Museus preservam a história de Pelotas e aproximam a comunidade da cultura

Museus espalhados pelo perímetro do município ajudam a contar e preservar a história de mais de dois séculos da Princesa do Sul. (Foto: Divulgação)

Dos doces tradicionais à biodiversidade, das artes visuais à memória da zona rural, os museus de Pelotas seguem preservando histórias, saberes e identidades que ajudam a contar a trajetória do município. Durante a Semana Nacional dos Museus, celebrada em todo o país, os espaços culturais ampliam programações para reforçar o papel que desempenham na educação, memória e aproximação com a comunidade.

Além de guardar objetos antigos, os museus pelotenses funcionam como espaços de ensino, pesquisa, extensão e pertencimento social. Em comum, todos enfrentam desafios relacionados à manutenção, financiamento e formação de público, mas também compartilham o objetivo de manter viva a memória coletiva de Pelotas.

Museus universitários conectam ensino e comunidade

A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) reúne diversos espaços de memória por meio da Rede de Museus da UFPel (@rededemuseusufpel), criada oficialmente em 2017 para integrar museus, acervos e memoriais ligados à universidade. Segundo a coordenadora Noris Leal, os museus universitários têm papel fundamental na extensão e na democratização do acesso à cultura. “Os museus precisam estar abertos à comunidade. Um museu que não abre suas portas para o público é apenas uma coleção”, afirma.

Hoje, a rede reúne espaços como o Museu do Doce, o Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter, o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Malg), o Museu de Arqueologia e Antropologia (Muaran), além de museus virtuais como Museu das Coisas Banais (MCB), Museu Afro-Brasil-Sul (MABSul), Museu Diários do Isolamento (MuDI), e outros acervos históricos. “A Rede constantemente está planejando e desenvolvendo atividades conjuntas para que todos os espaços, independentemente de serem museus grandes ou menores, possam ter a sua divulgação ampla”, conta Noris.

Museu do Doce conta a história da cidade através da tradição doceira

Museu do Doce é um dos mais conhecidos e visitados no município. (Foto: divulgação)

Instalado no Casarão 8 da Praça Coronel Pedro Osório, o Museu do Doce (@museudodoce) é um dos mais conhecidos e visitados no município. Inaugurado em 2013, ele ultrapassa a ideia de um espaço voltado apenas à gastronomia, seu acervo formado por peças documentais, bibliográficas, históricas ou impressas, tem como missão salvaguardar a memória da tradição doceira de Pelotas e região, com o compromisso de produzir conhecimento sobre esse patrimônio.

A diretora do espaço, Noris, explica que através da tradição doceira é possível falar sobre economia, relações de gênero, design, industrialização e diferenças sociais de um local. Ela ainda aponta que a falta de políticas públicas voltadas à preservação desse patrimônio segue sendo um dos principais desafios. “A universidade faz a sua parte em relação à valorização, mas ainda falta uma política pública de Estado que possa realmente aproveitar esse título que recebemos de patrimônio imaterial brasileiro para o Saber Fazer Doceiro”, comenta.

Ciência, biodiversidade e educação ambiental no Museu Carlos Ritter

Museu trabalha com áreas como zoologia, paleozoologia e biodiversidade do Bioma Pampa. (Foto: Divulgação)

O Museu de Ciências Naturais Carlos, aberto ao público em 1970 e também localizado no entorno da Praça Coronel Pedro Osório, trabalha com áreas como zoologia, paleozoologia e biodiversidade do Bioma Pampa. Entre os destaques do acervo estão coleções de insetos, aves e fósseis do período Triássico. Um dos projetos recentes é o Laboratório de Taxidermia (Latax), responsável pela preservação de animais recebidos do Núcleo de Reabilitação da Fauna Silvestre (Nurfs). O material é transformado em peças científicas e didáticas utilizadas em ensino, pesquisa e conscientização ambiental.

Segundo a Assistente em Administração do museu, Carolina Silveira, a atuação interdisciplinar é uma das marcas do espaço, reunindo estudantes de cursos como Biologia, Turismo, Design, Museologia e Conservação e Restauro. “O museu é um espaço de troca de saberes e formação acadêmica. Muitos alunos relatam o impacto dessa experiência em suas vidas profissionais e pessoais. Isso agrega a instituição e gera soluções mais completas.”, destaca Carolina.

Arte e patrimônio no MALG

Museu tem como missão preservar a obra do pintor pelotense Leopoldo Gotuzzo. (Foto: Divulgação)

Criado em 1986, o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Malg) (@malg.ufpel) tem como missão preservar a obra do pintor pelotense Leopoldo Gotuzzo e promover o acesso às artes visuais. O espaço possui mais de três mil peças, com obras que vão do século XVI à produção contemporânea. Localizado em frente ao Mercado Público, o Malg também realiza exposições temporárias, ações educativas e atividades de formação cultural.

A memória da zona rural preservada pelo Museu Gruppelli

Museu nasceu do desejo de preservar costumes, objetos e tradições da região colonial e rural do município. (Foto: Divulgação)

Criado em 1998 por iniciativa da própria comunidade, o Museu Gruppelli (@museu.gruppelli) localizado no 7° distrito de Pelotas, nasceu do desejo de preservar costumes, objetos e tradições da região colonial e rural do município. Segundo o museólogo voluntário Maurício André Pinheiro, a ideia surgiu a partir da mobilização da família Gruppelli, da professora Neiva Vieira e do fotógrafo Neco Tavares.

O espaço foi instalado em um prédio que originalmente funcionava como vinícola e hospedaria da família, referência histórica da região do Quilombo. Ao longo dos anos, moradores passaram a doar objetos antigos, formando um acervo que hoje representa diferentes comunidades rurais do município. “Muitas pessoas percebiam que, com o avanço da tecnologia, os objetos e costumes estavam desaparecendo. O museu surgiu justamente para preservar essas memórias”, explica Pinheiro.

O Gruppelli foi o primeiro museu da zona rural de Pelotas e inspirou iniciativas semelhantes em outras localidades, como os museus da Colônia Maciel e da Colônia Francesa. Atualmente, o museu passa por obras financiadas pelo Pró-cultura, após sofrer impactos causados pelas enchentes que atingiram a região. Apesar de fechado temporariamente, o espaço prepara novas áreas expositivas, melhorias estruturais e uma biblioteca.

Além das exposições, o museu também promove eventos culturais como o Kolonatale, Festa Campeira, Festival do Rievelsback. “Todos esses eventos são para e com a comunidade, desde o preparo da alimentação, com exposição de artesanatos, venda de flores, produtos agrícolas, produção de doce no tacho e outros. Assim como o museu, as pessoas são a razão da existência dele, elas que dão sentido a todos os objetos que expomos e em todos os eventos que realizamos”, diz o museólogo.

Museu do Saneamento mostra outra perspectiva da história da cidade

Mais recente entre os espaços culturais da cidade, o Museu do Saneamento de Pelotas foi inaugurado em 2022. (Foto: Luiza Meirelles)

Mais recente entre os espaços culturais da cidade, o Museu do Saneamento de Pelotas (Musa) (@ foi inaugurado em 2022 com a proposta de preservar a memória do abastecimento de água e da infraestrutura urbana do município. Coordenado pelo Serviço autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep), o museu reúne fotografias, equipamentos históricos, documentos e objetos ligados à evolução do saneamento em Pelotas.

O museu desenvolve exposições permanentes, visitas guiadas, ações de educação ambiental, atividades educativas com escolas e participação em eventos institucionais. O espaço também busca promover reflexões sobre sustentabilidade, preservação ambiental e uso consciente da água, integrando história e educação ambiental de forma dinâmica e acessível para diferentes públicos.

Segundo a coordenadora do Núcleo de Educação Ambiental e Saneamento, Daiane Dias, o espaço busca mostrar como saneamento também faz parte da identidade da cidade. “Falar sobre saneamento é falar sobre saúde, desenvolvimento urbano, qualidade de vida e cidadania. O MUSA ajuda a contar a história de Pelotas sob uma perspectiva diferente, mostrando como a cidade evoluiu ao longo dos anos através da infraestrutura e dos serviços públicos. Além disso, contribui para fortalecer o sentimento de pertencimento da comunidade e valorizar o patrimônio histórico e institucional do município”, afirma.

Século XIX e XX no Museu da Baronesa
Um dos mais tradicionais espaços culturais de Pelotas, o Museu da Baronesa (@museudabaronesa) permanece fechado há anos enquanto aguarda a aprovação do projeto e do Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI), com previsão de retomada no segundo semestre, segundo a Prefeitura.

Instalado em um casarão construído em 1863, período de auge econômico da cidade, o museu reúne mais de mil peças que ajudam a contar a história da elite pelotense entre os séculos 19 e 20, com móveis de mogno, porcelanas, vestimentas, enxovais e objetos decorativos. O acervo também preserva itens do artista e colecionador pelotense Adail Bento Costa, reforçando a importância histórica e cultural do espaço para a memória do município.

Museu da Cidade de Pelotas tem obra orçada em R$ 5 milhões
O Museu da Cidade de Pelotas, localizado no casarão 6, passa por um processo de reestruturação que busca transformar o espaço em um importante centro de preservação da história local e regional. Segundo a Prefeitura, o processo licitatório das obras está temporariamente suspenso para análise de questionamentos apresentados por empresas participantes.

O projeto prevê um investimento total de R$ 13 milhões, incluindo restauração estrutural, acessibilidade, climatização, PPCI e recuperação de danos causados pelos anos sem utilização do prédio. A proposta também inclui a criação de salas expositivas, áreas museográficas e um Centro de Documentação e Referência voltado à produção historiográfica, musical e cinematográfica de Pelotas e do Rio Grande do Sul. Restaurado em 2012 com recursos públicos, o casarão permaneceu mais de uma década fechado, sem uso definido e sem manutenção contínua.

O Museu da Cidade deve ser instalado no Casarão 6. (Foto: Perene Patrimônio)

Horário de funcionamento* dos museus
Museu do Doce: entrada gratuita de terça a sábado, das 13h às 18h
Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter: entrada gratuita de segunda a sábado, das 13h às 18h30
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo: entrada gratuita de terça a sábado, das 13h às 18h30
Museu Gruppelli: temporariamente fechado para requalificação e restauro
Museu de Saneamento de Pelotas: entrada gratuita, de segunda a sexta-feira, das 8h às 13h (visitas podem ser realizadas mediante agendamento, especialmente para grupos escolares e instituições pelo WhatsApp (53) 98428-0043
Museu da Baronesa: temporariamente fechado para requalificação e restauro
Museu da Cidade: “em construção”

*Confira horários especiais da Semana dos Museus pelas redes sociais das instituições