“Entrei pelo cano”

Kalunga Mello Neves, escritor, compositor e palestrante. (Foto: Divulgação)

Sempre achei que a comunicação entre mim e meus pares no meu tempo de piá era bem mais clara e direta, não causando maiores embaraços para ser compreendida por qualquer um de nós.

Primeiro porque a gente prestava mais atenção nas conversas, e não se distraia com bobagem. Isso era sinal de que as professoras tinham o seu valor, eram respeitadas, e ai de quem levantasse a voz para elas.

Segundo porque não tinha celular, que só chegou quarenta e picos de anos depois. Eu só tive o primeiro quando já era casado, três filhas, bem colocado na vida. E me custou mil e quinhentos pilas, uma fortuna na época, parecendo mais um tijolo de tão grande. E era um parto pra conseguir sinal naquela joça…

Mas voltemos à comunicação. A minha geração, além das gírias comuns da época — gurizão da Pepsi Cola, rente que nem pão quente, tô contigo e não abro, me ralei, se foi o boi com a corda, tô dentro, mais por fora que umbigo de vedete — tinha a linguagem “da moda”, culpa da gurizada da Jovem Guarda, um movimento musical de cabeludos, que em nossa região o grande divulgador era o Mario Antonio com seu programa na Rádio Universidade.

Aí a gente, para ser barra limpa, falava: é uma brasa, mora! Papo firme, mina, pão e brotinho, botando banca, bicho, nem vem que não tem, brucutu e por aí ia…
Ah, e pasmem. A gente lia muito mais do que agora, apesar da dificuldade de quem morava no interior de conseguir acesso a livros. O Professor Abel e a profª Maria Amélia não me deixam mentir. A biblioteca da escola quebrava o galho. Em compensação, gibi era uma febre. E um aprendizado também, pois antes das matinês a gente ia mais cedo para o cinema e aí trocava revistinhas e batia um papo com quem estivesse por ali para este fim. Durante a semana, enquanto esperava a próxima sessão de troca, eu contava as histórias dos mocinhos, do Tarzan, do Zorro, do Bolinha para os vizinhos de bairro, nos fins de tarde depois da pelada de futebol. Nosso vocabulário, então, aumentava consideravelmente na marra rsrs.

Num certo domingo, gibis embaixo do braço, fui todo feliz para a matinê. Quando vi a Lidia Lúcia pensei na hora em dar todos meus gibis de presente pra ela. O Chicão Lamarca chegou antes e abafou toda a minha coleção. Aí falei com meus botões: entrei pelo cano…

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