Comunidade geek movimenta economia, entretenimento e cria vínculos em Pelotas

Eventos, comércio local e autônomos unem cultura geek, pertencimento e renda. (Foto: Tobias Bernardo/Secom)

Celebrado em 25 de maio, o Dia do Orgulho Nerd homenageia a cultura geek e o universo que reúne fãs de jogos, quadrinhos, filmes, séries, ficção científica, fantasia e tecnologia. Com referência a uma das sagas mais aclamadas da cultura geek, a data foi escolhida em 2006, na Espanha, por conta do filme Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, além de ser conhecida internacionalmente como o “Dia da Toalha”, em homenagem ao escritor Douglas Adams de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Com fãs espalhados por todo o mundo, em Pelotas não seria diferente, esse movimento aparece em eventos, lojas, produções artesanais, encontros de fãs e até mesas de RPG profissionalizadas. Além de consumir produtos, os integrantes da comunidade geek criam espaços de convivência, expressão artística e acolhimento.

Com participação intensa no mercado, a categoria tem crescimento anual entre 5% e 10%, movimentando cerca de R$ 22 bilhões no Brasil e US$ 300 bilhões globalmente segundo dados da Licensing International e da Associação Brasileira de Licenciamento de Marcas e Personagens (Abral). O universo nerd é um dos setores mais fortes do entretenimento e da economia criativa, impulsionando desde grandes franquias até pequenos empreendedores.

Integração e entretenimento
O organizador da ConGeek (@con_geek), Caio Viscardi, conta que a trajetória começou ainda em Pedro Osório, quando ele e colegas da escola pública se reuniam para assistir animes e conversar sobre os episódios. Com o tempo, os encontros cresceram e deram origem ao OtakuSório, evento que chegou a reunir mais de 280 pessoas. “Percebemos que existiam mais pessoas com os mesmos interesses e pensamos: por que não criar um evento para reunir esse público?”, relembra.

Depois do fim do projeto, surgiu a ideia de criar algo maior, a ConGeek, voltada à realização de eventos ligados à cultura geek em Pelotas. Segundo Viscardi, a pandemia acelerou ainda mais o crescimento desse universo. “As pessoas passaram mais tempo em casa e começaram a consumir mais entretenimento, como filmes, séries, animes, jogos e tecnologia em geral. Algo que já era muito forte acabou ganhando ainda mais espaço”, afirma.

Hoje, os eventos reúnem famílias, adolescentes, cosplayers, fãs de RPG, gamers, grupos de k-pop e pessoas ligadas à cultura alternativa. Para o organizador, o principal diferencial da comunidade está no acolhimento. “Existe um ambiente onde as pessoas podem ser elas mesmas, sem medo de julgamentos”, destacam. Além do aspecto social, os eventos movimentam a economia local, com muitos lojistas de Pelotas, fazendo com que o dinheiro continue a circular na própria cidade.

O geek como mercado
Há mais de duas décadas trabalhando com quadrinhos e cultura pop, Antônio do Vale, criador da Escudo Geek – Loja de Quadrinhos e do Mundo Geek (@escudogeek), acompanhou de perto as transformações do público nerd em Pelotas. Colecionador desde os anos 1980, Vale criou a Escudo como uma extensão da antiga revistaria São Francisco. O espaço acabou se tornando um ponto de encontro para fãs da cultura pop na cidade.

Segundo ele, o perfil do público mudou bastante nas últimas décadas. Antes centrado em quadrinhos de super-heróis, o mercado passou a incluir mangás, filmes da Marvel, cultura pop coreana e produtos licenciados. “O gibi físico deixou de ser o centro. Hoje o grande faturamento está nos produtos ligados a esses universos. Onde você tiver renda, você vai ter o geek gastando naquilo que ele adora”, diz.

Para Vale, houve uma mudança porque o público geek. “antigamente era um público de gibi de super-herói, nos anos 2000, a gente teve o advento do mangá e com os filmes da Marvel em profusão e a cultura pop coreana, isso se diversificou muito, então passou a se ter uma procura por produtos e não por gibi. O público mais antigo, é mais fiel e um público de papel, eles gostam de ter o produto na mão. O público mais novo, ele é muito de youtube, de gibituber. Então, ele não tem essa fidelidade com um lojista ou com um produto. Ele costuma meio que navegar na onda do momento”, explica.

Arte, identidade e profissão
Para muitos fãs, a cultura geek também se transforma em expressão artística e oportunidade profissional. É o caso de Elisa Müller, conhecida como Lisah, cosplayer e wigmaker, profissional especializada na estilização de perucas para personagens (@Stylisah_wigs).

A relação dela com o universo começou ainda na infância. “Eu sempre gostei muito de cosplay e admirava bastante esse universo, principalmente a criatividade, os personagens e a forma como as pessoas conseguiam dar vida a eles. Comecei fazendo cosplays de ‘armário’ e improvisados. Com o tempo fui me aproximando ainda mais desse meio, conhecendo mais sobre a comunidade e descobrindo que eu realmente amava criar e fazer cosplay”, lembra.

O que mais encanta Lisah nesse universo é a liberdade criativa. “No cosplay você pode interpretar personagens, criar detalhes únicos, trabalhar na maquiagem, figurino e principalmente estilização de perucas. É uma sensação única, me sinto viva e feliz fazendo cosplays. Eu decidi começar a trabalhar como wigmaker quando percebi o quanto gostava da parte de estilização e criação das perucas. Era algo que exigia paciência, criatividade e atenção aos detalhes, e eu sentia que conseguia transformar isso em um trabalho artístico que realmente me representava”, conta.

Hobby também pode virar trabalho
Outro segmento que cresce dentro da cultura geek é o RPG de mesa, um tipo de jogo de interpretação. O estudante de Psicologia Vitor Reis transformou o hobby em fonte de renda atuando como mestre de campanhas. Segundo ele, a conexão com o universo nerd começou nos videogames, passando por franquias como O Senhor dos Anéis, Game of Thrones e Avatar: A Lenda de Aang.

O trabalho de mestre envolve criação de mundos, roteiros, personagens, mapas e mediação social entre os jogadores. Com a popularização do RPG nas redes sociais, principalmente entre jovens, surgiram também as chamadas mesas comissionadas – campanhas pagas. “Como mestre, amo ver os jogadores entregando parte de quem eles são, de como enxergam o mundo, através dos personagens que escolhem jogar, seja presencial ou on-line”, explica. Saiba mais sobre o trabalho de Reis em Twitch.tv/Icaro_Felyn.

Ele observa que o público se tornou mais diverso nos últimos anos. “Hoje não é mais só o clássico nerd fã de jogos de tabuleiro. Consumir o universo geek é um hábito diário e foi além de hábito faz tempo. É um estilo de vida. Jogar games cooperativos online com amigos, marcar de assistir a uma estreia no cinema, se empolgar com o lançamento de um personagem novo num jogo…tudo isso também funciona como regulador emocional e como forma de conexão nos relacionamentos. Esse tipo de conteúdo é uma espécie de arte que a gente precisa pra viver bem”, conclui.