Mulheres encontram no empreendedorismo uma alternativa à falta de oportunidades

Em Pelotas, mulheres transformam desafios cotidianos em negócios próprios e refletem a realidade de mais de 590 mil empreendedoras gaúchas. (Foto: Divulgação)

O despertador toca cedo, mas a rotina de Taiane Rosso já havia começado muito antes. Entre pedidos da hamburgueria, publicações nas redes sociais, tarefas domésticas e os cuidados com as filhas, ela construiu uma trajetória semelhante à de milhares de brasileiras que encontraram no empreendedorismo uma alternativa para gerar renda, conquistar independência financeira e conciliar a vida profissional com a maternidade.

A história de Taiane ajuda a explicar um movimento que cresce no Rio Grande do Sul. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Estado conta com cerca de 590 mil mulheres à frente de seus negócios. Em Pelotas, por trás dos números estão histórias que transformaram necessidade, vocação e persistência em fonte de sustento para suas famílias.

Empreender sem deixar de cuidar
A jornada de Taiane não termina quando as portas do negócio se fecham. Assim como muitas mulheres, ela divide o tempo entre a empresa e as responsabilidades familiares. A realidade aparece também na pesquisa realizada pelo Sebrae, 76% das entrevistadas têm filhos e 17% apontam a dificuldade de conciliar a gestão do negócio com a criação das crianças como um dos principais desafios da rotina. A pesquisa mostra que as mulheres dedicam, em média, 9,1 horas por dia aos seus negócios.

Taiane já administra a Hella’s Delivery (@hellasdelivery) há seis anos. “Eu escolhi ser empreendedora e me apaixonei. Saber que é um legado que vai permanecer e poder proporcionar muitas experiências a minha família me dá uma força maior. Gosto de salientar a importância do parceiro se fazendo presente. Aqui em casa somos todos parceiros e isso facilita um pouco mais. Já houveram momentos de exaustão, mas desde então estou ressignificando minha vida, meu modo de pensar e mantenho a calma. Que cada fase entre maternidade e empreender tem seus desafios e bençãos”.

A coordenadora regional do Sebrae Sul, Caren Vinhas, observa três cenários no setor: as empreendedoras por escolha, por necessidade e por flexibilidade para conciliar maternidade, cuidados com a família e trabalho. “Existe um fator muito bonito que aparece bastante na nossa região, muitas mulheres começam a empreender a partir de um dom, de uma habilidade ou de algo que já faziam com carinho no dia a dia. Seja na culinária, no artesanato, na beleza, na costura ou em serviços, elas acabam transformando talento em fonte de renda e autonomia”, diz.

Caren também aponta que a sobrecarga ainda é uma das marcas do empreendedorismo feminino. Segundo ela, embora as mulheres estejam cada vez mais presentes no ambiente empresarial, continuam acumulando funções dentro e fora de casa. “Mesmo quando possuem apoio familiar, muitas empreendedoras seguem sendo as principais responsáveis pelos cuidados da casa e dos filhos. Isso faz com que a jornada de trabalho seja significativamente maior”, explica.

Entre as principais inciativas da instituição está o Sebrae Delas, programa que trabalha desenvolvimento de comportamento empreendedor, gestão, liderança, posicionamento e fortalecimento de negócios liderados por mulheres. “Aqui na região sul temos atuado muito forte na criação de redes, grupos de mulheres empreendedoras, encontros, eventos, capacitações e ações de conexão. Muitas mulheres chegam até nós após perderem o emprego ou precisarem aumentar a renda da família e o mais interessante é que muitas vezes elas começam desacreditadas, achando que o negócio é ‘pequeno demais’, mas aos poucos vão se estruturando, formalizando o Microempreendedor Individual (MEI), aprendendo gestão e crescendo”, comenta.

A empresária, empreendedora ou quem ainda está pensando em empreender e quiser conhecer mais sobre o Sebrae Delas, pode procurar a unidade do Sebrae em Pelotas, na rua Anchieta, nº 1916, ou entrar em contato pelo telefone (53) 99712-6389.

Quando a necessidade abre caminho
Nem sempre empreender começa com um plano detalhado. Para muitas mulheres, o negócio surge como resposta a dificuldades financeiras, desemprego ou necessidade de complementar a renda familiar. Segundo o Sebrae, 17% das empreendedoras gaúchas abriram empresas para prover o sustento da família, enquanto 14% buscavam complementar a renda doméstica. Outras 11% apontaram a falta de oportunidades no mercado de trabalho como principal motivação.

Foi justamente a busca por estabilidade financeira que levou muitas empreendedoras a apostar no próprio negócio. Para a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Marielda Medeiros, o empreendedorismo tem desempenhado um papel importante na autonomia feminina. “Quando a mulher passa a gerar sua própria renda, ela conquista mais independência para tomar decisões sobre sua vida e seu futuro. Precisamos celebrar a superação de muitas, mas ainda precisamos discutir a sobrecarga de tarefas, construir redes verdadeiras de apoio e a precarização estrutural que em grande parte, faz com que muitas mulheres desejem e sigam o ramo empreendedor que só resulta em uma sobrevivência mínima”, afirma.

“Existe um risco muito forte de romantizar o discurso da ‘mulher guerreira’, até porque todas nós somos desde que nascemos, pois sobreviver numa sociedade ainda patriarcal, machista, misógina e capitalista, que ainda considera as mulheres como objeto e não como protagonista da sua história e lutas, que mascara a dupla ou tripla jornada, só fortalece e continua romantizando a exaustão dessas mulheres, que impõem barreiras culturais e sociais que ditam os desafios que elas enfrentam diariamente”, diz a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Marielda Medeiros.

Decisões e autonomia
Diferente de outras mulheres que encontraram no empreendedorismo uma alternativa após o desemprego, a publicitária e especialista em Marketing digital Monica Barcellos fez uma escolha planejada. Após anos atuando na área de comunicação e ocupando um cargo de chefia na administração pública, ela decidiu deixar a política para investir integralmente na própria agência (@nicmkrdigital).

A decisão vinha sendo amadurecida desde a conclusão da pós-graduação, mas a estabilidade financeira do cargo fazia com que ela adiasse o projeto. “Eu tinha uma remuneração boa e o Marketing era apenas um auxílio. A tomada de decisão veio este ano, mais precisamente em março, quando resolvi investir no meu projeto e não mais nos projetos dos outros”, relata.

Para transformar a atividade em negócio, Monica se formalizou MEI com orientação do Sebrae. Além da regularização da empresa, a formalização permitiu emitir notas fiscais, ampliar a carteira de clientes e organizar o crescimento da agência. “Senti receio, deu um frio na barriga, mas comecei a ver resultado rápido e a empolgação fez com que eu trabalhasse mais e melhor”, afirma.

Hoje, ela atende cinco empresas – mais que o dobro da carteira que possuía no início da transição – e divide a rotina entre visitas aos clientes e o trabalho remoto. A jornada começa às seis horas da manhã e inclui produção de conteúdo, reuniões, gravações e acompanhamento de ações de Marketing em diferentes segmentos. “Trouxe liberdade e mais paixão ainda pela minha formação”, resume.

Da criatividade ao próprio negócio
Se para algumas mulheres o empreendedorismo nasce da necessidade, para outras ele surge da vontade de transformar uma habilidade em profissão. Foi esse o caminho percorrido por Juliana Tajes. O que começou como um hobby logo se transformou em atividade econômica (@artesajuliana). Com máquinas emprestadas e produção artesanal feita dentro de casa, ela deu os primeiros passos até consolidar sua marca e hoje trabalha com a confecção e criação de roupas no seu ateliê.

A trajetória acompanha um dos principais perfis identificados pelo Sebrae. O estudo aponta que 35% das mulheres abriram seus negócios para trabalhar com aquilo que gostam, enquanto 30% identificaram uma oportunidade de mercado. “Eu comecei muito pequena, aprendendo aos poucos. Em momentos de dificuldade de inserção no mercado de trabalho, recorri ao artesanato como forma de complementar a renda e atravessar períodos mais desafiadores. Com o tempo, percebi que ele não era apenas uma alternativa financeira, mas também uma possibilidade real de construção profissional e realização pessoal. Ter o próprio negócio sempre foi um sonho”, relembra.

Hoje, Juliana integra um grupo cada vez maior de mulheres que transformam talento e criatividade em fonte de renda. “Sempre que possível acompanho palestras e conteúdos disponibilizados pelo Sebrae. Essas orientações ampliaram minha visão sobre empreendedorismo, planejamento e gestão. Ao mesmo tempo, reconheço que ainda existe muito potencial para aplicar novos conhecimentos e fortalecer ainda mais o meu negócio.

Atualmente me sinto mais preparada e qualificada, tanto tecnicamente quanto na administração do meu tempo e no planejamento do crescimento do negócio. Este ano consegui adquirir mais uma máquina, e espero que seja apenas uma entre muitas outras conquistas necessárias para ampliar a produção e fortalecer o ateliê”, comenta.

Crescimento feminino nos negócios
Apesar dos desafios, entidades empresariais observam uma mudança significativa no protagonismo feminino. A presidente da Associação Comercial de Pelotas (ACP), Elisa Gioielli, destaca que cada vez mais mulheres ocupam espaços de liderança e tomam decisões estratégicas dentro do ambiente empresarial. Para ela, a qualificação e o acesso à informação são fundamentais para fortalecer os negócios liderados por mulheres. “Quando elas têm acesso à capacitação e conseguem ampliar sua rede de contatos, aumentam também as possibilidades de crescimento dos empreendimentos”, avalia.

Um dos principais eventos da cidade no tema é o Congresso Mulheres Empreendedoras, que irá para a 7ª edição em novembro de 2026. “O Congresso surgiu da necessidade de criar um espaço de conexão, inspiração e fortalecimento feminino dentro do empreendedorismo. O principal objetivo é mostrar que as mulheres podem ocupar qualquer espaço, além de promover capacitação, troca de experiências e geração de oportunidades. É um ambiente pensado para incentivar, acolher e fortalecer mulheres empreendedoras em diferentes momentos da sua trajetória”, conta.

Um dos principais eventos da cidade é o Congresso Mulheres Empreendedoras, que irá para a 7º sétima edição em novembro de 2026. (Foto: Divulgação)

Para a presidente, participar do Congresso e feiras de negócios ajuda as mulheres no ganho de confiança, fortalecimento da autoestima profissional e ampliação da visão de futuro. “Precisamos avançar em políticas de incentivo, acesso ao crédito com juros acessíveis, capacitação e fortalecimento das redes de apoio. Também é fundamental ampliar a valorização do empreendedorismo feminino e criar ambientes cada vez mais colaborativos. Quando uma mulher cresce no empreendedorismo, ela normalmente impacta toda a família e movimenta a economia local”, discute.

“Hoje vemos mulheres mais preparadas, mais conectadas e mais presentes em espaços de liderança, tanto no empreendedorismo quanto nas entidades representativas. Existe uma mudança cultural acontecendo. As mulheres deixaram de ser apenas participantes do processo econômico para se tornarem protagonistas. Elas estão empreendendo, liderando equipes, inovando e construindo negócios sólidos. Ainda há desafios, mas já percebemos uma transformação importante no reconhecimento e na valorização dessa atuação”, comenta a presidente da Associação Comercial de Pelotas (ACP), Elisa Gioielli.

Segundo a ACP, os setores com maior crescimento da participação feminina são serviços, estética, saúde, alimentação, educação, comunicação e economia criativa. Também cresce a presença de mulheres em áreas historicamente masculinas, como tecnologia, agronegócio e inovação.

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