Cara ou coroa

Em meio a um fogo cruzado a vida vai tentando se equilibrar e respirar entre a alegria e a tristeza, a saúde e a doença, a pobreza e a riqueza, a incompreensão e o entendimento.

De um lado a esperança de que tudo melhore, do outro, a constatação de uma realidade adversa. De um lado a possível semeadura, do outro, a imprevisível colheita.

“E a gente vai levando, vai levando”, como diz o Chico Buarque na letra da canção. Desviando, adequando, evitando, driblando com um jogo de cintura invejável.

Cada um se protege na trincheira que mais lhe convém. Alguns fingem que não ouvem, outros não veem e há os que não falam. Isso, no entanto, não exime ninguém de sair chamuscado desse fogo cruzado.

A oscilação entre o riso e o pranto deixa marcas na face, a insegurança no ir e vir deixa sobressaltos nos sentidos. E por aí vai um sem número de situações que nos colocam entre o fogo e a caldeira.

O mais difícil é ter que decidir, é precisar escolher qual a maneira mais adequada para sobreviver entre os dois lados da moeda. Cara ou coroa?

O que depende da vontade e está ao alcance das possibilidades é decidido rapidamente e de forma bem eficaz. O “X” da questão diz respeito ao que foge do controle. Por essas e por outras reconheço que existe o incontrolável que nos cerca e que se lança como dardo de encontro às aspirações, tentando aniquilá-las.

Mas lá no resguardo da trincheira, tomando fôlego, energias se armazenam, confiança se renova. Naqueles intervalos que sucedem e separam o bom e o ruim, o agradável e o infortúnio, o ganho e a perda, alguma força vinda do impulso de sobrevivência nos reveste com escudo invisível e saímos com coragem para o campo aberto.

Venha o que vier, haja o que houver, por instantes, nos sentimos imunes as tristezas, a doença, a pobreza, a incompreensão que rondam ameaçadoramente o corpo e a alma na aventura de viver. Mesmo que as rajadas do fogo inimigo tentem nos alcançar (e, muitas vezes alcançam) continuamos teimosamente a buscar a alegria da partilha e a riqueza dos bens inalienáveis apesar de saber que mesmo querendo escapar ao alcance das labaredas alheias sempre saímos chamuscados.

O segredo é o amor. Amar a si mesmo, aos outros e, principalmente, amar a vida é o que nos dá munição para combater as contrariedades, seja de que lado for, venha de onde vier.
No tempo certo, chega o momento da colheita. E a qualidade dos frutos testemunha a boa semeadura, concretizando um tratado de paz, um cessar fogo. Momentâneo, talvez, mas sempre oportuno.

Afinal, ninguém é de ferro. E guerreiros também repousam.