O Fio da Meada: Lições aos setenta e um anos

Manoel Jesus, educador. (Foto: Divulgação)

O tempo possui uma geometria própria, avessa à rigidez do calendário. Ao alcançar os setenta e um anos neste cinco de junho, surge a necessidade de alinhavar um inventário de certezas provisórias lapidadas ao longo da travessia. Esse exercício analítico inicia-se no ritual diário de matear em silêncio, o autêntico refúgio onde o ruído do mundo não subtrai a paz interna. Desse recolhimento, brota a clareza de que a caminhada é estritamente pessoal: a realização não depende de terceiros e, embora outros possam aplainar a estrada, ninguém poderá dar os passos em lugar de outrem.

A maturidade ensina também a geometria dos afetos e a ciência do cuidar. Torna-se imperativo selecionar as conexões, distinguindo os amigos de ocasião, que partilham apenas o instante, dos amigos de alma, que respeitam o tempo alheio. Da mesma forma, acolher o próximo enquanto as forças permitem exige a sabedoria de aceitar o ciclo natural da vida, reconhecendo que um dia o amparo alheio será necessário. No zelo de um cuidador diante da vulnerabilidade reside uma das maiores lições de humanidade, uma percepção que desmistifica ídolos e revela que todos carregam luzes e sombras.

Evitar a idolatria previne a decepção, sem que isso signifique rejeitar uma mão estendida. Trata-se, essencialmente, da arte de governar os próprios impulsos, pois os anos não transformam as pessoas, apenas as revelam. Há uma dignidade existencial que passa inclusive pela postura corporal: manter-se ereto protege a estrutura física e sustenta a autoestima diante dos espelhos da vida. Afinal, a existência é tecida em miudezas, e a verdadeira nutrição reside em valorizar os pequenos instantes felizes do cotidiano, os quais garantem o fôlego necessário durante as inevitáveis tempestades.

Nesse cenário, as ferramentas contemporâneas devem ocupar seus devidos lugares, posicionando a tecnologia como serva, jamais como senhora. Os artefatos digitais preenchem as horas, mas exaurem o espírito se não forem mediados pela seletividade. A autonomia na maturidade passa a exigir duas aquisições fundamentais: um par de tênis e um dispositivo eletrônico de leitura. O primeiro convida a exercitar o corpo nas caminhadas cotidianas; o segundo atua como uma janela cultural para o mundo, garantindo que a comunicação e a interação com o outro permaneçam vivas, independentemente de limitações físicas.

Por fim, consolida-se a urgência do agora. Embora a preparação para o inevitável seja um exercício elementar de realismo, converter-se em refém do fim significa desperdiçar a riqueza do presente. Viver bem, em termos absolutos, consiste em saborear o instante atual como um território único e insubstituível. Aos setenta e um anos, constatando que o amadurecimento confere a capacidade de governar os próprios passos, o fio da meada se estende não em direção ao passado nostálgico, mas ao presente que desvela novos horizontes e entrega promessas a cada amanhecer.

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