Invasão de privacidade

Impressionante a orquestração de sons de telefones celulares, tocando a plenos pulmões em todos os lugares por onde se anda. Pessoas, aparentemente, falando sozinhas circulam olhando para coisa alguma ou alguém, numa alienação quase absoluta.

A impressão que se tem é de que está ocorrendo uma invasão. Estamos sendo monitorados, não por alienígenas que chegaram ao planeta Terra para nos escravizar, mas por pequenos aparelhos que nos fiscalizam e controlam.

E adolescentes e adultos compartilham desse meio de comuni­cação moderno, indistintamente. Os mais jovens, em sua maioria, o usam descontrolada e compulsivamente para futilidades. Os pais pensam que, permitindo esse hábito, têm acesso aos filhos e à dis­tância sentem-se, de certa forma, seguros porque podem alcançar a sua prole onde quer que esteja. Infelizmente, não está funcionando dentro das expectativas.

No que diz respeito aos adultos, o condicionamento à utilização do celular é tamanho que chegam a dormir ao lado dele, como se fosse um companheiro inseparável, um objeto de estimação.

O telefone celular passou a ser imprescindível. O Quinto Poder instalado entre nós através de radares de longo alcance. Sem falar nas inúmeras opções que o “danadinho” nos oferece, enfeitiçando nossas carências: — a possibilidade de conferir o número que chama e decidir atender ou não; mensagens de voz, mensagens escritas, a que chamam muito propriamente de “torpedos”, e assim por diante.

No entanto, a meu ver, estamos sendo invadidos e torpedeados a torto e a direito. Privacidade deixou de existir.

Essa questão está preocupando até as grandes empresas, que constatam a diminuição de rendimento pelo uso exagerado do celu­lar, que não respeita os limites do bom-senso. Os seus funcionários estão perdendo muito tempo atendendo e respondendo mensagens.

E, mesmo desligado, o celular fica registrando quem nos cha­mou, nos colocando na quase obrigação de dar um retorno depois. Escravidão disfarçada de progresso.

Tenho um amigo que não possui celular. Ser raro. A tranquili­dade, a paz com que ele vive me está fazendo pensar em buscar o mesmo.

Sinto saudade do tempo em que a comunicação telefônica se restringia a um aparelho fixo e prostrado num canto da sala, que só tocava para chamadas necessárias e só era usado para resolver problemas, e não os criar.

Atualmente, carregamos um monitor de controle que nos expõe como alvos e nos torna vulneráveis a todo e qualquer contato, dese­jado ou não. A tão proclamada liberdade fica anulada, jogada ao léu. E a privacidade, terreno inviolável e sagrado do ser humano, está sendo colocada num nível de uso comum de todos.

O telefone celular, muitas vezes útil, sem dúvida, nos resolve problemas em frações de segundos, nos socorre em emergências, nos leva aos quatro cantos do mundo sem escalas e economiza tem­po. Porém, se torna inconveniente em determinadas situações, como agora, por exemplo:

— Com licença, um momento, por favor. Desculpem, mas meu celular está tocando. Escrevo mais depois.