Na área de educação, artes, cultura, esportes promover intercâmbios, mostras culturais, festivais que permitam a ida e a vinda de estudantes, artistas e atletas das cidades-irmãs em eventos”, afirma.

Relações que deixaram marcas
Uma das descobertas mais importantes do projeto foi a localização do estudo de viabilidade elaborado em 1991 por Regina Lucia Fiss – que hoje é vice-presidente cultural do Centro Português 1º de Dezembro – e Carmen Regina Pombo, documento que serviu de base para a futura geminação com Aveiro. Mas o processo começou mais cedo. Em 1989, as docentes tomaram conhecimento de uma bolsa de estudos voltada a pesquisadores brasileiros. O que inicialmente seria apenas uma oportunidade acadêmica acabou se transformando em um projeto de aproximação entre as duas cidades.

Com apoio da comunidade portuguesa local e orientação do professor Jorge Carvalho, da Universidade de Aveiro, as pesquisadoras passaram seis meses em Portugal realizando um estudo comparativo entre as duas comunidades. “Queríamos compreender as semelhanças entre as cidades e registrar essa ligação histórica”, recorda Regina.

Durante a pesquisa, as semelhanças entre Pelotas e Aveiro tornaram-se ainda mais evidentes. Conhecida como “Veneza Portuguesa”, Aveiro é cortada por canais e possui forte relação com a água. A característica lembra a realidade de Pelotas, marcada pela proximidade com a Laguna dos Patos e o Canal São Gonçalo. As conexões também aparecem na paisagem urbana. Segundo ela, muitos elementos arquitetônicos encontrados em Pelotas têm influência portuguesa. “As charqueadas e os solares guardam muito dessa herança. Quando estudamos Aveiro percebemos que existiam vínculos maiores do que imaginávamos”, afirma a vice-presidente.

Além da cooperação acadêmica, as trocas chegaram na área cultural. Em 2014, durante a Fenadoce, doceiras aveirenses estiveram em Pelotas para ministrar oficinas sobre a produção dos tradicionais ovos moles, um dos símbolos gastronômicos de Aveiro e uma herança trazida pelos imigrantes portugueses.

As geminações revelam semelhanças como na
produção dos tradicionais ovos moles. (Foto: Associação Doce Pelotas)

Cidade-irmã nacional
Em 2005, durante a 13ª Feira Nacional do Doce (Fenadoce), a Prefeitura de Pelotas e a Prefeitura de Aracati (CE) firmaram acordo de geminação. A conexão entre os municípios se dá pelo charqueador português José Pinto Martins.

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